Coluna Warm Up, por Flavio Gomes: Prezado sr. Wilson

Quem diria, sr. Wilson, que o senhor era um pândego? Um moleque que não sossegava enquanto os vetustos locutores não se desmontavam em gargalhadas ao ler notícias sérias, deixando-os apavorados com as broncas do diretor da rádio, que jurava mandar todos embora se aquela palhaçada se repetisse?


Não o conheci direito, sr. Wilson. Apenas em uma ou outra ocasião, dessas em que se encontram velhos pilotos, velhos jornalistas, velhos amigos, creio que trocamos um aperto de mão. Sempre fiquei meio intimidado diante de certas pessoas importantes demais.

Mas ouvi falar muito do senhor. Não sobre seu papel na história do automobilismo brasileiro. Esse é por demais conhecido, embora talvez pouco reconhecido, entre outras coisas porque noto, nos mais jovens, uma certa resistência em querer saber do passado, seja ele distante, ou recente.

Assim, sr. Wilson, falar com um jovem sobre algo que aconteceu em 1949 parece não despertar grande curiosidade ou atenção. Contar que o senhor foi à Itália para transmitir pelo rádio uma corrida de carros, e que não sabia sequer se o som tinha chegado no Brasil, não comove os mais novos. Como assim, não sabia se o som tinha chegado? Não mandaram um e-mail para ele, ou uma mensagem pelo Whatsapp na hora? Não, explico. Mandaram um telegrama para o hotel, e bem depois. Um telegrama? O que é um telegrama?, perguntam. Uma espécie de SMS, só que chega no papel. Ah, esqueçam.

Bem, o som chegou e os ouvintes ouviram. Até mesmo falar em rádio parece algo meio despropositado a esses jovens, pobres jovens. Dava para ouvir no iPhone?, perguntam. Não, não dava. Ah, esqueçam.

Deixemos o automobilismo de lado, sua transmissão do GP de Bari por causa de Chico Landi, deixemos de lado a criação das Mil Milhas, a viagem de Vemaguet para o Rio Grande do Sul para convidar pessoalmente os gaúchos e suas carreteiras, as dezenas de provas de longa duração que o senhor inventou e transmitiu pela rádio Panamericana, a fundação da CBA, o esforço para convencer patrocinadores de que aquele esporte valia a pena, deixemos de lado até o fato de nos ter presenteado, o senhor e dona Juzy, com Emerson e Wilsinho, e tudo aquilo que os dois representaram para os malucos por corridas neste vasto bananal — dois títulos mundiais de F-1, um de Indy, duas vitórias nas 500 Milhas de Indianápolis e uma equipe brasileira na principal categoria do planeta, para ficar apenas no que é mais sabido por gentes de todos os cantos.

Fiquemos com suas histórias do rádio, sr. Wilson, aquelas que por anos ouvi de seus colegas Franco Netto, Antonio Freitas e Cyro César, com quem dividi a mesma bancada na avenida Paulista diante dos microfones da gloriosa rádio Jovem Pan.

Quem diria, sr. Wilson, que o senhor era um pândego? Um moleque que não sossegava enquanto os vetustos locutores não se desmontavam em gargalhadas ao ler notícias sérias, deixando-os apavorados com as broncas do diretor da rádio, que jurava mandar todos embora se aquela palhaçada se repetisse?

E se repetia dia após dia, como a hora certa, “repita”, e quem diria que o senhor, tão sério e austero no “Jornal da Tosse” da Record, era capaz de tantas traquinagens debaixo desses cabelos brancos e atrás de seu vasto bigode?

Pois era, e por anos me diverti ouvindo suas histórias, como aquela de mostrar o bumbum pela janela de um Fusca descendo a rua Augusta no meio da tarde para desespero do motorista, ou pegar o microfone na frente dos locutores e fingir que ia soltar um pum, e eles se segurando para não morrerem de rir.

E teve aquela, também, com seu colega Antonio Del Fiol, uma das maiores vozes da história do rádio, a voz do Mappin, do Pão de Açúcar, do Jumbo Eletro, que um belo dia conseguiu um anunciante para a rádio, uma revenda Chevrolet, mas quem iria ler o texto era o senhor. E o Del Fiol pediu, implorou, para que o senhor não fizesse nenhuma brincadeira, porque era um bom dinheiro da comissão, um anunciante importante, e o senhor disse a ele que não se preocupasse, que não faria nunca aquilo com um amigo, era quase uma ofensa imaginar que seria capaz de brincar com coisa séria.

E veio o momento de ler o texto, o senhor empostou a voz, como sempre fazia, Del Fiol nem piscava, e lá veio o reclame: “Chegou a nova linha Chevrolet 75 na Disbrasa, a sua revenda General Motors. Além do Opala e do Chevette, sucessos de público, o caro ouvinte tem agora à sua disposição a nova Caravan e o luxuoso Comodoro, disponíveis nas cores Azul Mediterrâneo, Dourado Asteca, Preto Formal…” A essa altura, Del Fiol já respirava aliviado, o senhor tinha cumprido a palavra, não fizera nenhuma brincadeira de mau-gosto que poderia estragar o negócio, o texto estava chegando ao fim, e o senhor prosseguiu: “…Verde Samambaia, Marrom Outono e…” Aí o senhor fez uma pausa, daquelas quase imperceptíveis, ergueu os olhinhos brilhantes e sacanas para Del Fiol, deu um sorrisinho maroto, também quase imperceptível, e concluiu, embaralhando as palavras, com uma dicção abominável: “E Vermelho Menstrual!”.

Del Fiol quase morreu, a amizade quase acabou, ficaram dias sem se falar, mas nada aconteceu, a revenda Chevrolet não notou, ou se notou achou que tinha entendido errado, onde já se viu alguém como o Barão brincar com coisa séria.

Brincava, como brincava. O sr. era um brincalhão, sr. Wilson.

Fique bem, um abraço.

 

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