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Coluna Warm Up, por Flavio Gomes: María

As pessoas acham perigoso correr de carro. Não é. Não mesmo. Perigoso é ficar parado, porque a vida chega e nos engole, nos enche de dúvidas, angústias, e a gente fica preso e paralisado. Isso sim, é perigoso. Perigoso é fugir da vida a pé. Não é para todo mundo

Warm Up / FLAVIO GOMES, de São Paulo
 
Não te conheci, e você nunca vai ler estas linhas.
 
Não tem importância. Vivemos escrevendo cartas que não serão lidas, faço longas cartas pra ninguém, diz uma canção daqui.
 
Carros. Numa outra canção da mesma cantora, a cantora canta: eu ando pelo mundo, e os automóveis correm, para quê?
 
Os automóveis correm para quê, María?
 
Correm porque somos crianças que não sabem as respostas, María. Somos crianças a vida toda, passamos a vida toda fazendo perguntas, e ninguém nos dá respostas.
 
Então, corremos. Corremos da vida, para que ela não nos alcance. Cheios de medos. E quanto mais rápido, mais difícil de a vida nos alcançar e nos cobrar respostas.
 
É uma metáfora, María. Meio idiota, talvez, penso nessas coisas enquanto escrevo.
 
Os automóveis correm para quê?
 
Eu também corro, não sei se você sabe. Não, é claro que você não sabe, não nos conhecemos. Mas pode ser que isso nos aproxime, de alguma forma. Eu também corro. De carro e da vida. Não leve muito a sério o que estou dizendo, de correr de carro. Corro de vez em quando, só. Você corria sempre, sua vida foi sempre essa, até aquele dia lá, no ano passado.
 
Correr da vida é o que todos fazemos, mas quando é preciso de um carro para correr dela, o carro mais rápido, eu acho que é cada vez mais difícil, María. Você estava correndo sozinha contra ninguém. Então a vida te alcançou e te tirou pedaços. Então você ficou a pé. Então você teve de parar de correr.
 
E correr da vida a pé não é para todo mundo, María. Não quando a gente passou o tempo todo dentro de um carro, fugindo dela, olhando só para a frente, esperando a hora de receber uma bandeirada para olhar para trás e, então, dar uma banana para a vida. Até a próxima, vida. Você não me alcançou hoje. Tente de novo. Te aviso o dia e a hora. Tente de novo.
 
E é para isso que os automóveis correm, para que a gente fuja dessa vida que insiste em nos perseguir despejando perguntas que a gente não sabe responder. A gente tem medo da vida, María. Um carro é um bom meio para escapar dela. Somos crianças, lembra? O mundo é muito assustador. Por favor, nos deem alguma coisa que ande bem rápido para que nada nos alcance.
 
As pessoas acham perigoso correr de carro. Não é. Não mesmo. Perigoso é ficar parado, porque a vida chega e nos engole, nos enche de dúvidas, angústias, e a gente fica preso e paralisado. Isso sim, é perigoso. Perigoso é fugir da vida a pé. Não é para todo mundo. Admiro quem consegue.
 
Eu também corro, María, não sei se você sabe. Não, claro que não sabe, já falei isso. Mas eu sei o que é correr da vida, sei como é quando a gente coloca uma balaclava, um macacão, uma sapatilha, um par de luvas, um capacete, e fecha a viseira para o mundo. Sei como é. Sei como é estar só dentro de um carro, amarrado, parte dele. Me sinto protegido de tudo que está lá fora. Eu e o carro. No meu caso, María, não sei se você sabe, não, você não sabe, um carro velho e lento. Eu tinha um amigo, María, que implicava com ele. Esse amigo me escrevia muito, e sempre terminava dizendo: a luta kontinua, kamarada, continue acelerando, acelere sempre.
 
Aceleramos, María, eu e o carro, na maior velocidade possível, para que a vida não nos alcance e nos deixe em paz. Até o dia em que alcança.
 
Eu acho que hoje você ficou em paz, María.