Acordo com Ferrari gera desconfiança: o que a FIA esconde de errado?

A FIA disse ter feito um acordo com a Ferrari a respeito do carro de 2019, cuja unidade de potência sempre levantou suspeitas, mas não disse exatamente o que rolou nos bastidores. Sem transparência, a entidade começa a ser acusada de colocar panos quentes sobre irregularidades ferraristas

A pré-temporada da Fórmula 1 se aproximava do fim quando uma notícia curiosa surgiu nos bastidores. Uma nota divulgada pela Federação Internacional de Automobilismo (FIA) revelou a ter sido firmado um acordo final com a Ferrari,após investigar a performance da unidade de potência em 2019. Não se esclareceu exatamente o que a equipe italiana estava fazendo de errado a ponto de provocar uma investigação, e é aí que está o problema. Sem que equipes rivais e público saibam o que se passou em Maranello, é difícil não pensar em alguma forma de maracutaia envolvendo as duas partes.
 
Antes de mergulhar nessa análise, é preciso destacar uma coisa: não há como detalhar o que consta no acordo entre FIA e Ferrari. Já parece claro que os italianos fizeram algo fora do regulamento, mesmo que de forma não intencional, mas o que se passou pela cabeça de Jean Todt e amigos segue sendo apenas objeto de especulação. De um jeito ou de outro, valem os ensinamentos da mulher de César: não basta ser honesto, é preciso parecer honesto. E quando a federação solta comunicado dizendo que fez acordo com a equipe após inspeções técnicas, mas sem detalhar o que aconteceu, fica mais difícil crer na honestidade.
A Ferrari começa 2020 ainda lidando com tretas de 2019 (Foto: Ferrari)

Trata-se de um novo elemento em uma já questionada legalidade da SF90, bólido de 2019. Red Bull e Mercedes citaram em mais de uma oportunidade suspeitas de que a equipe italiana estava passando do limite em interpretações do regulamento técnico. Mais precisamente sobre o fluxômetro do motor, que determina a quantidade de combustível passando pela unidade de potência.

 
Ao quebrar as regras nesta área, a Ferrari seria capaz de alcançar velocidades superiores nas retas. E, de fato, isso foi observado na maior parte do ano. As suspeitas chegaram a um novo nível quando a equipe italiana fez mudanças para os Estados Unidos e, de uma hora para outra, tornou-se bem mais vulnerável nas retas.
 
Existe uma zona cinzenta entre ser criativo e ser trapaceiro, o que dificulta o julgamento sobre o que vale e o que não vale. A Renault se achou esperta ao usar um novo sistema de freios, mas ficou com cara de tacha quando a Racing Point dedurou o equipamento à FIA, causando desclassificação dupla dos amarelados no GP do Japão. O único jeito de garantir que as equipes não surtem e protestem contra tudo que haja de novo em equipes rivais é com transparência. Tivemos isso no caso da Renault; não tivemos no caso da Ferrari.
O SF90 é acusado de não ter seguido o regulamento (Foto: Rodrigo Berton/Grande Prêmio)

Sem surpresas, Mercedes e afins já ensaiam ir para cima da federação, entendendo que a única medida aceitável para alguém que teria competido com algo ilegal durante o ano inteiro é uma desclassificação completa do Mundial. Em outras palavras, atrás de todos, até mesmo da Williams. É difícil acreditar que isso de fato aconteça depois da passada de pano da FIA, mas dá dimensão do rolo que se formou e da gravidade do assunto.

 
O panorama final do comunicado da FIA é um que não ajuda nem a si mesmo, nem a Ferrari. Mesmo entrando num mundo da conspiração em que a federação tente ajudar os italianos, só conseguiu o contrário com uma exposição desnecessária por conta de um assunto já esquecido. Tanto não ficou legal que a turma de Maranello não repercutiu o comunicado em qualquer meio, como se ignorasse o assunto.
 
Em uma F1 que já tem muita sarna para coçar, vide coronavírus e calendário incerto, seria possível acreditar que os assuntos de 2019 ficariam no passado, mas não é tão simples assim. Se a Ferrari de fato ganhou tratamento diferenciado, Mercedes e Red Bull tem toda razão em se sentir prejudicadas. Deixa de ser questão de tirar casquinha da rival, mas de exigir lisura no Mundial. Se essa lisura existe ou não, bem, aí são cenas dos próximos capítulos.

 

Paddockast #50
GRANDES PROMESSAS QUE NÃO VINGARAM

Ouça: Spotify | iTunes | Android | playerFM

Apoie o GRANDE PRÊMIO: garanta o futuro do nosso jornalismo

O GRANDE PRÊMIO é a maior mídia digital de esporte a motor do Brasil, na América Latina e em Língua Portuguesa, editorialmente independente. Nossa grande equipe produz conteúdo diário e pensa em inovações constantemente, e não só na internet: uma das nossas atuações está na realização de eventos, como a Copa GP de Kart. Assim, seu apoio é sempre importante.

Assine o GRANDE PREMIUM: veja os planos e o que oferecem, tenha à disposição uma série de benefícios e experiências exclusivas, e faça parte de um grupo especial, a Scuderia GP, com debate em alto nível.

GOSTA DO CONTEÚDO DO GRANDE PRÊMIO?

Você que acompanha nosso trabalho sabe que temos uma equipe grande que produz conteúdo diário e pensa em inovações constantemente. Mesmo durante os tempos de pandemia, nossa preocupação era levar a você atrações novas. Foi assim que criamos uma série de programas em vídeo, ao vivo e inéditos, para se juntar a notícias em primeira-mão, reportagens especiais, seções exclusivas, análises e comentários de especialistas.

Nosso jornalismo sempre foi independente. E precisamos do seu apoio para seguirmos em frente e oferecer o que temos de melhor: nossa credibilidade e qualidade. Seja qual o valor, tenha certeza: é muito importante. Nós retribuímos com benefícios e experiências exclusivas.

Assim, faça parte do GP: você pode apoiar sendo assinante ou tornar-se membro da GPTV, nosso canal no YouTube