Demissão dupla é decisão certa, mas deixa Haas refém da Ferrari e de dinheiro russo

Já é mais do que hora de a Haas buscar novos pilotos, só que a demissão de Romain Grosjean e Kevin Magnussen cria panorama interessante: a escuderia americana agora tem como favoritos às vagas pilotos apadrinhados ou endinheirados

A Haas entrou na Fórmula 1 com alguma dose de autonomia. É verdade que a equipe sempre precisou da ajuda de Ferrari e Dallara para confeccionar peças, mas Gene Haas e Guenther Steiner ainda eram donos de seus destinos. Isso ficou claro pela dupla, que passou quatro anos formada por pilotos sem padrinhos e contas bancárias particularmente recheadas. Só que esses dias parecem ter acabado: a decisão de se livrar de Romain Grosjean e Kevin Magnussen abre caminho para um modelo de gestão bem diferente na escuderia americana.

É que Grosjean e Magnussen sempre foram nomes de confiança. Nunca houve pressão da Ferrari ou questão financeira por trás. Os dois se desvalorizaram de 2019 para cá, mas foram contratados como nomes bons e baratos. Em certa medida, fizeram bom trabalho – o problema maior da Haas parece ser o motor do que as alegadas barbeiragens dos pilotos. Com os dois chutados, o dono Gene Haas sinaliza que é hora de trazer alguém que possa oferecer algo além de apenas atuações decentes.

Isso fica claro quando olhamos os candidatos à vaga na Haas. Três nomes são apoiados pela Ferrari: Mick Schumacher, Robert Shwartzman e Callum Ilott. Um tem um pai com 2,7 vezes mais dinheiro que Lawrence Stroll: Nikita Mazepin. Até Sergio Pérez, certamente mais capacitado que esses todos, traz consigo o apoio de Carlos Slim.

Kevin Magnussen e Romain Grosjean se despedem da Haas (Foto: Haas)

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O sinal é claro. Um Nico Hülkenberg da vida, que tem a oferecer ‘só’ um currículo vistoso, não vai receber muita atenção na luta pela vaga. Fosse diferente, provavelmente Magnussen ou Grosjean, um deles, seria mantido.

Você pode se perguntar como chegamos a esse ponto. O motivo é simples: coronavírus e uma crescente incerteza de Gene Haas a respeito de manter a escuderia. O americano começou o ano já dizendo que, caso o projeto não andasse para a frente, 2020 podia muito bem ser o último ano de operações. Isso é ainda mais verdade com a pandemia e uma emergente crise global. A Haas decidiu assinar o Pacto da Concórdia e se comprometeu a seguir na F1 até 2025, mas essa postura virá com um preço a ser pago.

Não é difícil imaginar um futuro em que a Haas seja operada como uma equipe júnior da Ferrari, seguindo os moldes da AlphaTauri, ou como o jardim de infância de um moleque bilionário, seguindo a Racing Point. É muito diferente do projeto inicial, lá de 2016.

Só que ainda não se sabe exatamente como as duas novas vagas serão distribuídas. Um favorito claro é Mazepin, que evoluiu e faz temporada honesta na F2, onde é sexto colocado. O dinheiro da família seria muito bem-vindo na equipe com estrutura mais modesta no grid. Além disso, há potencial para se tornar pelo menos um piloto médio de respeito, aos moldes do que Lance Stroll faz hoje.

A outra vaga vai depender de uma série de fatores, mas provavelmente será destinada a um indicado pela Ferrari. A escuderia vai mal nas pistas, mas formou três grandes pilotos que pedem passagem para a Fórmula 1. Salvo reviravolta, pelo menos um vai para a Alfa Romeo e outro vai para a Haas. É difícil saber mais do que isso.

NIKITA MAZEPIN; FÓRMULA 2;
Nikita Mazepin tenta um lugar na F1 em 2021 (Foto: ART Grand Prix)

Schumacher é o mais próximo de ter alguma garantia quando o assunto é F1 em 2021. Resta saber: será através da Alfa Romeo ou da Haas? A primeira opção é a mais provável, formando uma dupla com o interminável Kimi Räikkönen. Nesse cenário, a vaga na equipe americana passa a ser disputada por Ilott e Shwartzman. E os dois têm bons argumentos para merecer a F1.

Ilott luta pelo título e está no mesmo patamar de Schumacher. Se um merece vaga, o outro merece também. Shwartzman é mais inconstante e passa por má fase, mas com um porém: seu ano de estreia é muito mais empolgante que os de Callum e Mick em 2019.

Qualquer que seja a escolha, a Haas fica em uma posição que pode ser delicada. A última vez que uma equipe disputou uma temporada apenas com pilotos novatos foi a Manor em 2016, com Pascal Wehrlein primeiro acompanhado de Rio Haryanto e depois de Esteban Ocon. Não é por acaso: ter uma dupla sem experiência alguma é indesejável e quase sempre é uma bomba que estoura no colo de uma equipe menor. Quem acha que Magnussen e Grosjean erram muito deve se preparar para algo pior no futuro.

Por outro lado, ter dois pilotos jovens permite à Haas um planejamento de longo prazo. Não fazia mais sentido seguir martelando com Magnussen e Grosjean, já fora da validade. 2021 vai marcar um recomeço. Só que agora com nova filosofia e novas coordenadas.

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