Colunas - Rodrigo Mattar
04/05/2014 15:50

Coluna Parabólica, por Rodrigo Mattar: Cruéis semelhanças

Doze anos separam momentos distintos de dor e perda, mas que, por outro viés, trazem muitas coincidências entre si. Em ambas as situações, morreram dois personagens queridos e idolatrados. Diria que dois mitos do esporte – Gilles Villeneuve e Ayrton Senna. E, por outro lado, duas outras vítimas que as circunstâncias trataram de deixar anônimas, também foram sacrificadas – o italiano Riccardo Paletti e o austríaco Roland Ratzenberger
Antes que alguém me cobre por não escrever nada especificamente sobre Ayrton Senna, aviso: diante do material já produzido, quem sou eu para me atrever a falar algo sobre o brasileiro, cuja morte completou 20 anos no último dia 1º de maio. De mais a mais, quem me conhece um pouco nas redes sociais e no trabalho como jornalista e comentarista de automobilismo – neste mês, completo 11 anos na função – sabe que minha predileção é por outro tricampeão: Nelson Piquet. É aquilo: se tem quem não esconde sua admiração por Senna, não escondo a minha pelo primeiro brasileiro a ser três vezes campeão na F1.

Mas isso não vem ao caso. A coluna não é para semear discórdias e muito menos para pôr mais lenha na fogueira nessa dicotomia entre mocinho e bandido que às vezes é um pé no saco. É para traçar um paralelo entre dois anos em que o automobilismo e a F1 foram enormemente abalados por tragédias. Refiro-me ao que aconteceu em 1982 e, lógico, 1994.

Doze anos separam momentos distintos de dor e perda, mas que, por outro viés, trazem muitas coincidências entre si. Em ambas as situações, morreram dois personagens queridos e idolatrados. Diria que dois mitos do esporte – Gilles Villeneuve e Ayrton Senna. E, por outro lado, duas outras vítimas que as circunstâncias trataram de deixar anônimas, também foram sacrificadas – o italiano Riccardo Paletti e o austríaco Roland Ratzenberger.
O austríaco Roland Ratzenberger perdeu a vida depois de um acidente no sábado em Ímola (Foto: Forix)
Em termos de tragédia, de fato, o que se viu em 1994 foi duro demais. Foram duas mortes num espaço de pouco mais de 24 horas. Um acidente brutal levou Ratzenberger e outro onde a fatalidade regeu os desígnios do destino de Ayrton Senna, vítima de uma falha mecânica que levou sua Williams a bater na veloz curva Tamburello.

Ocioso dizer que a morte de Senna foi mais revestida de comoção no mundo inteiro que a do austríaco. Mas, como diz Niki Lauda, compatriota do piloto falecido em 30 de abril, há 20 anos, “quando alguém pensar em Senna, não deve esquecer Ratzenberger”.

De fato, durante quase todos esses anos, o piloto da Simtek foi tratado apenas como mais um nessa história toda. Talvez sua morte, caso fosse anunciada na pista mesmo, poupasse o mundo inteiro da dor de presenciar, ao vivo, o desaparecimento de um dos maiores nomes da história do automobilismo. Mas o “se” não existe e o destino foi caprichoso e cruel ao mesmo tempo com Senna, que perseguia de forma tenaz uma vitória para não só mostrar a Michael Schumacher que tinha carro para derrotar o alemão após dois reveses no Brasil e em Aida, no Japão – e também para homenagear Roland, já que levara uma bandeira da Áustria consigo, no macacão.

Ratzenberger pagou um preço alto demais, muito maior do que os US$ 500 mil que desembolsou para competir em meia dúzia de provas com uma equipe que estreava na F1 e que desapareceria na primeira metade do campeonato de 1995. E há uma pergunta que cabe ser feita, vinte anos depois.

Por que não foi feita uma investigação pela justiça italiana acerca da morte do austríaco? Por que só interessava procurar culpados no acidente que vitimou Ayrton Senna? Tanto quanto a batida do brasileiro, o acidente de Ratzenberger também foi provocado por uma falha – no caso uma parte do aerofólio dianteiro que tensionou nas zebras altas do circuito Enzo e Dino Ferrari. Há uma foto de Joe Saward que mostra a Simtek do austríaco fora de controle na curva Rivazza, minutos antes da batida fatal. O aerofólio dianteiro entrou por baixo do carro, um pedaço do mesmo foi ejetado para o alto e a frente levantou, provocando a pancada calculada em mais de 310 km/h.

Doze anos antes, num tempo em que os carros de F1 eram muito menos seguros que em 1994 – e igualmente velozes, graças ao uso do efeito-solo, que aumentava a pressão aerodinâmica nas curvas – Gilles Villeneuve fez muita gente chorar de tristeza com o seu voo fatal nos últimos minutos da classificação para o GP da Bélgica, em Zolder. A minha geração de fãs do esporte, e que amava o canadense por sua garra, maluquice, simpatia e velocidade, desabou em prantos – tal como fariam os fãs de Senna em 1994, o que provocou o seguinte fenômeno: de um dia pro outro, muita gente que acompanhava as corridas para vibrar com as vitórias do brasileiro, simplesmente deixou de fazê-lo. É um assunto que merece uma análise mais profunda, mas não neste momento.

E quando digo que há semelhanças entre Paletti e Ratzenberger, basta excetuar a idade, já que o austríaco tinha 33 anos e o italiano 23 (morreu dois dias antes de completar 24 anos). Ambos eram estreantes, estavam em equipes de estrutura pequena comparadas às de Senna e Villeneuve e pagavam para correr. Paletti, que poucos anos antes de ingressar no automobilismo ainda era esquiador, conseguira a vaga de segundo piloto na Osella com dinheiro da Pioneer italiana e de outros patrocinadores menores. Ratzenberger contou com o apoio de Barbara Behlau, que foi importantíssima na captação dos dólares que o fizeram sentar no carro #32 e realizar o antigo sonho de menino.

A morte de Paletti também pode, em parte, ser creditada à inexperiência do piloto. Ele participara apenas do GP de San Marino, boicotado por todas as equipes ligadas ao grupo político liderado por Bernie Ecclestone – exceto a Tyrrell. Naquela corrida, Riccardo deu apenas sete voltas. Em Detroit, uma semana antes do acidente fatal, o italiano conseguiu um lugar no grid, mas não alinhou em decorrência de um acidente. Seria, portanto, a segunda prova da carreira se ele não encontrasse pela frente a Ferrari de Didier Pironi, inerte, após o apagar da luz verde. Com afundamento do tórax – o incêndio que se seguiu à batida só dificultou o trabalho de resgate – Paletti faleceu diante dos olhares desesperados da própria mãe, que o piloto levara para vê-lo correr e comemorar um aniversário que jamais aconteceu.
Gilles Villeneuve e Ayrton Senna não são os únicos que devem ser lembrados quando falamos das mortes ocorridas na F1 nas temporadas 1982 e 1994 (Foto: Getty Images)
Muita coisa poderia ter mudado e lá vem de novo o tal do “se”. Se Villeneuve não estivesse com ódio de Didier Pironi e atrás do francês no treino em Zolder, nada daquilo teria acontecido; se Paletti tivesse visto a traseira do carro de Pironi a tempo de desviar, o acidente e o incêndio da Osella teriam sido evitados; se Ratzenberger tivesse optado por continuar no automobilismo japonês, no qual tinha uma carreira frutífera na Fórmula Nippon e em provas de Protótipos teria sobrevivido; se a barra de direção não tivesse quebrado, talvez a história daquele campeonato de 1994 tivesse sido diferente.

Se e talvez. Como são conjunções e não fatos, destinos, tragédias e lágrimas, expõem a cruel realidade de perdas que ainda doem e fazem o imaginário do torcedor voar alto.

Hoje, duas décadas depois, os fãs brasileiros aprenderam a respeitar o fato de que, além de Senna, outra vida se perdeu naquela tragédia de Imola. O nome de Roland Ratzenberger começa também a ser associado a um dos finais de semana mais tristes do automobilismo em todos os tempos. Espero que em 2022, quando a morte de Gilles Villeneuve completar quatro décadas, a perda de Riccardo Paletti seja lembrada à altura do que significa um sonho interrompido, uma vida sacrificada pela fatalidade.
Rodrigo Mattar escreve aos domingos no GRANDE PRÊMIO
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