Coluna Warm Up, por Flavio Gomes: Dear Jenson

Pois é, rapaz, parece que bem na tua vez cagaram no carro. Não era algo que se esperasse, não é mesmo? Vocês acabaram bem o campeonato no ano passado, era só manter o “momentum”, como vocês dizem, e sem o Hamilton para incomodar, correr para o abraço de novo

Que draga, hein?

Pois é, bonitão, aguenta. A vida é assim: altos e baixos. Muitos baixos, poucos altos. Tiveste seu grande momento, e convenhamos: foi espetacular, aquele carro todo branco com uns riscos de marca-texto porque acho que nem tinta tinha naquela pressa toda para colocar o bicho na pista e ver se ele saía do lugar.

Ô, se saía… Tanto que depois de meia-dúzia de voltas tu chegou pro Rubinho e abriu o maior sorriso que tua boca cheia de dentes era capaz de dar.

E aí foi aquele massacre, aquele espanto, a equipe que por pouco, muito pouco, pouco mesmo quase nem correu começou a ganhar tudo, e foi um pega pra capar, protestos, reclamações, acusações, mas aí Inês was dead, foi só administrar o caminhão de pontos e correr para o abraço.

Então veio a grandona e te levou embora, e muita gente achou que seriam dias dificílimos ao lado do garoto que todos achavam mimado demais, e não foi bem assim. As coisas se encaixaram, ganhaste algumas corridas e o respeito de todos lá dentro, até que o garoto mimado se mandou e ficaste tu, Bonitton, como principal estrela da companhia.

Aí te entregam essa porcaria de carro. Me lembrei, depois de te ver se arrastando na Austrália e lutando feito um doido por um nono lugar, de uma distante tarde gelada no Estoril, quando o Senna fez seu primeiro teste na Williams. Fui para Portugal com grana do meu bolso, achando que seria importante testemunhar o início de uma era que prometia ser de hegemonia jamais vista. Prost, Mansell e Piquet tinham parado de correr, o cara finalmente pegou o carro que queria, não teria adversários, nem mesmo o alemãozinho queixudo que estava aparecendo bem, mas ainda era apenas uma promessa.

Me enfiei nos boxes da Williams para escapar do vento que arrebentava os lábios e fiquei lá num canto com o bloquinho e a caneta na mão, esperando o cara dar as suas primeiras voltas. Foram poucas, e quando ele estacionou o carro, saiu do cockpit, tirou as luvas, o capacete e a balaclava e olhou pra mim com cara de quem tinha comido jiló. Antes mesmo que eu perguntasse qualquer coisa, falou, sem meias-palavras: puta que pariu, bem na minha vez cagaram no carro.

E foi aquilo que todo mundo já sabe.

Pois é, rapaz, parece que bem na tua vez cagaram no carro. Não era algo que se esperasse, não é mesmo? Vocês acabaram bem o campeonato no ano passado, era só manter o “momentum”, como vocês dizem, e sem o Hamilton para incomodar, correr para o abraço de novo.

É, negão, abraço, este ano, só se for da namorada para te consolar — o que também não chega a ser uma perspectiva tenebrosa de temporada.

Que porcaria de carro é esse, meu filho? Não tem com quem reclamar, não? O papa, talvez? Não, não, o papa tem mais com que se preocupar, está chegando agora e não consta que ligue para corridas. No máximo, quando for assinar o pay-per-view no Vaticano, vai ser para assistir aos jogos do San Lorenzo. Esqueça o papa. Talvez aquele cara dos desenhinhos animados do ano passado, o “Professor M”. Lembra dele?

Pois é. “Professor M” é tua última esperança. Isso se ele não foi mandado embora, ainda.

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