F1

Análise: como a Williams foi da luta pela vitória ao 4º lugar no GP da Inglaterra

A ordem de equipe que gerou controvérsia, o pit-stop lento com a pista seca e o pit-stop tardio debaixo de chuva fizeram a Williams cair da primeira e da segunda colocações para a quarta e a quinta. Entenda como se desenrolou a prova de Felipe Massa e Valtteri Bottas
Warm Up / RENAN DO COUTO, de São Paulo
 Massa lidera corrida à frente do companheiro Bottas em Silverstone (Foto: AP)
O esforço da Williams foi louvável, mas não impediu a Mercedes de fazer uma dobradinha no GP da Inglaterra deste domingo (5). Felipe Massa e Valtteri Bottas lutaram pela vitória no início da prova, fazendo frente à equipe alemã muito por conta de uma grande largada, porém terminaram a nona etapa da temporada fora do pódio.

Ordens de equipe nas voltas iniciais, a posição perdida no primeiro pit-stop e a perda de rendimento na chuva, aliada a outro pit-stop que deixou a desejar, contribuíram para a queda do time ao longo do GP. Mas como foi, exatamente, que a luta pela vitória se tornou um quarto lugar? 

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Felipe Massa e Valtteri Bottas assumiram a ponta da corrida na primeira volta (Foto: Beto Issa)
A largada, a ordem de equipe e a liderança perdida nos boxes

Massa e Bottas foram esplêndidos nas primeiras voltas. Largaram melhor e subiram para primeiro e segundo. Hamilton recuperou a posição em relação ao finlandês, mas errou ao tentar atacar Massa na relargada e novamente se viu em terceiro lugar. A partir de então, desenhou-se uma corrida bem interessante.

É claro que todas as equipes desejam vencer, mas o objetivo realista da Williams para o GP da Inglaterra era superar a Ferrari. A boa classificação deu ao time a posição de pista e, naquela condição, Pat Symonds acreditava que a vantagem na luta pelo pódio era do time de Grove. "Já vimos neste ano que quem está atrás não consegue ultrapassar", falou o britânico antes da corrida para a Sky Sports.

De repente, a vantagem era em relação à Mercedes, que também não conseguia ultrapassar. Massa ditava o ritmo dos quatro primeiros, andando na casa de 1min39s, e rapidamente eles desgarraram do restante do pelotão.

Foi quando a transmissão da TV começou a revelar as conversas de rádio da Williams, com o recado claro para Bottas: "No racing your teammate". Mas o finlandês sentia que estava mais rápido e queria passar, colocou por fora na Stowe na curva seguinte e novamente não conseguiu. Ele reclamou, e então veio outra mensagem: podia tentar passar, desde que fosse uma manobra limpa, não se fosse ser uma ultrapassagem brigada que permitisse o bote de Lewis Hamilton e Nico Rosberg.

Naturalmente, ele não gostou, como demonstrou após a corrida. "Eu tinha mais ritmo em uma ou duas boas oportunidades em que não tive permissão para passar, então é decepcionante", afirmou. No comunicado da equipe, veio apenas meia versão, a parte seguinte da história: "Eu tive permissão para brigar com o Felipe, mas estava difícil passar e eu não queria cometer erros".
Volta 20 do GP da Inglaterra (Foto: Reprodução/TV)

Em todo caso, a pergunta que deve ser feita aqui é: Bottas teria ritmo para assumir a liderança e abrir enquanto Massa ficasse se defendendo de Hamilton? Assim, a Williams conseguiria marcar a estratégia da Mercedes, não? E a reposta para ela não é clara. Também daí a opção da Williams de não determinar uma inversão de posições — não era só medo de causar um mal-estar interno, que, de um jeito ou de outro, surgiu.

O indício real de que Bottas talvez pudesse abrir é o tempo de sua volta de entrada nos boxes, quando teve pista livre: 1min36s610. Ele foi 0s3 mais rápido que Rosberg, 1s2 que Hamilton e 1s3 que Massa.

Ao mesmo tempo, isso só quer dizer que Bottas foi melhor naquela volta, e não que realmente era mais rápido. Bottas, Hamilton e Rosberg podiam usar o DRS e, portanto, atingiam velocidades mais altas nas retas em relação a Massa. Mesmo assim, não passavam. Ou seja, o brasileiro fazia muito bem o seu trabalho. Tivesse ele também a permissão para abrir a asa, provavelmente seria mais rápido.

"Valtteri foi mais rápido, é verdade. Se Valtteri conseguisse passar de forma limpa, se não se batessem, perdessem tempo, poderia ter ultrapassado", analisou Rob Smedley, que ainda destacou que as mensagens de rádio exibidas na TV provavelmente deram uma impressão errada do verdadeiro timing. De todo modo, ele defendeu: o procedimento é o mesmo em todas as corridas.

Hamilton entrou nos pits no fim da 19ª volta, ficou parado por 2s4 e voltou à pista. Um ótimo trabalho. Na volta seguinte, foi a vez de Massa, que teve um lento pit-stop de 3s8. A equipe teve de limpar a asa traseira, mas, segundo o piloto, mesmo assim o trabalho demorou mais do que o esperado. Quase que ele perde a posição também para Rosberg.

Massa ainda afirmou que a parada prematura de Hamilton foi arriscada e que, se mantivesse a frente naquele momento, a Williams poderia ter vencido. A ideia da Mercedes ao antecipar o pit do britânico: apostar que a Williams teria dificuldades com o desgaste de pneus no fim da prova.

Outro aspecto ressaltado por Massa para defender a opção da equipe em não determinar uma troca de posições foi que, com os pneus duros, ele foi mais rápido do que Bottas. Ele não via o finlandês tão mais veloz assim. No segundo stint, antes da chuva, Massa conseguiu até abrir para o colega, que ainda se defendia de Rosberg, e parecia ter o segundo lugar bem encaminhado.

 Água no Martini
A perda do pódio na chuva


1) a Williams, na chuva, continua mais lenta do que as adversárias; 2) a posição de pista, desta vez, prejudicou o time de Grove.

Hamilton foi metade genial, metade sortudo, quando entrou nos boxes no fim da volta 43. Ele e a Mercedes sabiam que a chuva estava chegando, e seu carro já não tinha aderência para segurar Rosberg, que vinha 2s mais veloz por volta. Foi uma parada necessária. Simultaneamente, ajudou demais o fato que foi exatamente naquele momento que a chuva se intensificou.

Rosberg já tinha passado pela entrada dos boxes, e a Williams, se ainda não tivesse, já estava próxima demais dela e não teve a rápida decisão de parar. Eles tiveram de dar um giro a mais.
Vettel surgiu na chuva e levou a Ferrari ao pódio para salvar o dia dos italianos (Foto: Reprodução/TV)
Hamilton virou, em sua 'in lap', 1min41s460. Rosberg, 1min53s679. Massa, 2min00s875. Bottas, 2min04s140. Logo, quanto mais atrás, mais prejudicado. E Vettel, que seguiu Hamilton, 1min42s498. Parar antes lhes deu, ainda, a vantagem de já estarem preparados no pior momento da pista, o que os outros três pilotos não conseguiram. Ali, o inglês garantiu a vitória e o alemão salvou o discreto dia da Ferrari.

Em tempo: a leitura que se faz de que Hamilton parou 'no desespero' é a que quem viu a prova pela TV. Massa comentou que a Williams deveria ter optado pelo bom e velho 'siga o líder': "O Hamilton entrou, e a equipe devia estar de olho nisso. A gente perdeu a chance de entrar e ficou sem o pódio. Sem dúvida, seria um pódio bem-vindo pela corrida que a gente fez hoje".

"Pela primeira vez na carreira, fiz a escolha correta", vibrou o vencedor do domingo. "Sem a chuva, não estaríamos no pódio", reconheceu Vettel.

Se a Williams ficou decepcionada por perder o pódio, ao menos pode falar que cumpriu alguns de seus objetivos: provou ter melhorado o carro e, pela terceira prova seguida, somou mais pontos que a Ferrari.