F1

Coluna Warm Up, por Flavio Gomes: Chico

O automobilismo brasileiro está mortinho. Resta a F1. Andam falando até que a Indy está correndo risco para o ano que vem no Anhembi. A coisa está bem feia. Um “novo” Interlagos poderia dar um novo fôlego para todo mundo, você não concorda?
Warm Up / FLAVIO GOMES, de São Paulo
 
Você é o único cara que eu conheço aí na administração do autódromo. A gente se fala com frequência, mas como as coisas na Prefeitura são sempre difíceis, nunca me animei demais em levar o assunto desta adiante (“desta”, meninos, é como a gente se refere à própria carta; desculpa a explicação, Chico, sei que você entendeu, mas a molecada não capta essas sutilezas da escrita). Na verdade, é até meio presunçoso ficar mandando sugestões a alguém tão experiente e importante. E sei também que você não tem autonomia para mexer demais nas coisas que são decididas em outras instâncias. Mas não custa tentar.
 
Vão construir um novo paddock e novos boxes. OK. Apesar de achar que muitas vezes os caras da F1 exageram nas exigências, há argumentos bem sólidos quando se trata de reformar a área de boxes e paddock. De fato, quando tem GP em Interlagos, é um aperto desgraçado. E uma senhora bagunça. Mas posso te garantir que a maioria até curte esse ar retrô que a corrida de São Paulo carrega. De qualquer forma, essas referências do passado dizem cada vez menos a quem é bem mais jovem, e com o passar do tempo o ar retrô não vai comover mais ninguém. A turma quer luxo, espaço, comodidade. Que se faça a obra, então. Pelo orçamento, nem é tanto dinheiro assim. E fica para sempre, tudo bem. Não vou entrar nessa discussão de quanto custa, quem vai pagar, quem deveria pagar. Está decidido, pronto.
 
Mas acho que se é para mexer, por que não pensar grande? Que tal modificar o traçado de Interlagos? Esses autódromos novos, quase todos, têm traçados alternativos. E Interlagos ainda pode ter algo parecido. Basta querer.
 
Não, não estou falando em reativar o circuito antigo. Esse já era. O Sargento morreu. O Sol também. Área de escape no fim do antigo Retão, só se desapropriar o bairro inteiro. Mas lembro de umas ideias e propostas que você mesmo apresentou lá atrás, em 1989, quando se decidiu pela reforma radical que salvou a F1 no Brasil. Acho que tem coisa que pode ser aproveitada. Esse traçado aí já deu. E está curtinho demais.
 
Andei vendo uns desenhos antigos. Sua proposta inicial era bem boa, uma chicane no fim do antigo Retão e tal. Esqueçamos o Retão, porém. Vai virar arquibancada. Pensei numa alternativa para aumentar o traçado e ressuscitar pelo menos um trechinho da pista antiga. Sem muitos transtornos ou obras caríssimas.
 
Acompanhe comigo: peguemos a Reta Oposta, que vai ser a nova Reta dos Boxes, e estiquemo-la um pouquinho em direção ao lago. Não precisa nem aterrar, podemos até colocar carpas e patos na lagoa. Lá na frente, uma curvinha à direita, em aclive, para pegar o fim do antigo Retão. Aí ressuscitamos a Curva 3, sem necessidade de grande área de escape, a Curva 4, descendo para a Ferradura, e depois é só fazer uma variante para a esquerda, retomando a volta no traçado atual, antes do Laranjinha.
 
Não sei quando isso representa de extensão no traçado, estou com preguiça de fazer essa conta. Uns 700, 800 metros? Para chegar perto dos 5 km no total, um pouco mais, talvez? Perdem-se duas curvas, a do Lago e a seguinte, que nem nome tem, nem é bem uma curva, é uma descida e perigosa, diga-se, bateu ali espirra para dentro, dá uma merda federal, e ganham-se seis novas. É uma obra relativamente simples que traz uma outra vantagem: o traçado atual é preservado integralmente, e teríamos dois diferentes para o mesmo autódromo. Grana para fazer? Ora, a Erundina reformou a pista sem gastar um tostão, naquele acordo com a Shell! Parceria com a iniciativa privada, uai. Que tal “vender” os nomes dessas curvas para empresas? Cada uma entra com uma graninha, ninguém gasta muito e pronto. E o asfalto está todo lá, é só recapear. Pista nova mesmo, só as duas pequenas variantes. Fiz um desenhinho tosco. Está anexado a esta (“esta” é a carta, faz-se necessária novamente a explicação).
 
Se eu fosse presidente do mundo, estava resolvido. Não sou, mas pelo menos conheço uns caras como você, que é respeitado e importante. Conheço também os caras que organizam o GP do Brasil. Mas ninguém ouve jornalista, não dão a menor pelota.
 
O automobilismo brasileiro está mortinho. Resta a F1. Andam falando até que a Indy está correndo risco para o ano que vem no Anhembi. A coisa está bem feia. Um “novo” Interlagos poderia dar um novo fôlego para todo mundo, você não concorda?
 
Essa obra nova aí vai ser a maior de Interlagos desde aquela de 1989, que segurou o GP por aqui. Já que vão colocar a mão na massa, que tal aproveitar o momento? Vai que alguém acha legal. O “não” nós já temos. Qualquer coisa que vier é lucro. É que eu acho que se não fizerem agora, não farão mais. E dói ver tantas possibilidades para Interlagos simplesmente ignoradas.
 
Pense nisso. Se precisar um desenhinho melhor, sei quem pode fazer.
 
Abraço, seu Chico Rosa.