F1

Conta-giro: Michelin volta a rondar F1 justamente dez anos depois de deixar GP dos EUA com apenas seis carros

Já faz uma década que a F1 viu a corrida com menos participantes em sua história. Um problema de pressão nos pneus Michelin trouxe à tona politicagem, traição e o início da derrocada da fabricante francesa. A mesma que, agora, torna a ter interesse na categoria e se inscreveu para tentar tirar o lugar da Pirelli a partir de 2017
Warm Up / VICTOR MARTINS, de São Paulo
 Schumacher, Barrichello e Monteiro foram ao pódio no GP dos EUA de 2005 (Foto: Getty Images)
A F1 tem episódios marcantes dos anos 2000 para cá. Cada um com suas causas e circunstâncias, nada foi tão forte quanto o ‘Dia da Vergonha’ em 2002, com a Ferrari ordenando o eventual vencedor Rubens Barrichello dar a vitória a Michael Schumacher e ruborizada face às vaias do público que foi à mesma Spielberg que neste fim de semana recebe a oitava etapa do Mundial. Mas tão lembrado quanto foi o que aconteceu há exatos dez anos em Indianápolis, tendo como protagonista – ou antagonista – a Michelin que agora quer voltar à categoria, mas que na época se viu meio que obrigada a pensar em sair.
 
A história tem nuances que envolvem não só a política então comandada por Max Mosley na FIA, mas até mesmo a Indy. A falta de segurança dos pneus franceses ao contornar a curva 1 no sentido oposto levou às sete equipes parceiras a se retirarem da corrida, incluindo o pole, Jarno Trulli, da Toyota. A equipe, aliás, sabia bem as consequências que um estouro de pneu poderia causar: Ralf Schumacher estampou o carro alvirrubro no muro e foi impedido de correr, sendo substituído por Ricardo Zonta. Assim, só as escuderias calçadas pelos Bridgestone – Ferrari, Jordan e Minardi – participaram da prova.
 
A única vitória de Michael Schumacher naquele ano, a fechada que deu em Rubens Barrichello ao sair dos boxes, o pódio de Tiago Monteiro, tudo isso era café pequeno. Eram seis carros. Eram muitas vaias. Era, também, o começo do fim da presença do Speedway no calendário da F1.
Só seis carros largaram em Indianápolis há dez anos (Foto: Getty Images)
 
O GP dos EUA era o nono da temporada 2005, fechando a dobradinha com o Canadá. Mas é relevante apontar que se deu três semanas depois das 500 Milhas de Indianápolis, que tiveram vitória de Dan Wheldon. Para aquela corrida, Tony George, dono do autódromo e comandante da IRL, resolveu reasfaltar todo o oval para comemorar os dez anos de sua péssima aventura dissidente. O piche era muito mais abrasivo e obrigou um novo composto da Firestone. Reserve.
 
A F1 vivia tempos em que não se podia trocar de pneu em meio à guerra entre Bridgestone e Michelin. As fornecedoras podiam, entretanto, prover os compostos que bem entendessem. Era ponto pacífico que o grupo francês tinha produtos melhores que o dos japoneses, não à toa detinham 70% do grid – como a Renault de Fernando Alonso e a McLaren de Kimi Räikkönen. Logo vieram os primeiros treinos. E com eles, os primeiros estouros; o do Schumacher menor aconteceu no TL2. Ralf já havia visto o muro de perto no ano anterior, quando era piloto da Williams. O diretor-médico Sid Watkins vetou sua participação no resto do fim de semana.
 
A questão levantou as orelhas de Bibendum. Os diretores Pierre Dupasquier e Nick Shorrock informaram que estavam investigando as causas daquela explosão. O mundo falava que a sanha competitiva fez a Michelin exagerar. Mas a verdade é que a Bridgestone fora muito mais cautelosa porque havia recebido os dados de sua parceira de grupo Firestone. 
 
Depois de bater cabeça, a Michelin descobriu que o contorno do curvão em pé embaixo ocasionava uma pressão acima do que seu pneu podia suportar. Dava oito ou dez voltas, o perigo de repetir o que aconteceu com Ralf era iminente. A fabricante pensou em pedir que sua base em Clermont-Ferrand mandasse os jogos usados no GP da Espanha, mas a configuração também era arriscada, além de ser uma brecha no regulamento que deveria ser levada em conta pelos comissários.
 
A solução encontrada foi uma redução de velocidade no curvão – naturalmente apontada por Charlie Whiting, da FIA. Em reunião, as equipes parceiras sugeriram que fosse colocada uma chicane, mas seria necessária a aprovação unânime. A entidade máxima do automobilismo respondeu que a opção estava “fora de cogitação” porque tornaria a prova inválida para o campeonato em virtude da alteração do traçado. Para Whiting, a proposta era “extremamente injusta” para as aliadas da Bridgestone.
 
Precisou que a nanica Minardi, comandada por Paul Stoddart, tentasse uma solução. Na manhã de domingo, o dirigente expediu um comunicado em que chamava todas as equipes, os representantes das duas fornecedoras, George e Bernie Ecclestone para uma reunião de emergência. Jean Todt, então chefe da Ferrari, foi o único a ignorá-la. No encontro, ficou claro que a Michelin não tinha mais o que fazer a não ser recomendar uma diminuição da velocidade naquele trecho e que não deveria considerar uma ideia surgida de última hora, parar a cada dez voltas, nos pits. A chicane, segundo Stoddart, era a única opção viável e representaria também os desejos de seu time e da Jordan. E como a FIA era contra a normativa, todos os seus representantes seriam substituídos por membros que não fossem da entidade. Tudo estava sendo feito para salvar a corrida.
 
Pouco tempo depois, uma segunda reunião juntou os chefes para ouvir Max Mosley. O presidente da FIA usou seu representante na América para informar que, se a corrida acontecesse fora do regulamento, não só o GP como todas as provas disputadas sob tutela da federação estariam ameaçadas. 
 
À beira do desespero, fez-se uma união: as sete parceiras da Michelin mais Jordan e Minardi combinaram de que não participariam da prova, deixando para que as Ferrari alinhassem sozinhos no grid. Mas nos bastidores, ninguém sabia exatamente o que fazer. A marca francesa aconselhou que seus carros não corressem, só que havia quem cogitasse participar para tentar buscar os pontos do terceiro lugar em diante. 
 
Como de praxe, meia hora antes da largada, todos partiram para a pista. O procedimento foi seguido à risca. A volta de apresentação e aquecimento de pneus foi dada. Os 14 carros da Michelin acabaram se encaminhando para os boxes; as nanicas deram para trás e foram para a corrida.
Os carros da Michelin se recolheram após a volta de apresentação (Foto: Getty Images)
“Mosley se recusou a aceitar qualquer uma das soluções oferecidas, e a recusa, acho, teve motivos políticos. Para mim, não há dúvida de que o problema em Indianápolis foi responsabilidade do presidente da FIA e apoiado pela ausência de apoio de Jean Todt”, bradou na sequência Stoddart, pedindo a renúncia do mandatário da entidade do automobilismo. 
 
Vexame maior para Mosley ainda estaria por vir: a devassa em sua vida pessoal que trouxe à tona a participação em orgias sadomasoquistas, isso no começo de 2008. O veterano acabou não concorrendo para mais uma reeleição e deixou o comando da FIA só em 2009. Quanto à Michelin, o episódio havia lhe arranhado demais. Seis meses após o episódio de Indianápolis, a fornecedora anunciou que deixaria a F1, cumprindo seu contrato por mais uma temporada. A entidade aproveitou o ensejo para acabar com a batalha entre fabricantes de pneus, deixando a Bridgestone como reinante. 

Não deixa de ser curioso que a Michelin volte a demonstrar interesse na F1 dez anos depois o fato. A fabricante se inscreveu no processo aberto pela FIA para escolher quem é que vai rodar os carros a partir de 2017. É total intenção da Michelin aumentar o tamanho dos pneus, levando-os a 18" e deixando-os mais largos, além de torná-los mais duradouros. Na categoria pasteurizada cujas regras são bem sabidas e quase nunca bem digeridas, as condições que a fornecedora propõe soam como um acinte. Até porque todos sabem o que ela fez na década passada.