F3
29/03/2018 05:00

F3 sobrevive, estreita laços com Vicar e tem novo nome a partir da temporada 2018: Super Fórmula Brasil

O GRANDE PRÊMIO traz com exclusividade os planos da F3 no país, agora com novo nome a partir de 2018. A Super Fórmula Brasil é um foco de resistência em meio à notória dificuldade de desenvolvimento do automobilismo de monopostos para continuar a ser a categoria capaz de revelar talentos como Matheus Leist, que hoje brilha nas pistas da Indy
Warm Up / FERNANDO SILVA,  de Sumaré
 Guilherme Samaia em Interlagos (Foto: Marcus Cicarello)

Principal formadora de jovens pilotos em monopostos no Brasil, a F3 resiste. E mesmo em meio a tantas dificuldades em todos os sentidos, sobrevive para escrever mais um capítulo da sua história em 2018. Uma história que por vezes ficou ameaçada de não ter continuidade, seja por falta de dinheiro ou mesmo pelo apoio diminuto. Mas que vai seguir em frente muito por conta da paixão de grandes abnegados e amantes do esporte a motor. Augusto Cesário, 62 anos e mais de 40 dedicados ao automobilismo, é quem lidera a empreitada da rebatizada Super Fórmula Brasil no seu desafio de continuar revelando novos e bons talentos para o Brasil e o mundo.
 
O sistema de disputa da Super Fórmula Brasil segue o padrão dos últimos anos: 16 corridas divididas em oito rodadas duplas entre abril e dezembro. Seis dessas rodadas vão acontecer em conjunto com o cronograma da Stock Car — na volta da categoria como evento-suporte da Vicar —, enquanto uma vai fazer parte do Paulista de Automobilismo e a etapa derradeira, em 16 de dezembro, em conjunto com a Sprint Race em Curitiba. A etapa de abertura está marcada para 22 de abril no Velopark, Rio Grande do Sul. A expectativa de Cesário é ter 12 pilotos inscritos para a primeira etapa da temporada 2018.

Os carros e as categorias do grid nas últimas temporadas permanecem para o novo ano da Super Fórmula Brasil. A categoria principal vai contar com os Dallara F309, enquanto a classe Academy — antiga Light — seguirá com o F301. Todos empurrados por motores da fábrica argentina Berta. Em razão dos altos custos, não há previsão de upgrade do chassi.
 
Dois jovens talentos revelados nos últimos anos pela F3 Brasil e pela equipe de Cesário hoje buscam seu lugar ao sol ao redor do mundo: Pedro Piquet — que trouxe notável visibilidade à categoria em razão do lendário pai — se prepara para estrear na GP3 pela Trident, enquanto Matheus Leist é o primeiro desta nova ‘fornada’ a alcançar uma categoria de ponta do automobilismo mundial: a Indy. Lá, o gaúcho começou deixando ótima impressão.
Augusto Cesário é um ícone da F3 no Brasil. E um dos responsáveis pela sua sobrevivência (Foto: Cesário Fórmula)
Piquet e Leist são dois dos jovens talentos formados recentemente por Augusto Cesário, que também teve Matheus Iorio e Guilherme Samaia como campeões nos últimos anos. Ex-piloto e ‘mago’ da F3, ‘Formigão’ já revelou grandes talentos do automobilismo nacional como Cristiano da Matta, Ricardo Zonta, Jaime Melo Jr., João Paulo de Oliveira e Bia Figueiredo em tempos mais áureos, quando a categoria-escola, com abrangência sul-americana, chamava a atenção por grids cheios e bons públicos. 
 
Contudo, o interesse cada vez maior pelo turismo, tanto de fãs, mídia e patrocinadores, fez com que menos pilotos buscassem o caminho dos monopostos aqui e migraram ou para o turismo ou tentaram a chance direto na Europa ou nos Estados Unidos. Com exclusividade ao GRANDE PRÊMIO, Augusto Cesário conta que a paixão pela F3 é que o motiva a persistir e lutar com todas as forças para impedir que a categoria morra
 
“É muito difícil você trabalhar com fórmula no Brasil, em especial, numa condição onde está se transformando e se apoiando maciçamente no automobilismo de turismo. Então, os fórmula ficaram muito em segundo plano e, na verdade, não existe um aprendizado do piloto sem a técnica, sem o desenvolvimento do fórmula, que abrange a maioria absoluta das categorias do mundo. Então, para nós é muito difícil. Porém, a gente tem de se reinventar, fazer coisas que nunca fizemos antes, mas creio que a F3 precisa ser preservada para a gente manter o nível e desenvolvê-lo cada vez mais”, afirma Cesário, que é o presidente da Anef (Associação Nacional das Equipes de Fórmula) e, na prática, o chefe da renovada Super Fórmula Brasil.
Com o pai tricampeão da F1, Pedro Piquet trouxe visibilidade à F3 Brasil com a Cesário (Foto: Duda Bairros/Vicar)
De fato, os últimos tempos têm sido difíceis para quem luta e resiste com a F3 no Brasil. Nos últimos anos, a categoria precisou recorrer a veteranos para completar grids com o mínimo de pilotos necessários para que uma corrida pudesse ser válida — seis, cenário visto em 2016. No ano seguinte, a F3 Brasil realizou boa parte do seu calendário como evento da Porsche GT3 Cup. Mas a última rodada dupla foi marcada pelo início de uma nova parceria com a Vicar, empresa que promove e organiza a Stock Car.
 
Cesário ressalta o empenho e a dedicação em várias frentes para possibilitar que a F3, agora Super Fórmula Brasil, possa continuar seu legado. “Tem sido um trabalho muito árduo, onde a gente tem contado com o apoio maciço da CBA (Confederação Brasileira de Automobilismo), de algumas pessoas como o presidente da Federação Gaúcha — Carlos Alberto Rodrigues de Deus —, que entendem as dificuldades, procuram ajudar, procuram fazer com que a gente mantenha a categoria de pé, assim como o pessoal de São Paulo e da própria Sprint Race”, comentou.
A etapa de abertura da Super Fórmula Brasil vai acontecer no fim de abril no Velopark (Foto: Fabio Davini/Vicar)
“São esses apoios que recebemos, e os apoios das equipes, que incansavelmente durante todos esses anos vêm fazendo um trabalho dedicado e muitas vezes sem vislumbrar lucro, às vezes sofrendo até prejuízo. Mas a gente tem procurado manter e vamos continuar mantendo”, pontuou ‘Formigão’, que não escondeu a preocupação com o futuro da categoria e do automobilismo de base no Brasil.
 
“Sinceramente acho que, se o Brasil perder a F3, acredito que vamos ter uma perda muito grande no desenvolvimento de pilotos e isso vai impactar lá na frente, como já impactou, tendo o fato de não termos uma sequência de pilotos na Europa para galgar as categorias top do mundo”, disse.
 
 

As dificuldades para atrair jovens pilotos para os fórmula
 
Com larga experiência, Cesário entende que a entressafra de brasileiros na F1, aliada ao auge de profissionalismo de categorias turismo faz com que os jovens pilotos busquem outros caminhos, de modo que o desenvolvimento nos monopostos acaba ficando de lado. 
 
Prova cabal deste momento é Gaetano di Mauro, tetracampeão brasileiro de kart na categoria Shifter. Depois de um ano no Brasileiro de Turismo — hoje Stock Light —, o piloto da Academia Shell Racing migrou para a Porsche GT3 Cup atraído pelo chamado programa de desenvolvimento de jovens talentos da montadora alemã em nível global.
 
“O que passa é que esse caminho é muito ingrato e muito duro para o automobilismo brasileiro como um todo porque, se você for ver por aí, desde o início da F1 aqui no Brasil, nos anos 1970 a gente vem desenvolvendo o automobilismo. Se lembrar como era naquela época e como é hoje, você vai notar a diferença brutal de participantes, de popularidade, de visibilidade. E isso tudo é ligado diretamente com a F1. E se você para de ter pilotos nas grandes categorias internacionais, então acaba diminuindo o grau do automobilismo brasileiro [de monopostos] em termos mundiais e também em visibilidade, popularidade e sequência para os garotos escolherem esse esporte como preferência pessoal”, comentou.
Gaetano di Mauro é mais um dentre tantos jovens de talento a rumar para o turismo no Brasil (Foto: Luca Bassani)
 
O novo nome
 
Ao contrário do que possa sugerir, o novo nome da F3 no Brasil não tem relação com a Super Formula no Japão, mas sim a de reforçar elementos que fazem da categoria por aqui única em vários espectros. “Nós somos a categoria mais veloz da América do Sul e também a que oferece mais abrangência em regulagens do carro, oferecendo aprendizado de alto nível. E pensamos em evidenciar isso no próprio nome da categoria”, afirmou Cesário.
Eis o logo da Super Fórmula Brasil (Arte: Divulgação)
“‘Super’ é por ser a mais veloz e a mais avançada, tecnologicamente falando. ‘Fórmula’, obviamente em referência à nossa posição de F3 que, na minha opinião, é a categoria-escola mais importante da história do automobilismo. Os maiores talentos de todos os tempos passaram pela F3. E só isso diz tudo. E o ‘Brasil’, nome do nosso país, é para deixar claro que corremos nos principais circuitos do Brasil, o que traz uma rica experiência técnica e competitiva para os nossos pilotos”, explicou.
 
 
Calendário definido
 
Resta apenas uma praça a ser confirmada pela Super Fórmula Brasil. Na verdade, a penúltima etapa, prevista para 4 de novembro, está atrelada à Stock Car, que ainda não definiu os locais de algumas provas do seu calendário. Mas o cronograma da categoria-escola já está definido, revelou Cesário.
 
“O calendário de 2018 traz novidades interessantes. Vão ser 16 corridas em oito finais de semana, em rodadas duplas. A ideia é reduzir os custos e dar aos pilotos mais experiência de competição com duas provas por fim de semana”, comentou.
 
“São seis etapas que vamos fazer em conjunto com a Stock Car, que oferece um evento de maior qualidade na América do Sul para os pilotos e patrocinadores; uma vai ser em Interlagos com o Paulista de Automobilismo, até para reduzir custos; e a final em Curitiba, juntamente com a Sprint Race, que é um evento que vem crescendo muito e de muito valor para o paranaense. É lá onde vamos fechar o campeonato com esse novo modelo”, detalhou ‘Formigão’.
 
Velopark – 22 de abril (Stock Car)
Londrina - 6 de maio (Stock Car)
Santa Cruz do Sul – 20 de maio (Stock Car)
Interlagos - 17 de julho (Paulista de Automobilismo)
Cascavel - 9 de setembro (Stock Car)
Tarumã - 21 de outubro (Stock Car)
A ser definida - 4 de novembro (Stock Car)
Curitiba - 16 de dezembro (Sprint Race)
 
Cesário destacou também a aproximação da categoria com a Vicar e elogiou a postura do novo chefão da Stock Car. “O Rodrigo Mathias é um jovem executivo do automobilismo. Ele sempre nos tratou com muito carinho. Inclusive no ano passado, quando ele nos chamou para compor a Stock Car novamente. Ele foi muito humilde e nos pediu desculpas pelo tratamento dado anteriormente. Não foi difícil a gente chegar neste modelo, já que ele mostrou uma vontade muito grande de nos ajudar, de apoiar a categoria, o que, além de nos ter deixado contente, faz com que a gente tenha seis etapas com o principal evento da América do Sul hoje”, salientou.
 
“A gente se sente bem, se sente em casa com eles. Assim como no Paulista de Automobilismo, que sempre abre as portas para a gente, e o Thiago Marques, que abriu as portas de maneira muito legal na Sprint Race, onde vamos fechar o calendário”, pontuou.
Antes de brilhar na América, Matheus Leist passou pela F3 Brasil em 2014 (Foto: IMS)
Por fim, Cesário exaltou o histórico de pilotos vitoriosos em todos os tempos que trilharam seus primeiros caminhos no automobilismo graças à F3 como recado aos jovens com um pedido emblemático de crédito para a categoria-escola mais importante do Brasil. 
 

 

“O Nelson Piquet é um incentivador nato da F3 e sempre ajudou muito a categoria. Para você ver: a F3 conseguiu revelar cinco pilotos que conseguiram chegar à F1: Christian Fittipaldi, Ricardo Zonta, Cristiano da Matta, Nelsinho Piquet e Lucas Di Grassi. Todos eles revelados pela F3 aqui no Brasil”, recordou.
 
“Chegaram à Indy Helio Castroneves, Bruno Junqueira, Bia Figueiredo... todos eles saíram daqui da F3 no Brasil. Agora, mais recentemente, o Matheus Leist começou conosco e é o nosso mais novo representante numa categoria top do mundo. Ele tem muito talento, muito futuro. E os grandes campeões do mundo, como Michael Schumacher, Ayrton Senna, Alain Prost, Nigel Mansell... todos eles saíram da F3. E hoje, mais recentemente, o Lewis Hamilton e também o Sebastian Vettel vieram da F3”, listou Cesário.
 
“Tudo isso é muito importante para nós, os meninos precisam saber desse passado recente para que eles tenham essa gana de chegar lá, que não se perca essa grande chama de chegar longe. O Brasil precisa muito de grandes ídolos”, complementou aquele que é um dos grandes nomes da história do automobilismo brasileiro.
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