Com carro inguiável, Ferrari esquece Vettel e depende de Leclerc para evitar vexame

Enquanto Charles Leclerc abriu 2020 fazendo milagre após um raro acerto de estratégia, Sebastian Vettel sofreu com uma SF1000 impraticável. Mesmo com o resultado inesperado do monegasco, a equipe se vê submersa na Fórmula 1 B e deixa Mattia Binotto na marca do pênalti

“Não estou tão otimista neste ano como estava no ano passado. Há outras equipes mais rápidas que nós neste momento, eu acredito”. A frase que abre o texto foi proferida por Mattia Binotto no fim da primeira sessão de pré-temporada, em Barcelona, no já distante mês de fevereiro. Houve quem pudesse imaginar que tal fala representasse um blefe por parte da escuderia de Maranello, contrastando com os testes de inverno do ano passado, quando a Ferrari foi o grande destaque das atividades na Catalunha.

Enquanto a Mercedes causava furor com seu DAS, a Red Bull mostrava consistência e confiabilidade e a Racing Point espantava com a ‘Mercedes rosa’, a Ferrari já desfraldava seu rosário de lamentos no começo do ano. Ciente de que a SF1000 havia nascido mal, a equipe já projetava um carro completamente revisado para o início da temporada europeia, entre os GPs da Holanda e da Espanha, outrora previstos para maio.

Veio a pandemia, a frustrada viagem para a Austrália e a paralisação dos trabalhos por tempo indeterminado. A determinação da FIA (Federação Internacional de Automobilismo) de conceder férias obrigatórias de 63 dias para as equipes e de 49 para as fornecedoras de motor impediu qualquer trabalho mais amplo, mesmo com todo o poderio financeiro da Ferrari, para desenvolver grandes atualizações antes do começo de fato do campeonato.

Sebastian Vettel
Sebastian Vettel soube por telefone que não vai seguir na Ferrari (Foto: Scuderia Ferrari)

Neste período, em maio, a equipe tomou a decisão de não renovar com Sebastian Vettel, que depois revelou ter tomado conhecimento da sua saída por telefone, e do anúncio da contratação de Carlos Sainz Jr. para seu lugar no ano que vem.

Antes do embarque para a Áustria, os discursos prévios de um prestigiado Leclerc, do demissionário Vettel e do contestado Binotto foram praticamente os mesmos: a expectativa para o primeiro fim de semana de uma temporada incomum era a pior possível.

“Vai ser um começo difícil para nós. O carro vai ser o mesmo que levamos para a Austrália porque, desde então, houve o fechamento obrigatório das fábricas. Os testes de inverno não foram bons o bastante”, salientou Binotto em entrevista ao jornal italiano La Stampa.

A confirmação do desastre

Geralmente, pelo menos tem sido assim nos últimos anos, a Fórmula 1 abre a temporada no circuito Albert Park, na Austrália, que não costuma oferecer referências reais da ordem de forças de cada equipe. O cenário tão distinto de 2020, com o início do campeonato em uma pista de verdade, o Red Bull Ring, não somente confirmou as expectativas pessimistas de Maranello como escancarou as deficiências não somente do carro vermelho, mas da unidade de potência, que é fornecida também para as clientes Haas e Alfa Romeo.

Sebastian Vettel na nona volta do GP da Áustria. O sofrimento ao guiar a Ferrari SF1000 é nítido (Vídeo: Reprodução)

Desde o começo do fim de semana do GP da Áustria, a Ferrari apresentou um desempenho desastroso. Leclerc foi somente o décimo colocado no primeiro treino livre e tomou 1s108 da Mercedes de Lewis Hamilton, o líder da sessão. Sebastian Vettel foi ainda pior e fechou em 12º. Entre a melhor Ferrari e o carro mais rápido da manhã estavam as Red Bull de Max Verstappen e Alexander Albon, as McLaren de Carlos Sainz e Lando Norris, a Racing Point de Sergio Pérez, a Renault de Daniel Ricciardo e até a Haas de Kevin Magnussen.

O segundo treino da sexta-feira deu a falsa impressão de que o pior havia passado, com Vettel completando com o quarto melhor tempo, atrás de Hamilton, Valtteri Bottas e Pérez e distante 0s657 da melhor marca do dia. Leclerc, bem mais atrás, foi o nono, com quase 1s de déficit para o tempo obtido pela Mercedes #44 de Lewis.

Mas o sábado revelou em cores vivas o quão ruim é a Ferrari em 2020. Depois de um razoável Q1, que teve os 19 primeiros colocados separados por somente 1s2, a segunda parte da sessão classificatória foi desastrosa para a equipe italiana. Leclerc conseguiu a última vaga para a fase final da definição do grid, mas Vettel foi eliminado depois de ter ficado 1s191 atrás do tempo de Bottas, o mais rápido do Q2. No Q3, o monegasco não passou do sétimo lugar, 0s984 do tempo do finlandês da Mercedes, dono da pole, e atrás também de Hamilton, Verstappen, Norris, Albon e Pérez.

Lado a lado, o carro mais estável de Leclerc e a SF1000 torta de Vettel (Vídeo: Reprodução)

Se em 2019 a Ferrari festejava, com Leclerc, não apenas a pole-position do GP da Áustria, mas também o novo recorde do Red Bull Ring, no último sábado o momento foi de buscar explicações para desempenho tão pífio. Como compreender uma queda tão brusca de performance, de 0s920, de um ano para o outro?

Não é coincidência que as outras duas equipes que contam com motor Ferrari, Haas e Alfa Romeo, também registraram déficit de performance considerável na comparação com 2019. A escuderia norte-americana, que festejou a ida ao Q3 com Kevin Magnussen no ano passado, despencou 0s6. A Alfa Romeo, que foi à fase final da classificação 12 meses atrás com Kimi Räikkönen e Antonio Giovinazzi, perdeu ainda mais: 1s119. Um abismo.

Estava claro que o novo motor construído em Maranello era grande parte do problema, ainda mais em um circuito que exige tanto da potência com seus três trechos de reta.

Leclerc, Vettel e Binotto já jogaram a toalha no sábado mesmo. O monegasco, melhor colocado no grid, não acreditava nem nas forças divinas para se dar bem. Sem esperanças tampouco para o GP da Estíria, a Ferrari já começava a pensar em dias melhores só para Hungaroring.

A corrida mostrou as duas faces da mais tradicional equipe do grid. Leclerc mais combativo e Vettel sofrendo com um carro desequilibrado e inguiável para acompanhar o ritmo de Lance Stroll. Com enorme dificuldade para pilotar, o tetracampeão só deixou o bilionário canadense para trás depois que a ‘Mercedes rosa’ #18 apresentou problemas. Ao tentar passar Carlos Sainz, Seb errou o ponto de frenagem, acertou a McLaren do espanhol e despencou na corrida, caindo para 15º.

Leclerc tinha o carro mais estável, mas não era capaz de lutar em condições reais com a Racing Point de Pérez e a McLaren de Norris. Foi aí que a Ferrari deu o pulo do gato e, depois de tantos erros de estratégia no ano passado, acertou desta vez. Com a segunda intervenção do safety-car, acionado após o abandono de George Russell, a equipe aproveitou para chamar o carro #16 para colocar pneus médios novos e ir até o fim da corrida. A Racing Point cochilou e preferiu manter Pérez na pista.

Charles Leclerc
Charles Leclerc e o milagre do pódio na Áustria (Foto: Scuderia Ferrari)

Foi aí que Leclerc ganhou terreno e fez do fim do GP da Áustria o seu milagre. Deixou Norris e Pérez para trás e, com a punição de 5s imposta a Hamilton pelo incidente com Alexander Albon, garantiu um impensável segundo lugar com gosto de vitória no Red Bull Ring. Se serve de consolo para Vettel, o décimo lugar lhe rendeu ainda o último ponto em jogo, mas terminar atrás de um apagadíssimo Esteban Ocon e até de Giovinazzi diz muito sobre o que foi a corrida do alemão. Um desastre.

Enquanto pressiona e coloca Binotto na marca do pênalti e corre contra o tempo para antecipar para o fim de semana do GP da Estíria as atualizações previstas só para a semana que vem em Budapeste, a Ferrari viu no Red Bull Ring que depende só de Leclerc para evitar um vexame ainda maior em 2020. Melancolicamente, Vettel, com o caminho da rua no horizonte, parece esquecido pela equipe que lhe estendeu tapete vermelho e apostou nele como o sucessor do legado de Michael Schumacher há cinco anos.

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