Berço da F1, primeira vitória da Ferrari, ídolos locais e acidente de Schumacher: o GP da Inglaterra ao longo da história

Mais icônica corrida de todo o calendário, o GP da Inglaterra jamais deixou de ser disputado no Mundial de F1. A Ferrari, que em Silverstone venceu pela primeira vez na categoria, é a dona do maior número de conquistas, 16. Jim Clark e Alain Prost dividem o trono entre os pilotos que mais venceram em solo britânico

Em 13 de maio de 1950, a F1 iniciou sua trajetória laureada no esporte com a realização do GP da Inglaterra, na base aérea de Silverstone. Desde então, a prova jamais deixou de acontecer, ainda que algumas edições tenham sido disputadas em Brands Hatch e Aintree ao longo do tempo. Trata-se de uma história marcada por muitas glórias e transformações em mais de seis décadas. Neste fim de semana, a F1 volta ao seu país de origem para a 66ª edição do GP da Inglaterra, nona etapa da temporada 2015 de um Mundial dominado pela Mercedes de Nico Rosberg e, principalmente, pelo idolatrado piloto da casa, Lewis Hamilton.

Aos mais novos, é impossível não recordar a primeira vitória de Hamilton na Inglaterra, causando um furor entre os torcedores ingleses em 2008. Ou então, cinco anos antes, a grande corrida de Rubens Barrichello em 2003, que venceu uma disputa marcada pela invasão do folclórico padre Cornelius Horan — sim, aquele que deu o ar da sua graça na Maratona Olímpica em Atenas, um ano depois. Voltando ainda mais no tempo, a corrida de 1999 representou o mais grave acidente sofrido por Michael Schumacher em pista, tirando-o de fora da briga pelo título daquele ano justo quando vinha em grande fase.

Outros momentos são igualmente históricos, como a batalha épica entre Nelson Piquet e Nigel Mansell, que levou a torcida inglesa à loucura com o triunfo em 1987, acirrando a luta pela taça, que envolvia também Ayrton Senna. Ou a volta avassaladora feita por Keke Rosberg, que ficou por muitos anos como o recordista de maior média horária da história do esporte.

Num passado bem mais distante, a história do GP inglês se confunde com a da própria F1. O ídolo local Stirling Moss, talvez o maior dos pilotos a não ter sido campeão do mundo, conquistou sua primeira vitória em 1955. Regressando mais no tempo, em 1951, o argentino José Froilán González conquistava a primeira vitória da Ferrari na categoria, que voltava a Silverstone, onde um ano antes abria uma trajetória que a colocou como o principal certame do esporte a motor em todo o mundo.

A Ferrari é a maior vencedora da história do GP da Inglaterra e soma nada menos que 16 triunfos. Entre os pilotos, desta vez não é Michael Schumacher que aparece no topo, mas sim dois outros pilotos lendários: Jim Clark e Alain Prost têm cinco vitórias cada. Entre os brasileiros, é Emerson Fittipaldi quem detém o maior número de conquistas na Inglaterra: duas. Ayrton Senna e Barrichello também já sentiram o doce gosto do champanhe no alto do pódio do mais tradicional GP da F1.

Carona histórica de Nigel Mansell a Ayrton Senna ao fim do GP da Inglaterra de 1991 (Foto: Pascal Rondeau/Getty Images)

A seguir, o GRANDE PRÊMIO traz alguns dos fatos que marcaram a história do GP da Inglaterra: 

O berço da F1

A Europa era um continente que buscava se reerguer naqueles primeiros anos do pós-guerra. Mas era um dia de festa em Silverstone naquele 13 de maio de 1950. Com a presença maciça da família real, liderada pelo Rei George VI, a Rainha Elizabeth e a Princesa Margareth, além da aristocracia britânica, a F1 iniciava sua laureada história. Significava, no fim das contas, a junção das mais importantes corridas no continente europeu, além das 500 Milhas de Indianápolis — esta, predominantemente disputada por pilotos norte-americanos, mas que estava no calendário para dar ao certame a chancela de campeonato mundial.

21 carros estavam inscritos para a corrida. A grande estrela era a Alfa Romeo, que alinhou quatro carros, mas outras marcas também estavam presentes: Maserati, Talbot Lago, ERA e Alta. A Ferrari, por sua vez, só estrearia no Mundial de F1 na corrida seguinte, em Mônaco.

A história do GP da Inglaterra confunde-se com a da própria F1. Largada da primeira corrida, em 1950 (Foto: Forix)

Melhor preparada que suas adversárias, a Alfa Romeo dominou a primeira fila do grid do primeiro GP da Inglaterra: Giuseppe Farina foi o pole, largando lado a lado com Luigi Faglioli, Juan Manuel Fangio e Reg Parnell. ‘Nino’ Farina, liderou 63 das 70 voltas e venceu a corrida com apenas 2s6 de vantagem para Faglioli. Para os padrões da época, foi uma prova bastante rápida, com 146,378 km/h de média horária.

Começava ali a história da F1 e do próprio GP da Inglaterra.

14 de julho de 1951: um dia para a história da Ferrari

A maior e mais tradicional equipe do automobilismo mundial conquistava sua primeira vitória no GP da Inglaterra de 1951. Naquela época, o grid de largada era bem peculiar, com quatro carros alinhando nas filas pares e três nas ímpares. A Ferrari vinha com quatro carros para tentar barrar o esquadrão da campeã Alfa Romeo: Alberto Ascari, Luigi Villoresi, Peter Whitehead e José Froilán González.

José Froilán González comemora vitória em Silverstone: o primeiro triunfo da Ferrari na F1 (Foto: Forix)

E coube ao argentino escrever uma página importante na história da Ferrari em Silverstone. Foi ele quem marcou a primeira pole-position do time na F1, batendo as Alfa Romeo de Juan Manuel Fangio e do campeão do mundo Giuseppe Farina.

A corrida foi marcada pelo grande domínio de González, que impôs boa vantagem a Fangio desde o começo. Ao fim de 90 voltas, melhor para ‘El Cabezon’, que colocou 51s de frente para o compatriota e entregou à Ferrari a primeira das suas 222 vitórias na F1.

A primeira vitória caseira no GP da Inglaterra

O primeiro britânico a vencer na F1 foi Mike Hawthorn, que faturou suas primeiras corridas em 1953 e 1954, pela Ferrari. Mas a primeira festa de um piloto da casa viria no ano seguinte, mas não em Silverstone. Naquela temporada, começou um revezamento entre o tradicional circuito inglês e Aintree, rápido traçado localizado a nordeste de Liverpool.

E foi justamente em Aintree que Stirling Moss venceu sua primeira corrida na F1, pela Mercedes. O britânico, que ainda hoje acelera as Flechas de Prata em exibições, alcançou mais 15 vitórias em 66 GPs. Ao todo, Moss foi quatro vezes vice-campeão do mundo, sendo seguramente um dos pilotos mais bem-sucedidos da F1, mesmo sem ter conquistado um título.

Stirling Moss em ação com a Flecha de Prata no GP da Inglaterra de 1955 em Aintree (Foto: Forix)

Com a morte de Froilán González, Moss é hoje o mais velho ex-piloto vivo a ter vencido uma corrida na história da F1.

Festa do Brasil na terra da rainha

Foram quatro as vitórias brasileiras no GP da Inglaterra. Em 1972, Emerson Fittipaldi conquistou a vitória em Brands Hatch com o lendário Lotus 72D, que lhe deu o primeiro título mundial na F1. Três anos depois, já sob a condição de bicampeão do mundo, o ‘Rato’ alcançava um triunfo histórico: a vitória no GP da Inglaterra de 1975, com direito a dobradinha brasileira com José Carlos Pace em segundo, fora sua última na carreira pela F1. Na temporada seguinte, Emerson assumia o lugar do irmão Wilsinho como piloto da sua própria equipe, a Copersucar Fittipaldi.

A primeira vitória brasileira no GP da Inglaterra veio pelas mãos de Emerson, em 1972 (Foto: Forix)

Demorou 13 anos para que outro brasileiro voltasse a vencer em Silverstone. Dono do melhor carro daquele ano de 1988, o McLaren Honda MP4/4, Ayrton Senna largou em terceiro lugar, atrás das Ferrari de Gerhard Berger e Michele Alboreto. Mas debaixo de chuva, como é comum ao clima tipicamente britânico, Senna não levou muito tempo para ultrapassar a dupla de Maranello, assumir a liderança e vencer com tranquilidade.

A última vitória do Brasil em Silverstone marcou uma das melhores performances de Rubens Barrichello na F1. Outro brasileiro que brilhou naquela prova foi Cristiano da Matta, que fez grande corrida e chegou a liderar boa parte da disputa com seu Toyota após ter largado em sexto. Barrichello largou na pole, mas foi superado na largada por Jarno Trulli e Kimi Räikkönen.

No meio da corrida, o padre Cornelius Horan invadiu a pista, saindo correndo em direção contrária aos carros na reta oposta, colocando não só sua vida em risco, mas também a dos pilotos. A direção de prova acionou o safety-car imediatamente. De volta à normalidade, Barrichello travou grande duelo com o então jovem Kimi Räikkönen, então em sua primeira temporada na McLaren, ultrapassou o finlandês e conquistou uma grande vitória em Silverstone.

Rubens Barrichello viveu um dos seus melhores momentos na carreira em Silverstone (Foto: Ferrari)

O homem mais rápido da primeira era turbo

Silverstone passou por muitas modificações no seu traçado ao longo dos tempos. Entre os anos 70 e 80, a pista, basicamente um conjunto de retas separadas por curvas de alta velocidade, ganhou trechos de baixa: em 1975, a chicane fora instalada na entrada da curva Woodcote, que dava acesso à antiga reta dos boxes. Depois, entre 1986 e 1990, houve uma alteração com a criação de uma curva lenta, a Luffield, antes da Woodcote.

Mas nada freou o avanço dos carros e a potência dos motores turbo daquela época. Na classificação do GP da Inglaterra de 1985, Keke Rosberg explorou toda a potência do motor Honda do seu Williams e marcou 1min05s591, com uma assustadora média horária de 259,005 km/h, a volta mais veloz da história da F1 à época. Seu recorde só foi batido 17 anos depois, quando Juan Pablo Montoya, também da Williams, que marcou 259,828 km/h de média na volta que lhe deu a pole do GP da Itália, em Monza.

O ‘Leão’ leva ingleses ao delírio em 1987

A rivalidade histórica entre Nigel Mansell e Nelson Piquet atingiu um dos seus pontos altos em 12 de julho de 1987. O brasileiro estava no território inimigo: em Silverstone, contra o ‘Leão’, a própria Williams e a torcida britânica, que torcia como nunca para o piloto da casa.

A prova daquele ano marcou a superioridade da Williams e, principalmente do motor turbo Honda, que usou e abusou da potência nas grandes retas de Silverstone. Piquet e Mansell sobraram naquele fim de semana. O brasileiro cravou a pole com apenas 0s070 de frente para o rival. Na corrida, Piquet adotou uma tática mais conservadora e não parou para trocar pneus. Mansell, que fez sua parada, partiu alucinado para brigar pela vitória contra seu maior adversário.

Depois de muita luta e 62 voltas na liderança, Piquet não resistiu aos ataques do ‘Leão’. Ainda chegou a emparelhar com o britânico e quase tocar rodas, mas não teve jeito. Mansell fez a ultrapassagem e triunfou três voltas depois, para delírio do torcedor local, que não via um inglês vencer desde John Watson, em 1981.

Schumacher bate forte e adia sonho do título pela Ferrari

Bicampeão do mundo, Michael Schumacher buscava a todo custo tirar a Ferrari de uma fila que já durava quase 20 anos sem títulos no Mundial de Pilotos. O alemão fora contratado a peso de ouro por Maranello e era o líder de um projeto de colocar a escuderia rossa de volta ao topo do esporte. Depois de bater na trave em 1997 e não resistir ao domínio da McLaren de Mika Häkkinen no ano seguinte, 1999 parecia ter um desfecho diferente, até que veio o GP da Inglaterra.

Os grandes rivais abriram a primeira fila em Silverstone. Logo na primeira volta, depois de ter sido superado por David Coulthard e Eddie Irvine, Michael perdeu o controle da sua Ferrari, passou reto na entrada da curva Stowe e bateu muito forte, de frente a uma barreira de pneus. Com o impacto, o alemão fraturou a tíbia e a fíbula da perna direita. Foi de longe seu pior acidente na F1, que acabou lhe tirando a chance de brigar pelo título em 1999. Schumacher ficou seis corridas fora, sendo substituído por Mika Salo, e só voltou ao cockpit no GP da Malásia.

Quase dez anos depois do acidente, Schumacher falou à emissora ZDF que pensou ser aquele seu fim. “Nessa altura, pensei que aquilo é o que deve se sentir quando estiver no caminho para o pós-vida. Não sei quanto tempo passou, se foi uma insuficiência ou se estava em estado de choque. Pelo menos, foi isso o que senti. Senti o que se sente quando se passa para o outro lado.”

Novo herói britânico, Hamilton faz a festa em casa

Lewis Hamilton surgiu como um meteoro na F1, assombrando o mundo do esporte e também seu companheiro de McLaren à época, Fernando Alonso. Logo no seu ano de estreia, em 2007, deu um show em Silverstone ao conquistar a pole-position, fazendo os fãs locais sonharem com uma vitória redentora. Mas Lewis teve de amargar o terceiro lugar.

Ao lado de Heidfeld e Barrichello, Hamilton comemora primeira vitória em casa (Foto: Honda F1 Press Office)

Um ano depois, porém, tudo foi diferente. A começar pelo pole. A McLaren abriu a fila do GP da Inglaterra daquele ano, mas com Heikki Kovalainen, enquanto Hamilton partiu em quarto. Mas o piloto da casa largou bem demais, subiu para segundo na primeira volta e depois superou o finlandês para conquistar uma grande vitória em Silverstone. A torcida britânica levaria seis anos para voltar a ver Hamilton no topo do pódio, desta vez, representando a Mercedes.

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