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26/06/2015 08:30 - Atualizada 26/06/2015 15:14

Última grande disputa de título entre brasileiros terminou com toque e vitória, mas sem nenhum deles campeão

Nelsinho Piquet e Lucas Di Grassi são líder e vice-líder da F-E antes da etapa decisiva, neste fim de semana, em Londres. É a maior decisão entre brasileiros no automobilismo internacional desde a final da Indy em 2003, envolvendo Helio Castroneves, Tony Kanaan e Gil de Ferran
Warm Up / RENAN DO COUTO, de São Paulo / PEDRO HENRIQUE MARUM, do Rio de Janeiro
 Dixon estragou a festa dos brasileiros (Foto: IndyCar)
Foi há 12 anos que, em uma das principais categorias internacionais, brasileiros decidiram um título pela última vez. A batalha teve um deles ganhando a corrida, toque entre os outros dois e o título caindo nas mãos de um piloto nascido do outro lado do planeta.
 
A breve descrição feita acima remete à final da temporada 2003 da Indy Racing League. Helio Castroneves, Tony Kanaan e o azarão Gil de Ferran eram os três brasileiros com chances. Gil, que fez a última prova da carreira naquele dia, venceu, mas o resultado só lhe deixou com o vice. E Scott Dixon foi quem saiu coroado do oval do Texas.
 
Neste fim de semana, em Londres, um confronto verde e amarelo volta a acontecer. Nelsinho Piquet tem 17 pontos de vantagem para Lucas Di Grassi antes da rodada dupla que encerra a F-E, e o suíço Sébastien Buemi é o azarão, 23 atrás.
 
Quem levar a melhor colocará o nome na história como o campeão do primeiro campeonato de carros totalmente elétricos da história do automobilismo.

Para destacar um momento que pode ser marcante para o automobilismo do Brasil, o GRANDE PRÊMIO aproveita para relembrar esta outra decisão.

O caminho de Piquet, Di Grassi e Buemi na briga pelo título da F-E
Dixon, Castroneves, Kanaan, Hornish e Gil: cinco pilotos tinham chances (Foto: IndyCar)
A 5-way fight
 
Na última corrida da Indy em 2003, não eram apenas Castroneves, Kanaan e De Ferran que tinham chances. O neozelandês Scott Dixon e o norte-americano Sam Hornish Jr., em busca da terceira taça, também estavam no páreo.
 
A situação, naturalmente, não era clara: Castroneves, Dixon e Kanaan precisavam apenas vencer. Helio e Scott estavam empatados com 467 pontos na hora da largada. Hornish precisava ver os dois primeiros fora do top-4 e Tony, fora do top-3. Já De Ferran só seria campeão com uma série de improváveis combinações – faltou pouco para isso: Helio e Dixon fora do top-10, Kanaan no máximo em sétimo, e Hornish, em terceiro.
 
“Foi algo especial, pois chegar a uma final com cinco pilotos disputando o título mostra como que a categoria é competitiva”, conta Kanaan ao GRANDE PRÊMIO. “Quando você está disputando com um cara só, fica fácil de fazer as contas e os cenários para ganhar, mas eram cinco. Eram tantas contas diferentes que os engenheiros estavam fazendo que eu nem lembro. Acho que trabalhávamos com dez situações.”
Gil, Dixon, Castroneves e Kanaan em briga pela liderança (Foto: IndyCar)
Aos 35 anos, Gil buscava o terceiro título nos monopostos norte-americanos, mas os dois primeiros haviam sido conquistados na Champ Car. Na IRL, seria o primeiro. Naquele ano, já havia vencido as 500 Milhas de Indianápolis e também perdido a prova de Motegi por causa de uma lesão sofrida nas costas em Phoenix. Para aquela derradeira apresentação, ele largaria na pole – aliás, o também bicampeão Hornish já estava contratado para substituí-lo em 2004.

O mérito da pole, Gil, falando ao GP, quase que entrega para o colega de time. "O Helio estava mais bem colocado. Portanto, ele fez todos os testes de preparação, o acerto do carro, e eu fui para o fim de semana com o acerto que ele havia desenvolvido, sem ter feito nenhum teste no Texas. Ele fez um ótimo trabalho, o carro estava fantástico e classifiquei na pole!", agradece.
 
Gil seguiu na frente durante boa parte da prova, acompanhado pelos outros quatro postulantes ao título. Tomas Scheckter, companheiro de Dixon na Ganassi, também estava no bolo. Mas, na metade da prova, precisou ir aos boxes após passar por detritos do forte acidente envolvendo Alex Barron e Felipe Giaffone.
 
O veterano se recuperou na prova graças a uma inteligente chamada estratégica de Roger Penske e, depois de uma bandeira amarela já na parte final da disputa, surgiu em primeiro outra vez. Atrás dele estavam Castroneves, Dixon e Kanaan. E foi quando tudo se decidiu. A essa altura, Hornish estava fora devido a um problema mecânico no carro da Panther.
Gil de Ferran fez a pole e venceu na última prova da carreira para ser vice (Foto: IndyCar)
Kanaan, como sempre, relargou muito bem e passou Dixon. Mas, enquanto superava o #3 na reta oposta, sua roda traseira esquerda tocou na dianteira direita. Um contato sutil, que sequer fez com que eles perdessem o controle dos carros, mas que rasgou ambos os pneus. 
 
“Lembro muito bem daquela corrida”, conta Castroneves ao GP. “Eu andei o tempo todo no grupo da frente e, até faltarem 12 voltas, eu estava na parada pelo título. Na disputa, acabou havendo um toque lateral e eu tive de ir aos pits para trocar pneus. Quando voltei, caí para 15º. Já estava em 13º quando houve o acidente na volta 188. Como não houve relargada, o Gil venceu, o Scott foi campeão e eu fechei em terceiro.”
 
O acidente mencionado foi a assustadora batida do sueco Kenny Bräck com Scheckter. Bräck decolou em direção ao alambrado em um impacto medido em 214 G. Ele sofreu fraturas múltiplas pelo corpo, incluindo o esterno, o fêmur, os tornozelos e uma lesão em uma vértebra. Foram 18 meses de recuperação até ele poder voltar para fazer sua última prova na Indy nas 500 Milhas de Indianápolis em 2005.
 
Com 12 voltas para o fim, os danos causados às barreiras de proteção e a preocupação com Bräck significaram que a prova não recomeçou.

"A corrida foi conturbada, rodei no meio me recuperei e acabei vencendo! Com relação ao campeonato, sabia que somente a vitória bastaria para se campeão, mas dependia do resultado dos meus adversários. Na situação em que me encontrava, decidi não me preocupar com o campeonato e somente fazer o melhor possível... Quase deu certo!", diz Gil.
 

Falar português atrapalha?
 
Nem de longe o relacionamento entre o trio de brasileiros era tempestuoso como é o de Piquet e Di Grassi, hoje, na F-E. De Ferran e Castroneves eram companheiros de Penske, e os três se davam bem. Na abertura da transmissão da ESPN norte-americana, Castroneves e Kanaan inclusive foram apresentados como melhores amigos. “Eles correm juntos desde quando eram crianças no Brasil”, disse o narrador Paul Page. Seis anos antes, eles já haviam decidido também o título da Indy Lights, com o baiano levando a melhor.
 
Mas, debaixo do capacete, nada disso importou. "Nem um pouco!", garante Gil. "Minha atitude foi sempre muito voltada às coisas que controlo, à minha performance e nada mais. Sempre procurando encarar todas situações da maneira mais fria possível."

“Obviamente que gerou uma mídia extra sermos todos brasileiros, como também foi muito comentado o fato de eu e o Gil, ambos da Penske, estarmos com chances. Mas não pesou nada o fato de ter outros brasileiros na disputa”, fala Castroneves. “Quando você está na pista, não quer saber de onde é o cara que está na sua frente. Você quer é passar.”
 
Kanaan concorda: “Não, você sabe como funciona. Depois que dá a largada, não importa quem está indo contra, você só quer ganhar. Claro, foi legal ter o Gil e o Helio, mas nada que mudasse a corrida.”
 
O então piloto da Andretti não levou aquele título, mas dominou a temporada seguinte, completando 100% das voltas e sagrando-se campeão com sobras. “2003 foi muito bom para nós, considerando que era o primeiro ano da Andretti na IRL, enquanto a Penske e a Ganassi já tinham um ano na categoria. Fizemos o nosso dever de casa e voltamos no ano seguinte para vencer”, ressalta.
(Arte: Rodrigo Berton)
Disputa elétrica
 

Piquet e Di Grassi também minimizam o fato de se tratar de uma disputa entre compatriotas.

Mas o piloto da Audi ABT avalia, em entrevista ao GP, que é algo importante para o automobilismo nacional como um todo. “Acho que isso é positivo para o Brasil, de uma forma geral. Ter dois brasileiros disputando o título de uma categoria mundial como a F-E, cheia de nomes importantes, mais de 12 ex-F1, e que vem dando audiência. Então é sensacional”, diz Lucas.
 
“Mas, falando da estratégia, não muda nada. Ganhar o título sempre é importante, e o mais importante é o último, então se estou lutando contra o Buemi ou o Nelsinho, para mim não muda. Vou fazer o máximo para vencer tentando ser justo na pista, e fora da pista tentar levar a vitória para o Brasil”, completa.
 
É basicamente o mesmo pensamento de Piquet. “Não pesa nada. Vai ser a mesma coisa independentemente de quem são os caras que vão decidir comigo. Vou fazer de tudo para ganhar e isso é para mim, não é contra ninguém nem nada. Eu quero vencer o campeonato para mim, para minha equipe e minha família”, fala ao GP.
O pódio em Moscou: as duas bandeiras do Brasil e o 'intruso' suíço. Buemi pode ser o Dixon da vez? (Foto: AP)
Em cima do muro
 
Kanaan e Castroneves preferiram não dar palpites sobre qual dos dois brasileiros da F-E. “Acompanho e acho bem interessante”, fala Kanaan sobre o assunto. “A disputa está bastante acirrada e acho que os dois estão preparados para o título.”
 
“Aposto que os dois repetirão em Londres o que fizeram em todo o campeonato e em suas carreiras, que é mostrar todo o talento que possuem. Admiro muito os dois e tenho certeza que é isso que vai acontecer, porque são dois pilotos maravilhosos”, completa Castroneves.

"O Lucas tem sido competitivo desde o início, mas a performance do Nelson se elevou muito nas últimas etapas", De Ferran avalia. "Na verdade é muito difícil de apontar um favorito. Boa sorte aos dois. Para nós, o mais importante é que, se um dos dois vencer, será mais uma conquista importante para o automobilismo brasileiro."

E na F1?

Na principal categoria do planeta, nunca chegou a ocorrer uma disputa direta entre dois brasileiros pelo título. Em 1986, Ayrton Senna venceu duas provas no início do campeonato com a Lotus, mas não teve como acompanhar o crescimento de Williams e McLaren no restante do ano. Na decisão, Nelson Piquet e o companheiro Nigel Mansell acabaram derrotados por Alain Prost. Em 1987, a disputa foi comandada pela Williams, e Piquet faturou o tri no Japão. Senna terminou em terceiro, 16 pontos atrás.

*Reportagem atualizada às 12h14 com as declarações de Gil de Ferran.