Da abertura política ao Plano Real, das derrotas à Copa do Mundo: o Brasil perfeito para Senna em 1994

É claro que foi apenas um piloto de carros de corrida, mas aqueles anos de gritos presos na garganta e derrotas em diferentes esferas da sociedade fizeram com que muita gente despejasse as expectativas numa figura que vencia e se esforçava para falar o que o maior número de pessoas possível gostaria de ouvir

Por que Ayrton Senna se tornou ídolo de tanta gente e continua uma figura quase messiânica no Brasil de 25 anos depois? É uma pergunta que tem resposta dividida em três atos. Uma delas, a mais óbvia, é a pista; outra, também um tanto quanto evidente, é que Senna e aqueles que cuidavam de sua carreira tentaram com afinco, fosse em suas declarações ou na blindagem geral. Ele queria ser ídolo quase tanto quanto queria ganhar corridas. A última, e é dela que falamos aqui, é o contexto geral do Brasil do fim dos anos 1980 e começo dos anos 1990. Senna soube se lançar como ninguém a um nicho aberto de ídolos e vitórias daquele período. É por isso que o tempo passou, mas as gerações posteriores às assim apelidadas "inesquecíveis manhãs de domingo" seguem ligando Ayrton a um símbolo nacional.

 
O fim da ditadura militar – e, caso alguém nutra a dúvida, sim, houve aqui uma ditadura repulsiva e corrupta – e a eleição do primeiro governo civil em mais de 20 anos representou o começo da expectativa de que a imensa desigualdade social no Brasil, impulsionado aos céus durante aquele período de repressão. A morte de Tancredo, em 1985, foi um baque: e lá estava Senna para vencer pela primeira vez uma corrida na Fórmula 1. Nelson Piquet ainda era o grande piloto brasileiro, claro, mas Senna começava a mostrar seu brilhantismo unido à agressividade na pista.
Protestos pelos eleições diretas (Foto: Hélio Nunes/O Popular/Reprodução)

Senna gostava de falar, dizia que os sonhos podiam se tornar reais, exaltava a religiosidade a todo o tempo, escolhia meticulosamente o que dizer para apelar mais ao público na frente das câmeras. Quando estava nas pistas, era a Seleção de 1982 – outro grupo um tanto quanto messiânico – que foi ao auge. Tinha a agressividade, o jogo bonito que marcou aquele time de futebol, mas não acabava derrotado pelo 'futebol força' daqueles que encontrava pela frente.

 
A política se mostrou um problema contínuo naqueles primeiros anos de reabertura. Os planos econômicos que deveriam salvar a arruinada economia brasileira fracassaram de maneira retumbante. Após José Sarney e o calote da dívida externa que manchou o nome do Brasil na praça, o primeiro presidente eleito nas urnas, Fernando Collor de Mello, teve um mandato desastroso encerrado com chave de ouro pelo confisco das poupanças. Ruim para os mais pobres, para a classe média, todos.

O futebol, por sua vez, perdia. O time lindo de 1982, derrotado, e depois novamente em 1986. Depois, em 1990, um time muito mais duro e igualmente derrotado cedo demais na Copa do Mundo.

O que restava era Senna, abocanhando títulos, comprando brigas com europeus e atacando nas pistas. O homem que não podia errar, que entregava a resposta ao Brasil sobre o que poderia dar certo neste país. Em momento de sátiras, de uma nova geração de comediantes que ganhava o direito de usar das mais importantes plataformas midiáticas para zombar de quem quer que fosse, Ayrton estava do outro lado do espectro, glorioso e invencível mesmo quando era superado.

Em 1988, Ayrton Senna conquistou o primeiro de seus três títulos (Foto: Getty Images)

O Brasil havia recentemente encontrado o vôlei como motivo de orgulho, o Plano Real seria o primeiro acerto econômico de larga escala – que, obviamente, poderia ser medido anos depois – e a seleção de futebol voltaria a ganhar. Muita coisa aconteceu em 1994, também a morte de Dener, dias antes de Ayrton, mas por mais que o sucesso se apresentasse, por mais que os motivos para celebrar começassem a pipocar, não havia como apagar o que Senna representara naqueles anos de orfandade de gritos.

Senna significa o que significa há tanto tempo porque foi perfeito para o momento em que ascendeu e brilhou. 
 

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