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31/01/2018 06:15

CBA e Comissão pedem audiências com Doria para tratar de privatização de Interlagos. Nunca foram atendidas

Sergio Berti, líder da comissão Interlagos Hoje, que busca discutir os pontos que envolvem a privatização do complexo do qual faz parte o autódromo, revelou ao GRANDE PRÊMIO que João Doria jamais se dispôs a ouvir as reivindicações. Assim como a CBA (Confederação Brasileira de Automobilismo), por meio da sua assessoria de imprensa: “O prefeito ignorou olimpicamente”
Warm Up / FERNANDO SILVA, de Sumaré
 João Dória Jr. (Foto: Rodrigo Berton/Grande Prêmio)

A comissão Interlagos Hoje, criada para evitar o fim das atividades de pista em Interlagos numa eventual privatização, vem liderando uma série de ações para ser ouvida pela gestão do prefeito de São Paulo, João Doria. O alcaide paulistano, contudo, jamais atendeu aos pedidos do movimento e tampouco da CBA (Confederação Brasileira de Automobilismo) de uma audiência para tratar do assunto. Foi isso o que motivou, na prática, que a Fasp (Federação de Automobilismo de São Paulo) para entrar com uma petição junto ao Ministério Público Estadual questionando os termos da privatização de Interlagos.
 
Ao GRANDE PRÊMIO, Sergio Berti, líder da comissão Interlagos Hoje, lamentou a falta de diálogo do prefeito. “O Doria nunca nos atendeu. Toda vez que a gente chegava perto dele, em algum evento ou ocasião, ele nos jogava para falar com algum secretário. Ou do Esporte, ou o (Wilson) Poit [Secretário de Desestatização e Parcerias da Prefeitura de São Paulo], mas ele nunca nos atendeu”, explicou.
 
A falta de diálogo do prefeito se estendeu ao primeiro escalão depois que a comissão Interlagos Hoje, em conjunto com a Fasp e a CBA, buscou intensificar os debates para garantir que, mesmo com a privatização, o autódromo continuaria ativo.
Procurado pela CBA e pela Comissão Interlagos Hoje, João Doria não atendeu aos pedidos por audiência (Foto: Rodrigo Berton/Grande Prêmio)
“Até que aconteceu, no fim de novembro, a primeira votação do projeto de lei que autoriza o Doria a vender o autódromo. Só que esse projeto de lei está muito simples. Alguns vereadores com quem temos contato nos ligaram e falaram sobre essa primeira votação. Mas precisávamos discutir como o esporte seria preservado por meio de datas, pelo menos o mesmo número de datas que tivemos anteriormente, e também que o aluguel não fosse tão caro, para não viabilizar o esporte. Estávamos esperando as audiências públicas para fazer essa regulamentação”, recordou.
 
“Me passaram que o Doria, querendo acelerar o processo, pediu ao presidente da Câmara, Milton Leite, fazer a segunda votação já no começo de dezembro. Foi aí que nós, da Interlagos Hoje, nos mobilizamos e fomos à Câmara. E aí tiraram da pauta. Vários vereadores, que viram nossa concentração lá, nos deram apoio, passando que pudéssemos ficar muito tranquilos, que jamais seria aceita uma segunda votação sem as audiências públicas. E aí pensei: como tenho acesso muito saudável ao Poit, ao secretário Milton Flávio, e tivemos aquela conversa sobre a regulamentação, entrei em contato com eles e falei o seguinte: nem precisamos ter as audiências públicas. Vamos regulamentar isso agora. A partir daquele momento, ninguém mais nos atendeu”, declarou Berti.
 
A partir de então, a Interlagos Hoje decidiu, após consulta jurídica, entrar com petição por meio da Fasp junto ao Ministério Público Estadual para questionar o projeto de privatização do autódromo e, na prática, barrar a venda de Interlagos.
 
O prefeito Doria também não quis saber de conversa com a CBA. Diferente da Interlagos Hoje, que é uma comissão informal, a entidade é a figura jurídica mais importante do automobilismo nacional. Mas nem assim, o alcaide paulistano recebeu Waldner Bernardo, o ‘Dadai’, presidente da CBA desde março do ano passado.
Presidente da CBA, Waldner Bernardo tentou falar com Doria sobre Interlagos. Mas não foi atendido (Foto: Américo Teixeira Jr.)
“Desde que o ‘Dadai’ assumiu, a gente tem participado de todas as reuniões do movimento Interlagos Hoje, sempre tem alguém da CBA presente. E tudo o que eles [da comissão] vêm fazendo desde o ano passado, como visita aos vereadores, solicitação de audiência com o prefeito, com o governo municipal em geral, em tudo a CBA participou. O próprio Dadai solicitou algumas vezes, e as solicitações do próprio movimento eram via Dadai, para que a CBA fizesse essa solicitação de agenda com o prefeito. E o prefeito não atendeu nenhuma vez”, declarou Emerson Souza, assessor de imprensa da Confederação, ao GP.
 

“Ele ignorou olimpicamente e mandava falar com os assessores, o [David] Barioni, da SPTuris. Uma coisa é mandar alguém para repetir o discurso dele. Outra coisa é ele ouvir de todo mundo qual é a situação. Coisa que ele nunca fez. Toda vez ele dava uma desculpa. Passou o ano passado inteiro, e acho que o Dadai fez umas três, quatro solicitações de audiência com o prefeito para falar sobre o assunto, formal e informalmente. E nunca foi atendido. E como ninguém foi atendido, no fim do ano as entidades tomaram a decisão. Fomos buscar outras vias”, comentou Emerson, justificando a petição impetrada pela Fasp como forma de a classe se fazer ouvir pelo executivo.
 
“A ideia era tentar um diálogo. E ele nunca quis ouvir. Ele não quis ouvir os argumentos de quem está do outro lado. Então a CBA deu total apoio, assim como a Fasp, a CBM (Confederação Brasileira de Motociclismo), então foi feita a ação. Está todo mundo junto nessa história”, complementou o assessor.
 

O que diz a Prefeitura?
 
Ao GRANDE PRÊMIO, a Secretaria de Desestatização e Parcerias/Prefeitura de São Paulo disse que "mantém diálogo com todas as entidades que representam o esporte a motor", sem especificar, de fato, quais seriam e com quem falou. Ainda, informou que "a alienação do Autódromo de Interlagos está condicionada à imposição de restrição administrativa, destinada a proteger o espaço do Autódromo José Carlos Pace e o seu uso para a prática de esportes a motor".
 
"O projeto de lei que tramita na Câmara Municipal também prevê a obrigação do comprador de assumir os contratos já firmados pelo atual gestor do autódromo, respeitando as datas comprometidas", garantiu, em nota, a Secretaria/Prefeitura. "O PL [projeto de lei] ainda passará por segunda votação e o Legislativo poderá convocar audiências públicas para debater o assunto", encerrou.