DTM

Conta-giro: DTM escuta voz do público, volta às origens e quase dobra calendário com novo formato para 2015

Começa neste fim de semana o 31º ano da história do DTM, que traz muitas novidades. Tudo para prender a atenção do público e proporcionar maior ação aos 24 pilotos do grid e às três montadoras envolvidas na categoria com corridas no sábado e domingo, tornando o campeonato parrudo com 18 etapas, contra as dez que eram adotadas até ano passado

Warm Up / FERNANDO SILVA, de Sumaré


De todas as principais categorias do automobilismo mundial, nenhuma delas empreendeu tantas mudanças significativas do ano passado para 2015 como o DTM (Deutsche Tourenwagen Masters, no português livre, Campeonato Alemão de Turismo). O certame, que começa neste fim de semana (1º a 3 de maio) em Hockenheim, traz à baila algumas das marcas mais importantes do cenário automotivo mundial: Mercedes, Audi e BMW colocarão oito protótipos cada uma em busca dos almejados títulos em disputa: o de Pilotos, e também, talvez ainda mais valorizado, o de Construtores.

Mas um conjunto tão vencedor baseado em competitividade e marcas fortes nada seria sem a força do público, que prestigia o DTM não apenas na Alemanha, mas também em outras praças como Holanda, Áustria e Rússia. E foi em nome deste público que o DTM mudou. Em busca de mais ação para ser mais atraente não somente ao espectador, mas também visando elevar o nível de disputa para agradar pilotos, equipes e montadoras, a organização da categoria promoveu muitas alterações no seu formato, sendo que a principal delas foi no calendário, que ficou muito mais parrudo em relação aos últimos anos graças à adoção do sistema de rodadas duplas.
Tudo em nome do espetáculo: DTM muda formato para agradar público, pilotos e montadoras em 2015 (Foto: DTM)
Na verdade, tal formato de disputa não chega a ser propriamente uma novidade. O DTM empregou o regime de rodadas duplas entre 1988 e 2000. Dentre todos os pilotos que formam o grid da nova temporada do DTM, apenas um teve a chance de competir neste modelo: o bicampeão Timo Scheider (2008 e 2009), que alinhou no grid em 2000 e hoje segue representando a Audi. Para todos os outros 23 competidores, será uma grande novidade e uma atração a mais ao longo do ano.

Em comparação com os últimos anos, quando foram realizadas dez corridas entre maio e outubro, desta vez serão nada menos que 18 provas em nove finais de semana dentro deste período, sempre obedecendo à tradição de abrir e encerrar o campeonato no circuito de Hockenheim. Mas diferente do que acontece, por exemplo, na Stock Car, que coloca seus pilotos para disputarem duas corridas num mesmo dia, o DTM adotou esquema semelhante ao que é empregado pela World Series: classificação e corrida no sábado, novamente classificação e corrida no domingo, cada uma oferecendo pontuação idêntica aos pilotos.

Neste novo formato, os 24 competidores terão apenas 20 minutos de sessão classificatória, tiro curto em comparação com o sistema anterior, cuja tomada de tempos era semelhante ao que é adotado atualmente pela F1, com três segmentos (Q1, Q2 e Q3). Apesar de distribuir pontuação igual, as corridas de sábado e domingo compreendem algumas diferenças. A primeira prova do fim de semana terá sempre duração de 40 minutos mais uma volta, sem a necessidade de realizar parada para trocar pneus. Já a corrida de domingo é um pouco mais longa: 60 minutos mais uma volta e com pit-stop obrigatório.

Outras mudanças bastante significativas, também com o intuito de promover um maior espetáculo ao público, foram adotadas em 2015. Na contramão do que foi adotado pela categoria em 2013, a fornecedora sul-coreana Hankook vai oferecer apenas um tipo de pneu aos pilotos, enquanto nos últimos anos eram disponibilizados compostos duros (brancos, ‘prime’,) e outros mais macios (amarelos, ‘option’). A direção do DTM entende que a adoção dos option não melhorou o espetáculo, ao contrário, o deixou mais confuso devido à grande diferença de performance entre os pneus, por isso seu uso foi descontinuado. Assim, cada piloto terá à disposição quatro sets de pneus por fim de semana, obrigando um melhor gerenciamento no uso da borracha.
Hockenheim abre a primeira rodada dupla da temporada 2015 do DTM neste fim de semana (Foto: DTM)
Também para melhorar a compreensão da corrida por parte do espectador, o DTM seguiu a tendência e adotou o sistema de numeração fixa para melhor identificar os pilotos em pista. Atual campeão, Marco Wittmann, levará o #1. Assim como Pastor Maldonado na F1, António Félix da Costa ostentará o #13 em sua BMW. Mike Rockenfeller, campeão em 2013, estampa o #99 em seu Audi RS 5, enquanto Augusto Farfus se inspirou na sua primeira corrida de kart para escolher o #18, que usará em seu carro, agora com novo layout, tendo o vermelho, amarelo e branco — do novo patrocinador da BMW, a Shell — como cores predominantes.

Uma nova mudança que pode proporcionar muitas disputas interessantes em pista é no DRS. A partir de 2015, o piloto só poderá acionar a asa móvel caso esteja a menos que 1s em relação ao carro da frente. Mas neste caso, o competidor estará livre para usar o dispositivo por três vezes durante a volta seguinte. Para facilitar ainda mais as ultrapassagens, o ângulo da asa móvel será reduzido em 18 graus, contra 16 da temporada passada.

Por fim, outra novidade está em fase de estudos por parte do DTM para 2015. No meio do ano, mais precisamente entre junho e início de agosto, a Bundesliga entra no seu recesso em razão do término/início de temporada. Visando atrair a audiência órfã do futebol alemão, a categoria planeja realizar algumas corridas de sábado ao crepúsculo, começando ainda durante o dia e terminando à noite, nos moldes do que é adotado no GP de Abu Dhabi de F1. Tudo ainda é parte de um projeto, mas pode acontecer.

“Proporcionar aos espectadores apaixonados por automobilismo e o ápice em entretenimento é a nossa maior prioridade. Para fazer isso, ultrapassagens espetaculares na pista e corridas emocionantes até à última volta são uma obrigação, e é exatamente isso que o DTM tem fornecido por muitos anos. Esta é a razão pela qual esta é uma das categorias do automobilismo mais atraentes do mundo”, declarou Hans Werner Aufrecht, promotor e organizador do DTM.

Equilíbrio nada distante: três montadoras e um destino

Pode-se dizer que a temporada passada do DTM foi polarizada entre Audi e BMW. A fábrica das quatro argolas levou o título dos Construtores na última corrida do campeonato ao marcar, no geral, 411 pontos, contra 380 dos bávaros. A Mercedes teve um ano abaixo de qualquer expectativa, aquém do que a equipe de F1 costuma fazer nas pistas ao redor do mundo. Foram apenas 219 pontos e três vitórias — com Christian Vietoris, Robert Wickens e o prodígio Pascal Wehrlein. O número é superior à Audi, que venceu duas — ambas com Mattias Ekström. A BMW, por sua vez, triunfou cinco vezes, sendo quatro com Wittmann e mais uma com o belga Maxime Martin. Tudo isso mostra que ainda em 2014 a regularidade era mais forte que a vitória em si. Neste ano, tudo ganha dimensões ainda maiores com o calendário quase dobrado.

Satisfeitíssima com o trabalho dos seus pilotos, a Audi adotou o ditado de que em time que está ganhando não se mexe. Por isso mesmo, a montadora manteve seus oito titulares para 2015 e nas mesmas equipes: Mattias Ekström, Miguel Molina, Edo Mortara e Adrien Tambay correrão pelo Team Abt Sportsline. Timo Scheider e Mike Rockenfeller representarão novamente o Team Phoenix, enquanto Jamie Green e Nico Müller competirão pelo Team Rosberg. Trata-se de um line-up de pilotos bastante forte, com nada menos que três campeões — Ekström (2004 e 2007), Scheider e Rockenfeller —, mas também jovens de talento como Tambay.
Companheiro de equipe do brasileiro Augusto Farfus, Blomqvist será um dos estreantes na temporada (Foto: BMW AG)
Por sua vez, a BMW mexeu apenas uma peça no seu rol de pilotos para 2015. Parceiro de Farfus no Team RBM desde 2013, Joey Hand voltou para os Estados Unidos. A montadora de Munique colocou sangue novo em seu lugar e trouxe da F3 Europeia seu vice-campeão no ano passado, Tom Blomqvist. O britânico de 22 anos chega para ser o novo companheiro de equipe de Augusto, mas outros times da BMW também mudaram suas combinações para este ano.

O Team RMG foi todo mantido, com Marco Wittmann tendo Maxime Martin como parceiro. Martin Tomczyk continua no Team Schnitzer, mas agora tem como companheiro de equipe o luso António Félix da Costa, um dos bons destaques entre os convidados da Corrida de Duplas da Stock Car. O jovem piloto português, apoiado pela Red Bull, entrou no lugar de Bruno Spengler, que foi para o Team MTEK fazer par com Timo Glock.

Na contramão da Audi, a Mercedes foi a fábrica que mais se mexeu em relação a novidades para 2015 no seu conjunto. São dois os pilotos estreantes neste ano, que traz ao DTM uma nova equipe: a ART Grand Prix, famosa pelo seu histórico vencedor em categorias como a GP2, GP3 e até mesmo o kartismo, a equipe francesa aportou na categoria com um dos novatos do campeonato: Lucas Auer, de apenas 20 anos, outro jovem talento oriundo da F3 Europeia. Será uma equipe interessante considerando que o parceiro de equipe de Auer é um dos mais experientes do grid: o ex-eterno reserva da McLaren Gary Paffett, dono de 19 vitórias desde sua estreia no DTM, em 2003.

Aos 29 anos, Maximilian Götz é outra novidade da equipe prateada para o DTM em 2015. Atual campeão do Mundial de GT, o bávaro tem muita experiência no endurance, tendo vencido provas importantes como as 24 Horas de Spa-Francorchamps e os 1000 km de Nürburgring, ambas as provas em 2013. Götz fará dupla com o espanhol Dani Juncadella, que chegou a flertar com a F1, mas está cada vez mais envolvido com o DTM e vai para sua terceira temporada na categoria, agora pela Mücke MotorSport. Em contrapartida, quem deixa a categoria e a Mercedes é o insosso russo Vitaly Petrov, que deve desempenho medíocre em 2014.
O talentoso e jovem Wehrlein é um dos trunfos da Mercedes para tentar bater Audi e BMW em 2015 (Foto: DTM)
Mas o conjunto mais forte da Mercedes está na HWA AG, que conta com um quarteto pesado: Paul di Resta, Christian Vietoris, Robert Wickens e Pascal Wehrlein, todos já vencedores no DTM. Di Resta, antes de ir para a F1, foi campeão no Alemão de Turismo em 2010. Mas em sua passagem de três anos pela Force India, o escocês não brilhou e logo regressou à velha casa, ainda que em 2014 nem de longe repetiu os bons tempos que o levaram ao título ao finalizar a temporada apenas em 15º lugar. Ainda assim, Di Resta continua sendo uma das grandes forças da Mercedes para tentar desbancar Audi e BMW e voltar a colocar a escuderia prateada no topo do DTM.

A julgar por todas as mudanças empregadas para 2015 e pelo nível de competitividade entre pilotos e construtores, o que já era bom deve ficar ainda melhor. Vitória do fã de automobilismo e do público do DTM. É mais um gol da Alemanha!