Coluna Apex, por Andre Jung: Sinal de alerta

Sou daqueles que sofre entre uma temporada e outra, o longo período sem GPs produz em mim uma espécie de síndrome de abstinência, mas passar a madrugada lutando para se manter acordado diante de uma corrida tão chata não é exatamente o que eu planejava

Não é de agora que se percebe que a F1 está vivendo uma profunda crise. Desde a parte final do campeonato passado, quando os times menores escancaram sua bancarrota, já se previa um 2015 complicado. Mas o que vimos na Austrália é para apavorar quem gosta da categoria.
 
Nós, do Brasil, ainda tivemos o que comemorar: a excelente estreia de Felipe Nasr e o começo de temporada 'limpo' de Massa. Mas, apesar dos Felipes, o espetáculo foi triste. Começar uma temporada sem Fernando Alonso, que por mais de dez anos tem estado entre os protagonistas, já é considerável prejuízo. No entanto, para piorar, as Marussia (agora Manor) nem chegaram a andar; Valtteri Bottas, outro da linha de frente, não alinhou graças a uma lesão nas costas; e ainda tivemos as saídas de Daniil Kvyat e Kevin Magnussen no caminho para o grid.
 
Com apenas duas voltas de corrida, tínhamos 13 carros para se espalhar pela pista durante hora e meia no meio da madrugada. Haja gostar de F1 para aturar uma coisa dessas. Ano passado, as primeiras provas foram sensacionais, e ainda assim os números de audiência caíram; essa queda deve se acentuar.
 
Não sou contra forçar a barra para diminuir essa vantagem da Mercedes — mais um ano de duelo Mercedes x Mercedes pode ser demais. O que me incomoda é dar colher de chá para a Renault, que foi a força maior para que esse regulamento fosse implementado e agora chora para alterar as regras.
 
Sou daqueles que sofre entre uma temporada e outra. O longo período sem GPs produz em mim uma espécie de síndrome de abstinência, mas passar a madrugada lutando para se manter acordado diante de uma corrida tão chata não é exatamente o que eu planejava.
 
Bernie Ecclestone esperneia e está revoltado com esses motores e toda essa coisa de “gerenciamento de consumo”. É verdade que eles não estão ajudando a fazer corridas mais atraentes, custam uma fortuna absurda e sua virtude, em extrair potência com baixo consumo, tem significado zero do ponto de vista do espetáculo.
 
A melhor volta do GP da Austrália anotada por Lewis Hamilton ficou a impressionantes 4s62 da pole-position que ele mesmo marcou, ou seja, durante a corrida, os pilotos andam muito longe do limite dos carros, gerenciando o equipamento ao invés de acelerar. Por isso que um garoto de 17 anos pode aguentar um GP completo com esses carros. Senna, com um físico extremamente preparado, terminava corridas completamente exausto, Max Verstappen não aguentaria dez voltas em um carro daqueles.
 
Há muitos anos ouvimos as reclamações quanto aos altos custos da F1, mas o problema é que a própria categoria padece de uma compulsão por gastar fortunas. Desde que esses motores começaram a ser anunciados, já se sabia que seu custo seria altíssimo, e não me lembro desse assunto ter sido seriamente questionado.
(Ilustração: Marta Oliveira)
Outras medidas mal planejadas produziram os bicos esdrúxulos dos carros de 2014, talvez a mais feia geração de carros de F1 já produzida. A categoria também passa uma imagem arrogante: as equipes constantemente escondem seus carros durante treinos e testes, os pilotos são seres guiados por tantas restrições que suas entrevistas e comportamento não conseguem entusiasmar ninguém, os ingressos são caríssimos e o programa está fraco.
 
De volta à corrida, Hamilton suportou bem a marcação apertada que Rosberg manteve durante toda a prova, sem dar a menor chance ao alemão. Com o duelo, as duas Mercedes sumiram na frente. Massa enfrentou uma Ferrari mais veloz, e acredito que mesmo que não tivesse Ricciardo pela frente ao retornar do primeiro pit-stop, Vettel tomaria sua posição.
 
Embora a Williams continue com uma boa base, o avanço da Ferrari é o grande diferencial dessa temporada. Nesse ritmo, devem se tornar a segunda força no lugar da Red Bull, cada dia mais descontente com a Renault.
 
Nasr fez uma excelente largada partindo da parte suja da pista e manteve um ritmo constante durante toda a prova, fazendo por merecer a valiosa quinta posição. Passou bem pela primeira prova de fogo, mas a F1 é um moedor de carne e ainda falta muito para assegurar uma continuidade nesse ambiente hostil e impiedoso.
 
A McLaren, se a Honda não evoluir rapidamente, pode entrar numa fase muito difícil: ainda não tem o patrocinador máster, que costuma fugir de equipes encrencadas, e os custos de manter essa estrutura e esses pilotos pode quebrar a equipe.
 
Enfim, com várias equipes sem orçamento completo, apenas dois pilotos com chance de título e baixa adesão entre os jovens, não tenho medo de afirmar que a F1 está vivendo a maior crise de sua história.
 
Enquanto isso…
 
…Giedo van Der Garde, piloto medíocre, consegue amealhar uma fortuna de uma equipe quebrada…
 
…o imbróglio bota mais pressão sobre Monisha Kaltenborn, que há tempos vem sendo questionada…
 
…uma trapalhada que vai respingar no desenvolvimento do carro e que pode obrigar Felipe Nasr a se acostumar com o fundo do pelotão…
 
…esse humilde escriba, e a maravilhosa ilustradora dessa coluna completaram 25 anos de união no dia em que a temporada começou.
 

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