F1

Coluna Apex, por Andre Jung: 250!

Em várias oportunidades, ao longo desses 13 anos, pensei em parar. Escrever é um compromisso sério e tive momentos em que pus em dúvida minha motivação para entregar um serviço decente aos leitores. Permaneço um pouco por inércia. Um tanto por gostar do que faço, outro tanto por vaidade

Warm Up / ANDRE JUNG, de São Paulo

De certa forma, já estava escrito: nasci num 12/05, dia do aniversário do Autódromo de Interlagos, onde, menos de nove anos depois, estaria sentado no setor A para assistir Emerson Fittipaldi, Luis Pereira Bueno e outros ases reinaugurarem nosso principal circuito num disputado torneio internacional de F-Ford.
 
Meu pai trabalhou em alguns jornais e revistas, e minha mãe era artista gráfica na Editora Abril e de lá trazia as suculentas ‘4 Rodas’, onde o jovem Andre praticamente se alfabetizou com as façanhas de Jim Clark, Graham Hill e Jackie Stewart.
 
Quando a TV alcançou a F1, passei a assistir todas as corridas e estudar os aspectos técnicos dos carros e regulamentos. Ainda criança, tive a oportunidade de ver de perto meus ídolos – José Carlos Pace era o maior deles – nas entradas furtivas que os buracos nos muros da pista me convidavam a fazer, e que invariavelmente me levavam aos boxes.
 
O ambiente da minha casa, de uma família que deixou Recife fugindo da repressão do regime militar, era de muita agitação e revolta naqueles anos de chumbo. Quando entrei na adolescência, meu desejo era seguir carreira no jornalismo, que entendia ser um caminho para me somar à luta pelas liberdades democráticas.
 
No colegial, outras tentações passaram a mexer com minha cabeça. Me engajei no combate pelo fim da ditadura, conheci moças bonitas e a música assumiu papel de destaque na vida do Andre. Comecei a fazer parte de alguns grupos musicais e passei a enxergar ali minha atividade principal.

No entanto, prestei vestibular, entrei e comecei a estudar jornalismo, como que a preservar em mim aquele sonho de criança. Sempre gostei de escrever e a música não mudou minha vontade de me expressar com as palavras.
(Ilustração: Marta Oliveira)

Fui comprador assíduo de revistas importadas: a ‘Autosport’, que meu inglês alcançava; e a ‘Autosprint’, onde aprendi um bocado do italiano tosco que depois fui usar nas reuniões de pais e mestres da Escola Italiana Eugenio Montale, onde coloquei meu filho caçula para estudar.
 
Minha fama de conhecedor de automobilismo cresceu e começaram a surgir convites, aqui e ali, para falar sobre o assunto. Rádio, TV e jornais. Comecei como comentarista de Nascar, em pacotes de corridas que a TV Manchete comprava e reprisava, tendo como narrador nada menos do que o mito Edgard Mello Filho. Depois escrevi alguns textos para a ‘Folha de S. Paulo’ e criei e apresentei, durante um ano, um boletim diário sobre esporte a motor na rádio ‘Brasil 2000’ de São Paulo, intitulado "Velocidade on the Rocks”. 
 
Na mesma época, Edgard Mello Filho tinha uma concorrida coluna, escrita com a mesma maestria com que ele narrava as provas, no site GRANDE PRÊMIO. Por motivos que desconheço, ele anunciou ao editor, Flavio Gomes, que não poderia se manter na trinca de colunistas que também incluía o próprio Flavio e Reginaldo Leme. Foi quando meu telefone tocou e, para minha satisfação, Flavio estava do outro lado, me convidando para passar a escrever uma coluna no site. Isso foi em 2004, à altura do GP do Bahrein.
 
Pensei um bocado e propus escrever uma coluna às quartas-feiras após os GP de F1. Assim meu escopo ficava mais específico. A coluna, sem deixar de ser assídua, demandava um esforço que eu podia dar conta, em meio à minha carreira de músico profissional.
 
Batizei-a de Apex, que vem a ser como os ingleses denominam o ponto de tangência. Parti para escrever o primeiro texto. Em várias oportunidades, ao longo desses 13 anos, pensei em parar. Escrever é um compromisso sério e tive momentos em que pus em dúvida minha motivação para entregar um serviço decente, ao Flavio e aos leitores.
 
Permaneço um pouco por inércia. Um tanto por gostar do que faço, outro tanto por vaidade, e continuo a me esforçar para não incomodar demais os leitores.
 
No início não fui muito bem vindo à crônica especializada. Tem muito rockeiro que gosta de corridas (será?), mas escrever sobre o tema não é coisa para simpatizantes. Alguns questionaram o espaço que o Flavio me concedeu, que deveria ser ocupado por aqueles com acesso às fontes primárias, aqueles que entrevistam, acompanham e investigam a F1 por dever de profissão.
 
Fiz a Apex para tentar um olhar diferente, que passa pelas declarações dos pilotos, dirigentes e jornalistas, para formar uma opinião que depois tento dividir em meus textos.
 
Já faz alguns anos que a coluna passou a contar com o auxílio mais que luxuoso das ilustrações de Marta Oliveira. Hoje a Apex é quase como um texto que acompanha uma ilustração.
 
Sei lá, 250 é um número grande e não quis deixar passar batido.
 
Enquanto isso... 
 
...Se fosse tênis, diríamos que o braço encurtou...
 
...Foi assim que Hamilton sacou, com ‘braço de jacaré’, a largada do GP do Japão.