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F1

Coluna Apex, por Andre Jung: Limites

A ascensão de um garoto tão jovem como Max Verstappen só faz afirmar a suspeita de que os pilotos de hoje em dia são inferiores aos do passado. Não precisam muito mais do que acelerar, já que o acerto do carro é obtido pelos sensores e engenheiros, pouco cabendo ao piloto

Warm Up / ANDRE JUNG, de São Paulo
Graças à entrada do safety-car, que mexeu com as estratégias de todo mundo, a prova de Cingapura teve um final bastante movimentado. Os carros que decidiram seguir até o final se esforçavam para economizar a borracha, enquanto os que decidiam parar faziam voltas de classificação.

Se Felipe Massa conseguiu fazer seu Williams chegar numa valorosa quinta posição em uma pista que desfavorecia bastante as características do seu carro, o mesmo não se pode dizer de seu companheiro de equipe, que depois de passar cerca de 20 voltas, segurando um grupo de pilotos mais velozes, chegou à última volta sem pneus e teve de entregar o suado sétimo posto, caindo para 11º e deixando de pontuar, a poucos metros do fim.

Corrida longa, quente, úmida, disputada entre muros, o GP de Cingapura não é para os fracos. Ali, experiência conta muito. Não foi por outro motivo que o bom Jean-Éric Vergne conseguiu sua melhor prova no ano, superando de longe seu jovem colega, impressionante em tantas ocasiões, mas um piloto comum.
(Ilustração: Marta Oliveira)
Com o desemprego anunciado, Vergne — que equilibrou o jogo quando enfrentou o mesmo Daniel Ricciardo que tem superado o tetracampeão mundial Sebastian Vettel com relativa facilidade —  busca desesperadamente se manter na categoria. Foi dispensado, ainda aos 24 anos, para dar lugar a um adolescente.

Torce para que sua performance — um tanto tardia —, consiga comover algum chefe de equipe em busca de um piloto rápido e relativamente experiente. Coisa improvável nesse moedor de carne que tem se transformado a F1.

Chamo a atenção para esse caso porque considero um absurdo o que a Red Bull/Toro Rosso está fazendo. Não por dispensar o francês, que de resto não é unanimidade em lugar nenhum, mas por fazer isso a título de promover para seu lugar um menino de 17 anos.

Não vejo cabimento nisso. Um jovem, recém saído da infância, estrear na F1 com um punhado de corridas realizadas. Seja o que for que aconteça, sucesso ou fracasso, essa precocidade não traz nenhum benefício para uma categoria que se intitula o ápice da profissão de piloto.

Só posso entender essa atitude como uma resposta a pesquisas qualitativas:  a Red Bull deve estar interessada em vender mais de seu produto para a garotada, bem como podem haver outros interesses relativos à audiência que tenham levado os marqueteiros a apoiarem essa “promoção”.

Vez por outra, vemos a FIA empenhada em causas relativas ao motorista urbano, uma forma de se legitimar e se aproximar do dia a dia das pessoas. No entanto, que sinalização a FIA dá ao universo do automóvel, se aceita que um garoto suba num carro de F1 para competir contra os “melhores” pilotos do mundo, sem experiência, sem maturidade e sem “carteira de motorista”?

Recentemente vimos pilotos muito bons serem alijados por razões de ordem iminentemente política. Jaime Alguersuari, Sébastien Buemi, Paul di Resta, e por aí vai. Sinceramente, acho que qualquer um desses merecia uma segunda chance muito antes de se pensar em trazer um menino para correr riscos enormes num meio extremamente exigente.

Pode ser que ele seja um fenômeno? Um Pelé? Pode sim, mas Pelé não acelerava a mais de 300 km/h, cercado de diversos outros bólidos, e tinha de lidar com freadas no limite, toques, escapadas de pista e outros desafios que só a velocidade impõe.

Acho que os pilotos devem lutar para estabelecer um limite de idade para que um piloto ascenda ao ápice das corridas. Há de se ter quilometragem, corridas no seco, no molhado, com pista úmida, com carro ruim, carro bom, tem muita coisa para aprender antes de acelerar um F1.

A ascensão de um garoto tão jovem só faz afirmar a suspeita de que os pilotos de hoje em dia são inferiores aos do passado. Não precisam muito mais do que acelerar, já que o acerto do carro é obtido pelos sensores e engenheiros, pouco cabendo ao piloto.

Sentar e acelerar é coisa que qualquer jovem impulsivo está louco pra fazer.

Enquanto isso…

…a Williams mostra evolução ao conseguir acertar seus carros depois de uma sexta-feira preocupante…

…o trabalho de box melhorou bastante e os pit-stops são prova disso…

…tanto Vergne, quanto Pérez enfrentaram punições, largaram atrás de seus companheiros de equipe e, ainda assim, conseguiram resultados melhores…

…dessa vez, Vettel contou com uma colher de chá dos comissários: ao aceitar que Alonso devolvesse a posição apenas para o alemão, mantiveram a Ferrari como anteparo ao provável ataque de Ricciardo.