Stock Car
29/08/2016 08:45

Seis meses após escândalo de manipulação, investigação some. E Cacá Bueno diz: “Não tinha dúvida disso”

Há exatos seis meses, conversas de um grupo de comissários da CBA para a Stock Car vieram a público e detonaram uma crise de credibilidade na categoria, com pilotos colocando em xeque punições sofridas nas últimas temporadas. O tempo passou, o escândalo arrefeceu e as investigações não deram em nada. Citado por comissários envolvidos, Cacá Bueno já esperava por tal desfecho e lamentou por ver a entidade que rege o automobilismo nacional ‘jogar a sujeira pra baixo do tapete’
Warm Up / FERNANDO SILVA, de Sumaré
 Cacá Bueno (Foto: Rodrigo Berton/Grande Prêmio)

Já se vão seis meses desde que a Stock Car e o esporte brasileiro como um todo se depararam com um escândalo que eclodiu como uma bomba atômica e colocou em xeque a credibilidade da entidade que rege o automobilismo nacional. Em 29 de fevereiro, uma segunda-feira como hoje, o jornal ‘Folha de S.Paulo’ publicava reportagem assinada pela jornalista Paula Cesarino Costa sobre trocas de mensagens entre comissários da CBA (Confederação Brasileira de Automobilismo) para a Stock Car com um conteúdo pra lá de explosivo. 
 
A história ainda está na retina: fiscais de pista, em demonstrações de poder e deboche, se gabavam pelo tom de ameaça e também citaram punições impostas de propósito a alguns deles, como Cacá Bueno, o maior campeão da categoria em atividade, com cinco títulos, e Thiago Camilo. Os pilotos, conhecidos por adotarem um tom mais crítico em suas falas, reagiram sem surpresas, mas criticaram a postura dos comissários. Cacá, por exemplo, definiu os comissários como “moleques”.
 
As conversas reveladas pelos citados Clovis Matsumoto, veterano das pistas, e Paulo Ygor Dias, auxiliar de comissário, refletiam claramente a ocorrência de manipulação de resultados na Stock Car. O escândalo explodiu às vésperas da abertura da temporada da 2016. Maurício Slaviero, diretor da Vicar, empresa que promove e organiza a categoria, se disse estarrecido em razão do episódio e lamentou o ocorrido que, de certa forma, acabou por ofuscar um pouco as atenções à Corrida de Duplas, realizada no Autódromo de Curitiba.
 
Logo, no dia seguinte à publicação da reportagem, a CBA se apressou em suspender os comissários envolvidos e anunciou a instauração de uma Comissão de Inquérito para apurar o caso. O grupo era formado por três membros e liderado por Felipe Giaffone, indicado pela Associação Brasileira de Pilotos de Automobilismo, e tinha também a presença de Chico Serra, lenda da Stock Car, e do presidente da Federação de Automobilismo do Espírito Santo, Robson Duarte. A Comissão de Inquérito teria um prazo de 30 dias — que depois foi prorrogados por mais dez — para apresentar o relatório final sobre o caso.
O escândalo dos comissários da CBA eclodiu às vésperas da abertura da temporada (Foto: Duda Bairros/Vicar)
Os comissários estavam no olho do furacão, já que qualquer decisão um pouco mais controversa já os colocariam sob suspeita em razão de tudo o que fora revelado nos grupos de WhatsApp. Ao GRANDE PRÊMIO, um deles, que pediu para não ser identificado, disse que “todos estão constrangidos com essa situação. Tirando isso, eles todos estão com a consciência tranquila. Nosso modus operandi não mudou em nada”.
 
Mas desde o início das teóricas investigações, a Comissão de Inquérito se transformou na comissão do descrédito. Citado pelos comissários, Camilo havia deixado claro sua desconfiança nos trabalhos da CBA e que não tinha muitas esperanças no êxito das investigações, apostando em pizza como prato final.
 
“Na minha cabeça, o que vai acontecer? Vão faltar provas, porque é uma conversa de WhatsApp, por isso requer uma investigação mais ampla. E como o Chico Serra, um presidente de automóvel clube do Espírito Santo e uma pessoa nomeada pela Associação, que seja o Felipe Giaffone, vão ter acesso a qualquer tipo de coisa da CBA do passado, se houver, ou que prove a situação envolvendo os comissários? Não tem como!”, analisou à época ao GP.
Chico Serra foi um dos escolhidos para fazer parte da Comissão de Inquérito que investigou o caso (Foto: Rodrigo Berton/Grande Prêmio)
Na etapa seguinte da Stock Car, realizada no Velopark pouco mais de um mês depois após à Corrida de Duplas em Curitiba, Chico Serra confirmou ao GP a prorrogação do prazo de entrega do relatório pela Comissão de Inquérito por dez dias. E justificou a decisão ao dizer que era preciso reunir o máximo de informações das últimas dez temporadas para se encontrar algum indício de manipulação de resultados.
 

Entretanto, Cacá dava o tom de total desesperança em um resultado conclusivo. “Não espero tanta coisa porque eles [os membros da Comissão] não são investigadores. Respeito todo mundo que está lá, são pessoas corretas”, disse.
 
“Falo pelo menos por dois, o Giaffone e o Chico, que pessoas idôneas e que sei que estão fazendo um trabalho com todo o esforço possível, mas não são investigadores, não são promotores de justiça, não têm acesso a todos os dados, então não acredito que vão chegar a uma coisa tão conclusiva do que, na minha ideia, eu sei o que aconteceu”, disse o piloto da Red Bull, sem jamais esconder seu sentimento sobre o tema e sobre a postura dos comissários da CBA.
 
Daí em diante, o assunto pouco foi debatido pelo chamado ‘mundo da Stock Car’. A temporada esquentou dentro da pista, com grande equilíbrio e nada menos que oito vencedores nas 11 provas disputadas até agora. Contudo, restava saber qual havia sido o desfecho as investigações sobre o escândalo da chamada ‘Máfia do Parque Fechado’. E a própria CBA, na figura do presidente Cleyton Pinteiro, confirmou aquilo que Cacá e Camilo já esperavam: o relatório foi inconclusivo.
 
Quando questionado pelo GP a respeito da possibilidade de outros comissários com envolvimento no episódio, Pinteiro afirmou. “Não tivemos conhecimento de outros envolvidos”, garantindo também “desconhecer problemas similares” em outras competições chanceladas pela Confederação Brasileira de Automobilismo. Uma das decisões tomadas pela entidade esteve relacionada aos comissários que tiveram seus nomes citados na reportagem da ‘Folha’, como Matusmoto e Ygor Dias, que tiveram suas escalações suspensas desde então.
Presidente da CBA, Cleyton Pinteiro disse que "desconhece problemas similares" em outras competições (Foto: Divulgação)
A respeito do que ficou de aprendizado sobre os casos revelados em fevereiro, Pinteiro procurou mostrar uma postura enérgica. “Que qualquer situação que venha a pôr em xeque a idoneidade de resultados ou procedimentos será sempre levada às últimas consequências. Não se brinca com coisa séria!”, bradou o dirigente.
 
O GRANDE PRÊMIO também procurou Clovis Matsumoto para saber sua visão e tudo o que foi revelado seis meses atrás. Entretanto, o comissário não respondeu à reportagem.
 
 
Sem surpresas
 

Camilo, ao tomar conhecimento sobre o desfecho do caso, não se surpreendeu. “Na verdade, a gente já esperava por isso [que não desse em nada]. Foi uma conversa de WhatsApp, e a gente sabe que, para ter mais que isso, seria necessária uma investigação um pouco mais complexa, de modo que seria mesmo difícil chegar a um ponto conclusivo. Mas a gente sabe que, de fato, aquela conversa vazou. Não sei até que ponto isso vai, mas espero que ninguém tenha sido prejudicado nem afetado pelos comissários e, enfim, pela parte técnica e desportiva. Espero que tenham sido campeonatos ganhos por quem foram de maneira correta.”
 
O três vezes vencedor da Corrida do Milhão reiterou que não tem mais total confiança nas decisões tomadas pelos comissários da CBA. “A gente sabe que não tem como não ficar mais preocupado depois do que aconteceu, até mesmo pela exposição, de modo que qualquer coisa que possa acontecer de maneira errônea agora vai ter uma repercussão maior, e, se for negativa, uma exposição negativa também maior”, disse o piloto da RCM.
Thiago Camilo já esperava que o desfecho do caso fosse inconclusivo (Foto: Duda Bairros/Vicar)
Cacá também falou ao GRANDE PRÊMIO sobre sua visão a respeito do fim do caso. Para o pentacampeão da Stock Car, está claro: a CBA “jogou a sujeira para baixo do tapete”.
 
“A própria Confederação sabe que se ela admitisse o que eles fizeram, talvez houvesse um problema maior. Eles acabaram defendendo o deles, defenderam os funcionários deles. Eu não tenho nenhuma dúvida de que eu fui prejudicado, eu não tenho dúvida nenhuma de que aquilo aconteceu e eu não tenho dúvida de que me roubaram um campeonato. Não estou dizendo sobre a instituição, mas sobre pessoas que trabalham nela. Eles admitiram isso”, disparou o carioca de 40 anos. 
 
“A gente já sabia que a CBA não iria admitir essa culpa e que eles jogariam essa sujeira para baixo do tapete, defender os deles. Então é uma pena”, lamentou o piloto da Red Bull, que vê na entidade que determina os rumos do automobilismo nacional um reflexo da política brasileira.
 

“A gente vive num país que tem um mar de lama, num momento político conturbado de todos os lados. Mas a gente vê nossas instituições de poder, quais elas sejam, com uma participação muito grande de pessoas no mínimo não éticas. Não tenho dúvida do que aconteceu e também não tinha muita dúvida, dentro da justiça da CBA, qual seria o desfecho disso”, concluiu.
Após seis meses da revelação do escândalo, Cacá Bueno ainda se sente perseguido pelos comissários da CBA (Foto: Rodrigo Berton)
A desconfiança e o tom crítico de Cacá Bueno aos comissários de prova e à própria CBA não diminuíram, pelo contrário. No fim da última corrida realizada antes da ‘pausa olímpica’ da Stock Car em 2016, em Cascavel, o piloto recebeu a bandeirada quando estava à frente do vencedor, Rubens Barrichello, mas tinha uma volta ainda a um giro antes de terminar a corrida. Induzido ao erro pelo comissário, Cacá recolheu aos boxes, mas só depois descobriu que ainda tinha uma volta a cumprir. 
 
“Fizeram merda, bandeirada errada de novo. Ou é muita incompetência ou é perseguição. Me tomaram dois pontos no campeonato na mão grande, vamos ver se consertam a besteira porque justificar um erro cometendo outro é para os fracos. Gente decente assume os erros. Mas o que esperar deles, né?”, disparou o carioca em sua rede social pouco depois da prova.
 
Com o escândalo revelado no fim de fevereiro, a imagem da CBA ficou ainda mais cercada de descrédito e corrobora com quem a critica pela sua inoperância. Que tudo o que foi revelado represente, como esperam os pilotos, um verdadeiro divisor de águas, e que as lições aprendidas neste triste episódio sirvam para ajudar a colocar nosso esporte a motor nacional no rumo certo.
PADDOCK GP #43 DEBATE INDY E MOTOGP E FAZ PRÉVIA DA F1