Coluna Power Stage, por Fernando Silva: Sean Penn, a Bolívia e o Dakar

O Rali Dakar voltou a fazer parte do noticiário nesta semana. Sean Penn, amigo do presidente Evo Morales, aproveitou sua influência como ativista e defensor dos direitos humanos e pediu aos organizadores que a prova não passe pela Bolívia em 2014. O prestigiado ator intercedeu em favor de Jacob Ostreicher, preso no país desde 2011, classificando o caso como o "pior filme" em que já participou


Política e automobilismo sempre estiveram lado a lado, de uma forma ou de outra. É impossível negar isso. A F1 mostra isso ao longo de sua história. É só recordar, por exemplo, as corridas realizadas em períodos controversos, como no apartheid, na África do Sul, e durante a ditadura militar, sobretudo na Argentina, onde pilotos tiveram de estar perto a soldados empunhando fuzis. Mais recentemente, a realização do controverso GP do Bahrein num país envolto em denúncias de violação de direitos humanos e tortura fez da F1 um alvo de protestos e questionamentos a respeito do seu posicionamento alheio ao que acontecia em sua volta.

Mais até do que a F1, o Rali Dakar teve uma trajetória carregada de conflitos políticos ao longo de sua história. Entre 1978 e 2007, último ano em que a prova cruzou o continente africano, o Dakar sempre conviveu com ameaças terroristas e muitas vezes seus organizadores tiveram de mudar sua rota original por conta justamente dessas ameaças. O clima ficou tão insustentável que o rali foi cancelado em 2008 e, no ano seguinte, transferido para a América do Sul, continente que oferece uma gama interessante de terreno e também proporciona uma das marcas registradas do Dakar: os trechos de deserto. Assim, o Atacama ficou marcado como o coração do Rali Dakar sul-americano desde 2009 até os dias de hoje.
O mítico Sean Penn colocou o Dakar no noticiário nesta semana, mas não pelo aspecto esportivo (Foto: Getty Images)

Todavia, mais uma celeuma envolvendo o Dakar ganhou os noticiários nesta semana. Não, não se trata de nenhuma ameaça terrorista ou algo do tipo aqui pelos lados de ‘Sudamerica’, mas o caso ainda assim é bastante complexo. Trata-se de um pedido por parte de um ator muito bem-sucedido e bastante influente politicamente. Sean Penn participou de uma audiência no Congresso dos Estados Unidos e clamou pela libertação de Jacob Ostreicher, preso na Bolívia desde 2011. 

Amigo de Evo Morales, Penn defende que o Dakar não passe pela Bolívia em 2014 — ano em que a prova terá o país como um dos seus cenários pela primeira vez, no inacreditável e espetacular Salgar de Uyuni — até que se resolva a situação jurídica de Ostreicher. Empresário norte-americano, Jacob está preso e tem contra si acusação de lavagem de dinheiro e associação a grupos criminosos. Segundo sua esposa, o detento desenvolveu Mal de Parkinson no período em que esteve encarcerado, perdeu 22 kg e corre risco de morte. Por conta do seu estado de saúde, foi transferido para uma prisão domiciliar, ainda em solo boliviano.

Sean Penn afirma que o Dakar, um “símbolo de liberdade”, não deve passar por um país onde “milhares de prisioneiros vivem rodeados de toda sorte de selvageria humana que só imaginávamos em pesadelos”. Aos patrocinadores do Dakar, o ator pede que “usem sua influência e que requisitem a libertação de Ostreicher como um primeiro sinal de boa vontade e, enquanto a Bolívia segue trabalhando nos desafios do seu sistema jurídico, que o Dakar não entre por lá”.

Não é a primeira vez que Sean Penn se envolve no caso em questão. O ator e ativista dos direitos humanos já esteve na Bolívia duas vezes e se reuniu com Evo Morales para falar a respeito do caso, descrito pelo artista como o “pior filme” que poderia ter participado, por conta de um processo “diabólico”, deflagrado em um caso de corrupção, já que foi descoberta uma rede de funcionários da justiça boliviana que foram acusados de pedir cerca de US$ 50 mil pela liberdade de Ostreicher.

Entretanto, Penn diz que “este caso trágico não reflete a Bolívia, não reflete seu povo e nem reflete seu presidente. É um exemplo de uma longa luta do povo boliviano pelos direitos humanos”.

Não tenho aqui competência jurídica para saber até que ponto Jacob Ostreicher é inocente ou culpado pelos crimes de que é acusado. Seu caso e suas condições as quais ele é submetido pela justiça boliviana logo remetem aos 12 corintianos presos desde o trágico e triste episódio envolvendo a morte do menino Kevin Espada em Oruro em fevereiro último. Sobram denúncias de violação dos direitos humanos e também de cobrança de propina para a libertação dos torcedores. Nem mesmo a intervenção de políticos e do próprio Itamaraty conseguiu resolver o imbróglio jurídico e libertar os brasileiros.

Sinceramente, creio que será muito difícil que o Dakar não passe pela Bolívia ano que vem. Salvo raríssimas exceções, o esporte costuma ignorar questões políticas como esta envolvendo Ostreicher. Contudo, considero que Sean Penn acertou em cheio ao aproveitar a passagem do rali pelo país e trazer o controverso tema à baila porque mostra ao mundo que os problemas ainda estão lá e precisam ser debatidos, mesmo sabendo que cada país tem sua soberania e resolve as questões à sua maneira.
Chamada Chefão GP Chamada Chefão GP 🏁 O GRANDE PRÊMIO agora está no Comunidades WhatsApp. Clique aqui para participar e receber as notícias do GP direto no seu celular! Acesse as versões em espanhol e português-PT do GRANDE PRÊMIO, além dos parceiros Nosso Palestra e Teleguiado.

📩 NEWSLETTER GP

Assine e receba notícias exclusivas e bastidores das pistas diretamente no seu e-mail!