Coluna Apex, por André Jung: Fogo amigo

As polêmicas ordens de equipe na F1 revoltam a todos por um tempo, até que o assunto esfrie e volte a acontecer um tempo depois


Não adianta, por mais polêmica e tinta que se gaste, ninguém resolve o problema das ordens de equipe na F1. A cada vez que ocorre um incidente motivado pelas fatídicas ordens, a imprensa capricha nas manchetes, entrevistas são feitas com parentes dos envolvidos, especialistas e opinião pública, que de um modo geral, manifestam indignação (muitos questionando se a F1 é ou não é esporte), até que a notícia esfria e tudo volta ao mesmo lugar… até que o problema se repita. 
 

O GP da Malásia deixou de ser a boa corrida que foi e surge nas mídias como um emaranhado de sacanagens, perpetrados por pilotos e equipes. Embora esses problemas sejam recorrentes, algumas particularidades podem ser extraídas do último episódio, relativas ao formato atual das corridas.

O jogo de equipe de Red Bull e Mercedes polemizou a F1 na Malásia (Ilustração de Marta Oliveira)

 
O Campeonato Mundial, da forma em que está colocado, tornou-se uma questão de gerenciamento. Se compararmos o tempo da melhor volta da corrida com os tempos obtidos nos treinos, nota-se a enorme diferença, provocada pela necessidade imperativa de preservar os pneus.
 
No ano passado, boa parte dessa diferença (entre os tempos de treinos e corridas), era advinda do uso indiscriminado da asa móvel durante os treinos. Hoje seu uso é liberado sob as mesmas condições em corrida, classificação, ou treinos livres.
 
Para 2013, a Pirelli amoleceu mais os compostos, aumentando sua aderência, mas diminuindo sua duração. Assim as corridas são intensamente monitoradas dos boxes, para orientar os pilotos do estado de seus pneus e do que eles devem fazer para mantê-los em condições de uso até a próxima troca.
 
O mesmo raciocínio se aplica ao gasto de combustível, que, embora ainda não seja limitado, precisa ser monitorado, uma vez que as equipes carregam seus carros com o mínimo que acreditam necessário para concluir a prova, calculando um grande número de variáveis, que muitas vezes não se repetem na hora “H” – muitas vezes elevando o consumo planejado e obrigando os pilotos a aliviarem o pé no final, para não ficarem pelo caminho.
 
Tudo isso misturado faz com que as equipes sejam corresponsáveis pelo desempenho que seus pilotos apresentam durante as diversas fases de um GP. Hamilton teve de tirar o pé, porque corria o risco de ficar sem gasolina. Para que ele fizesse isso, tiveram de segurar o bom Nico Rosberg. O mesmo a Red Bull fez com Webber, o que facilitou para Vettel ultrapassar o rival. Aqui deixo de utilizar o termo companheiro (de equipe), uma vez que soaria um tanto hipócrita.
 
Ordens de equipe, ainda pareceriam justificáveis, num momento em que apenas um dos pilotos do time tivessem chances reais de vitória, em pleno início de temporada, soam como intromissões indevidas e justificadamente incomodam a plateia.
 
Na classificação, Vettel, inteligentemente, economizou seus pneus mais macios para ter um jogo novo no último trecho da prova e ser capaz de ultrapassar quem estivesse a sua frente. Então, sua estratégia funcionou perfeitamente, mas a equipe, de forma protocolar, pediu a ele que mantivesse ritmo e posição. Vettel não aceitou e atacou. Para Webber havia a opção de lutar, e ele o fez por um instante até desistir e esperar pra ver o que a equipe iria fazer. A equipe não fez muita coisa.
 
Honestamente, não acho que Webber, de pneus mais duros, teria como suportar o ataque de Vettel nas voltas finais, e a intervenção da Red Bull em benefício do australiano é forçar uma zona de conforto que a essa altura é bastante covarde. Vettel mandou às favas, ninguém é bonzinho ali (os pilotos brasileiros ex-companheiros do australiano não tem boas lembranças), Sebastian tem a mesma fome de vencer dos grandes campeões: Ayrton, Schumacher, Prost, Alonso e cia.
 
Ao cruzar a linha de chegada, Vettel malandramente trouxe o carro pra junto do muro numa típica atitude “tamo junto”, enfurecendo Webber que ostensivamente jogou o carro na frente do alemão. Dos boxes, ouviu: “Bom trabalho Seb, parece que você queria isso acima de tudo, ainda que nos deva explicações”, o que não soa exatamente como uma bronca.
 
Toda essa repercussão deve passar pela cabeça do Nico Rosberg. Nesse caso, a equipe foi, de fato, bem mais incisiva e as ordens insistentes de Ross Brawn deixavam bem claro onde ele deveria ficar. A necessidade urgente de resultados que tranquilizem os chefes e justifiquem os gastos – além de preservar algumas cabeças ameaçadas como a do próprio Brawn – induz a uma conduta mais conservadora, daí manter posição.
 
Mas pagar de bom moço não tem efeito prático nas escolhas das equipes. Nenhuma delas contrata seus pilotos com esse critério. Nico não tem o peso de Vettel, que do alto de seus recordes pode abusar, em meio ao caminho de um possível tetracampeonato contínuo, ao contrário dele e de Webber que podem, cada um a seu modo, tirar vantagens da situação, Rosberg foi tão prejudicado que terminou a prova cobrando a dívida.
 
Se a McLaren não tivesse marcado bobeira, provocaria briga entre os dois Mercedes (o que demonstra que o carro de Jenson Button não é desastroso como tem sido apregoado). A falta de ameaças jogou contra o alemão.
 
Webber é o segundo piloto. Quando esses episódios acontecem (periodicamente na Red Bull), ele ao menos consegue sair um pouco da sombra de Vettel. No caso Mercedes, Hamilton vem com título e salário, mas ainda precisa mostrar serviço na nova equipe para conseguir enquadrar Rosberg.
 
E falando em segundo piloto, Massa foi mal. Tinha carro e posição de largada para andar na frente da Mercedes e não o fez. De qualquer forma, voltou a largar na primeira fila, o que é um sinal claro de sua recuperação.
 
Enquanto isso…
 
…a Ferrari dá uma top mancada e zera com Alonso logo no início. Ano passado, foi preciso uma “voadora” de Grosjean, lá no GP da Bélgica, para tirar o espanhol pela primeira vez dos pontos…
 
…a Williams volta à beira do abismo: o carro é ruim, o dinheiro falta e os profissionais vão embora…
 
…a Force India teve de encostar os dois carros por conta de um problema de dilatação nas porcas de roda, mas Hülkenberg trocou de equipe na hora errada…

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