Coluna Rookie Text, por Vitor Fazio: Para Monte Carlo, com carinho

A F1 não é feita apenas de ultrapassagens incríveis, mas também de muita cautela, estratégia e autocontrole. Esses três últimos itens são essenciais em Monte Carlo, por isso o Principado é tão interessante, decisivo e perigoso

O próximo fim de semana reserva algo especial para muitos fãs do automobilismo. 500 Milhas de Indianápolis, nos Estados Unidos, e GP de Mônaco de F1, no Velho Mundo, dois dos maiores eventos da história do esporte. Dia de passar umas boas horas em frente à TV assistindo tais eventos. A Indy 500, porém, tem certa vantagem em relação ao GP de Mônaco: é amplamente aceita pelos adoradores do esporte a motor, enquanto o evento monegasco enfrenta certa resistência por parte dos novos fãs da F1, já acostumados com as novas palavras de ordem na categoria: ultrapassar toda hora, trocar pneu sempre em nome da emoção constante, para tudo ficar mais dinâmico. É um grande erro pensar que toda a categoria e toda sua história se resumem nesta frase.

Muitos gostam de imaginar como seria o calendário ideal da F1. Dizem que o certo seria ter umas cinco corridas em Spa, cinco corridas em Monza, cinco corridas em Interlagos e outras cinco corridas em Suzuka. O tom é de brincadeira, claro, mas a intenção fica bem clara: precisamos de emoção, de traçados tradicionais, de provas com clima caótico. Repito: a F1 é muito mais que isso. 

A F1 também é cuidar para não bater na Sainte-Dévote, é cuidar para não errar no Túnel, é cuidar para não acertar ninguém na Chicane do Porto ao tentar ultrapassar e tentar não fazer fiasco em baixo da chuva numa selva de pedra (e mar). É um risco constante, com os guard-rails sedentos por um toque ou até mesmo um acidente mais forte.
O tradicional circuito de Monte Carlo é presença garantida na F1 (Foto: Red Bull/Getty Images)

Em Spa-Francorchamps, um piloto arrojado, que arrisque ultrapassagens em toda freada e com um carro com boa velocidade final tem boas chances de vencer. Em Mônaco, a chance desse cara voltar para seu apartamento à beira do Mediterrâneo para assistir a transmissão da corrida no sofá é bem alta. Foi o que aconteceu com Ayrton Senna em sua primeira corrida em Mônaco pela McLaren, em 1988. 

Em resumo: a F1 é versatilidade, é saber se sair bem em duas situações completamente opostas, e isso é essencial para que um piloto tenha chances reais de título. Nesse balaio todo, quero justificar a presença dos “Tilkódromos” no calendário — alguns, não todos — pois são importantes dentro dessa questão de grande diferença técnica entre circuitos. Viva a diversidade!

Ainda sobre Monte Carlo, existe também todo um fator histórico que só aumenta a vontade de ver essa corrida. É muito interessante como o circuito pouco mudou em mais de 80 anos de GPs, desde a época das corridas do Grand Prix. Há também muito glamour envolvendo a corrida, com muitas celebridades assistindo ao evento — apesar dessa parte não me atrair muito. Tem um fator quase mitológico, também: em que outro lugar do mundo um piloto cai com o seu carro no mar? Em que outro lugar do mundo uma onda bate no porto, joga água na pista e causa um acidente? Claro, são fatos distantes, dos anos 50, mas que servem para mostrar a importância e a peculiaridade desse lugar.

Um exemplo bastante interessante dentro dessa questão toda é o Nürburgring Nordschleife — a versão com mais de 20 km, não a atual, que é utilizada no GP da Alemanha de F1. A maioria dos fãs da categoria clama pelo retorno imediato do “Inferno verde” ao calendário, de uma forma bem utópica, mas, de fato, desejam. Pois eles estão ignorando que seria uma corrida com pouquíssimas ultrapassagens, tendo em vista que somente a gigantesca reta oposta é um real ponto de ultrapassagem, fato agravado pelo fato de que seriam apenas umas catorze voltas de corrida, ou seja, cada piloto poderia fazer, quando muito, umas dez ultrapassagens em duas horas, pouquíssimo, pois.

É importante saber que existia F1 muito antes da Pirelli começar a pensar em ser a única fornecedora de pneus da categoria e muito antes de sugerirem que ela fizesse pneus-farelo. Muito antes também de alguma pessoa muito influente na FIA sugerir que se usasse o DRS e o KERS. A F1 não é feita apenas de ultrapassagens incríveis, mas também de muita cautela, estratégia e autocontrole. Esses três últimos itens são essenciais em Monte Carlo, por isso o Principado é tão interessante, decisivo e perigoso. 

Esse é o ponto que o GP de Mônaco e a Indy 500 têm em comum, e é isso que vai me fazer passar um domingo inteiro em frente à TV.

Vitor Fazio é gaúcho de Porto Alegre (RS), tem 17 anos e cursa Jornalismo na PUCRS, 1º semestre, porém. Está fazendo a loucura de cursar uma outra universidade: Economia na UFRGS. Fã assíduo de automobilismo desde os 14 anos, já não consegue se ver sem acordar às 3h para ver uma corrida. Tem um Blog "Caderno de Rascunho", onde escreve quando consegue conciliar o tempo entre universidades e estudo e tempo livre. No Twitter, @vitorfazio.

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