F1

Coluna Warm Up, por Flavio Gomes: Os 300 de Schumacher

Se correr em 2014, Michael Schumacher se tornará o piloto mais longevo de todos os tempos na F1. Mas ele não está preocupado com as estatísticas. Seu negócio é fazer o que lhe dá prazer
Warm Up / FLAVIO GOMES, de São Paulo

Michael Schumacher completa 300 GPs no próximo dia 2, em Spa. O destino às vezes é caprichoso, mesmo. Foi lá que ele estreou, em 1991, e onde venceu pela primeira vez, em 1992. E é a melhor de todas as pistas, a mais pura, verdadeira e espetacular das que compõem o calendário da F-1. Dono de todos os recordes relevantes da categoria, o alemão, se renovar o contrato com a Mercedes, também vai se tornar, no ano que vem, o piloto com mais GPs disputados na história, desbancando Rubens Barrichello.

Há quem diga que Michael vai continuar só para bater a marca do brasileiro. Me parece um tanto quanto pretensiosa tal afirmação. Para não esticar o assunto, digamos que Schumacher não se importa muito com os recordes, porque já estabeleceu todos aqueles ligados à performance. Muito menos com Barrichello, que durante anos alimentou uma falsa rivalidade com o alemão. Falsa porque se é fato que Rubens o considerava como tal, Michael nunca deu muita bola para companheiro de equipe algum. Pode-se dizer que rival, de verdade, Schumacher considera apenas um: Mika Hakkinen. Teve lá seus momentos contra Damon Hill e Jacques Villeneuve, mas nunca levou os dois muito a sério.

Vez ou outra, Schumacher ainda vive dias de glória, como em Mônaco (Foto: Mercedes)

Essa história de números, é o que Michael sempre falou, é para quando se aposentar e estiver sentado numa poltrona com um álbum de fotos no colo vendo a lenha crepitar na lareira de sua mansão na Suíça — um castelo monstruoso, exagerado e bem cafona, se me permitem a opinião. Como não se aposentou ainda, não creio que esteja preocupado com essa coisa de número de GPs disputados. A bem da verdade, só vi Schumacher dar alguma relevância a uma marca quando igualou as 41 vitórias de Senna, em Monza, na temporada de 2000. Desabou num choro compulsivo na sala de entrevistas coletivas. Naquele ano, conquistou seu primeiro título pela Ferrari. Nem quando chegou ao hexa, superando Fangio, demonstrou alguma emoção especial. Preferiu tomar um porre em Suzuka.

Schumacher parou de correr profissionalmente em 2006, para voltar em 2010 depois de três anos de inquietude. Chegou a disputar corridas de moto e tomou alguns tombos homéricos. Era mais seguro continuar buscar emoções sobre quatro rodas, e por isso topou o convite de seu velho chapa Ross Brawn, à frente da nova equipe oficial da Mercedes.

Não dá para dizer que o retorno foi um sucesso estrondoso. Mas também está longe de ser um fiasco total. Schumacher tem experimentado sensações desconhecidas dos tempos de vacas gordas, como largar no fundão, brigar por posições intermediárias, lutar por algumas migalhas na zona de pontos. Por outro lado, consegue enfrentar de igual para igual pilotos que têm metade de sua idade e de vez em quando brilha intensamente, como ao fazer a pole em Mônaco neste ano — que nem entrou nas estatísticas, porque chegou a Monte Carlo trazendo uma punição da corrida anterior — e ao subir ao pódio em Valência.

Os números, sempre eles, são cruéis quando se compara o Schumacher a.A. ao d.A (“antes da Aposentadoria” e “depois da Aposentadoria”; em maiúsculas para dar um tom solene à bagaça). De 1991 a 2006, foram 250 GPs, com 91 vitórias (36,4% do total de GPs disputados), 68 poles (27,2%), 76 melhores voltas (30,4%), 154 pódios (61,6%), 5.108 voltas na liderança (36,7% das 13.909 percorridas) e 141 GPs liderados em algum momento (56,4%). O período d.A. atingiu na Hungria 49 GPs, e aí dá para resumir os números a uma melhor volta, um pódio e três míseras voltas na liderança, das 2.437 que completou a bordo do carro prateado da Mercedes.

Diante do que já fez, é pouco, claro. Óbvio que há que se considerar a equipe, cujos números globais não são muito mais impressionantes. Nico Rosberg, seu companheiro desde o início, venceu um GP, fez uma pole, uma melhor volta e subiu ao pódio cinco vezes. Somou nesses dois anos e meio 308 pontos, contra 177 do veterano parceiro. Não chega a ser um massacre. Tem sido melhor, na média, mas nada assombroso.

Estes três anos de Mercedes, quando vistos pela fria ótica das estatísticas, têm feito mal ao currículo schumaqueriano, termo cunhado neste exato instante, já em sua grafia teuto-portuguesa. Mas e daí? Apagam tudo que ele fez durante o longo período de hegemonia que impôs à F-1, mantendo-se no auge da competitividade por incríveis 15 anos?

Evidente que não. Schumacher não está preocupado em engordar as estatísticas. Seu negócio é fazer o que lhe dá prazer. E fazer bem, tão bem quanto é possível fazer aos 43 anos de idade, com o carro que tem. O Schumacher de hoje não tem de ser comparado a o Schumacher a.A., nem com nenhum piloto com quem tem dividido o grid desde 2010. Se algum de seus atuais colegas chegar aos 43 anos fazendo coisa melhor, aí sim cobrem do alemão. E duvido que algum deles chegue tão longe.