F1

Coluna Parabólica, por Rodrigo Mattar: Não somos os melhores do mundo

Somos terra arrasada. Não estamos mais por cima da carne seca, nem no automobilismo, muito menos no futebol. Vamos pensar duas vezes antes de dizer que “Deus é brasileiro”, porque – para piorar – o Papa é argentino e seu antecessor era alemão. Nunca me senti tão envergonhado quanto agora. Todo mundo tripudia do Brasil no esporte. As lições estão aí
Warm Up / RODRIGO MATTAR, do Rio de Janeiro
O dia 8 de julho de 2014 entra para a história do esporte brasileiro. Parecia inconcebível acontecer um desastre. Mas aconteceu: anfitriã da Copa de 2014, a seleção comandada por Felipão conseguiu perpetrar um vexame inominável ao perder por 7 x 1 para a Alemanha, que neste domingo decide o Mundial de Futebol contra os vizinhos da Argentina. Ou seja: mais humilhação, impossível…

Vamos combinar o seguinte: o povo deste país só demonstra o “orgulho de ser brasileiro” na hora da conquista. Na vitória é que é bom: todo mundo canta o hino a plenos pulmões, todos erguem o pavilhão verde e amarelo e assim foi nos cinco títulos do futebol e nos oito da Fórmula 1 – os esportes que mais campeonatos mundiais nos ofertaram. E a realidade, hoje, é dura. Não somos os melhores do mundo. Nem no ludopédio e muito menos no automobilismo.

Enquanto você estiver lendo essa coluna, a Alemanha poderá ter levantado (ou não) sua quarta taça dos Mundiais da FIFA. E não é nem um pouco injusto: eles investiram pesado num plano de desenvolvimento do futebol desde 2000 e os frutos vêm sendo colhidos competição após competição. Foram quatro semifinais consecutivas só em Copas, afora uma final da Eurocopa perdida diante da Espanha.
Maior artilheiro das Copas, Miroslav Klose deixou sua contribuição (Foto: Getty Images)
Não obstante, os clubes estão hoje entre os mais fortes do futebol europeu, graças ao investimento maciço da Deutsche Fussball Bund (DFB) no desenovlvimento dos mesmos desde a base, onde os atletas, desde o infantil, seguem a mesma premissa de jogo que qualquer equipe profissional do país. Fizeram uma final exclusivamente germânica em 2013 e o Borussia Dortmund é, hoje, o que tem a maior média de público do planeta em seus jogos como mandante – mais de 80 mil torcedores por partida. Igualzinho ao Brasil.

Só que não. Aqui, a CBF não está nem aí e pelo visto parece não se importar com o vexame do “Mineirazo”. Quando a palavra de ordem seria reconstrução, os dirigentes do futebol brasileiro, capitaneados pelos abjetos José Maria Marin e Marco Polo Del Nero, querem nos empurrar goela abaixo o retranqueiro Tite como alternativa para a Copa de 2018. Queiram-me desculpar, mas mais um treinador do Rio Grande do Sul é demais para a minha cabeça: Dunga, Felipão, Mano Menezes e agora Tite? Poupem-me!

Preferiu-se a empáfia e a soberba na hora de levar a sério o que poderia ser o hexa. Carlos Alberto Parreira, do alto de 40 anos de experiência no futebol, nunca, em tempo algum, deveria ter aberto um microfone para dizer que “a CBF é o Brasil que deu certo”, “o Brasil está com a mão na taça”, entre outras sandices. Preferiu-se o oba-oba costumeiro, que contaminou a concentração, com intrusos feito Luciano Huck e Ana Maria Braga a interromper, com a anuência da própria entidade e principalmente com a influência de uma poderosa emissora brasileira de televisão, uma preparação malfeita e mal pensada – por sinal, só criticada após o vexame de terça-feira (por que será, hein?). Só podia dar no que vimos em Belo Horizonte.

Em contraponto absoluto, o que dizer da admirável postura dos adversários do Brasil na semifinal? Jamais debocharam de nós. Jamais tripudiaram. Até a comemoração dos gols da Alemanha, inclusive do histórico 16º tento de Miroslav Klose ao bater o recorde de Ronaldo “Fenômeno, foi contida. Nos respeitaram e nos respeitam. Duvido que se fosse o contrário, aconteceria algo semelhante. Fruto de algo que infelizmente o brasileiro em geral não tem: educação.

Ainda ousamos dizer que temos o melhor futebol do mundo mas, me desculpem, não temos mais. O “Mineirazo” nos mostrou isso. Os alemães provaram isso. Alemães que também têm sido brilhantes também no automobilismo.

Não por acaso: com montadoras do calibre de Mercedes-Benz, Audi, Porsche, BMW e Volkswagen, afora a Opel, que já esteve mais envolvida com o esporte, não podia ser diferente. Os construtores germânicos enfileiram um título após o outro, em diferentes campeonatos e modalidades. Sem contar os pilotos, que vêm aos borbotões, graças ao “efeito Schumacher”, que propiciou uma avalanche de conquistas.

Vamos nos ater à F1: são onze títulos alemães e 148 vitórias. Sem contar que, a partir de Schumacher, chegaram na categoria máxima nove pilotos do país – Vettel, claro, está entre eles. E nenhum desses nove pode ser chamado de discutível (ok, Markus Winkelhock talvez o seja), mas a comparação com o Brasil…

O país tem oito títulos e 101 vitórias. São números significativos, mas estamos parados no tempo e no espaço. Após a morte de Senna e do primeiro título de Schumacher na categoria máxima, tivemos mais pilotos, é verdade: 12 no total. Mas título, que é bom…

Nem precisamos dizer qual é o problema, não é mesmo? É o automobilismo ineficiente de consumo interno, com uma CBA cada vez mais pífia e inapetente – a mesma CBA que deixou acontecer a morte do Autódromo de Jacarepaguá, ao acreditar na palavra de gente do calibre de Cesar Maia, Eduardo Paes e Carlos Arthur Nuzman, os grandes vilões do esporte a motor neste país, junto a recente administração da entidade do desporto automobilístico.

Não adianta a CBA soltar release dizendo que “aumentou o número de filiados” se o que temos a cada ano é uma entressafra que chega a níveis extremos. Chegamos ao ponto onde a principal categoria deste país é a Stock Car, que não é propriamente uma formadora de talentos para o exterior – quando muito, para a Endurance e nunca, jamais, para a GP2 Series e posteriormente a F1.

Somos terra arrasada. Não estamos mais por cima da carne seca, nem no automobilismo, muito menos no futebol. Vamos pensar duas vezes antes de dizer que “Deus é brasileiro”, porque – para piorar – o Papa é argentino e seu antecessor era alemão. Nunca me senti tão envergonhado quanto agora. Todo mundo tripudia do Brasil no esporte. As lições estão aí, pelo visto não serão aprendidas porque os dirigentes (principalmente no futebol e no automobilismo) não têm o mínimo de humildade, e a tendência é só piorar.

Vêm aí as Olimpíadas de 2016 – isto, se houver competência e equipamentos para que se realizem, porque, preparem-se, será mais um vexame histórico como anfitriões. Quem viver, verá.