F1

Do shoey ao estrelato: Ana Luiza Kalil emociona Ricciardo, F1 e o mundo em meio à corrida pela vida

Quem é Ana Luiza Kalil? Aqueles que acompanharam o noticiário da TV e a atividade da internet de órgãos de imprensa, pilotos e equipes conhecem a mineira, de 29 anos, que ganhou o mundo com o shoey que fez Daniel Ricciardo se emocionar. Ao GRANDE PRÊMIO, Ana Luiza conta a história de sua vida, diagnóstico de um raro câncer nos ossos e da ligação com a F1 e o piloto australiano
Warm Up / PEDRO HENRIQUE MARUM, do Rio de Janeiro
 Ana Luiza no shoey da vitória (Foto: Reprodução)
Se você acompanha esporte a motor no Brasil, seja na TV ou a internet, você ouviu um pouco da história de Ana Luiza Kalil na última semana. É quase impossível que ao menos o nome dela tenha escapado à sua atenção. O 2018 de Ana foi doloroso e mudou tudo na vida da mineira de 29 anos. E no fim, também fez dela uma estrela da internet e alguém que pulou de influenciada por um piloto de quem é fã para um símbolo de luta. Essa é a história de Ana.
 
Antes de chegar à semana anterior ao GP de Abu Dhabi de 2018, quando ela ficou famosa, antes mesmo da notícia que mudou sua vida, voltemos aos anos 1990. Ana era uma criança quando deu os primeiros passos para conhecer a F1, influenciada pelo pai. “Comecei a gostar por causa dele. Eu acompanhava mais a F1 junto, mas ele acompanhava várias categorias no automobilismo. E isso desde que eu me lembro.”
 
O nome diferente ou o cabelo amarelo, alguma dessas coisas fez de Jacques Villeneuve o primeiro piloto favorito da jovem Ana. “Nem tenho explicação, não sei bem o motivo. Não era nada técnico e nem meu pai torcida por ele”.  Era o começo de uma relação de amor com a F1, que ajudaria Ana em momentos lancinantes que a vida atiraria contra ela nos anos futuros. 
 


Villeneuve pode ter sido o primeiro piloto a ser admirado, mas não seria o mais querido. Muito longe disso. Não foram os títulos de Michael Schumcher, Fernando Alonso, Lewis Hamilton ou Sebastian Vettel, tampouco a brasilidade de Felipe Massa ou Rubens Barrichello que capturaram a admiração e carinho de Ana Luiza. Foi outra pessoa e por outro traço: o otimismo e simpatia de Daniel Ricciardo, o australiano de sete vitórias em oito anos de F1 e que, após cinco temporadas de Red Bull, está de partida para a Renault em 2019.
 
“Hoje ele representa mais para mim que ano passado, antes do meu diagnóstico. É uma pessoa positiva, bem alegre e está sempre sorrindo, todo mundo na F1 fala isso dele”, aponta para onde se impressiona com o piloto. “Mesmo nos momentos difíceis - e nesse ano teve um pouco mais -, ele sempre estava sorrindo e brincando, encarando de forma positiva. Isso me fez levar meu tratamento do câncer, que foi muito complicado em algumas situações, sempre de forma positiva. Ainda não consigo ser como ele, mas estou tentando.”
 
É, tem isso. O câncer. É uma grande parte da história. Ainda vamos falar sobre a competição do 'shoey' promovida pela Red Bull e por como Ricciardo se mostrou impressionado com Ana. E vamos gostar mais de falar sobre isso, mas não há maneira de deixar esse capítulo de lado.
CORRIDA PELA VIDA
 
O câncer entrou no caminho antes do próprio diagnóstico: grande parceiro de F1 e de jogos do Atlético Mineiro, o pai foi vítima da doença. Em setembro de 2015, Ana perdeu seu cúmplice para assuntos esportivos. Pouco mais de dois anos depois, em outubro de 2017, uma dor começou na virilha da perna direita, passou para a região lombar, mas a razão teimava em permanecer escondida. Era câncer. O diagnóstico veio em dezembro.
 
“Eu achei que fosse uma questão muscular, alguma coisa de exercício físico, mas não passava, nem com remédio. Comecei a investigar. Fui à ginecologista e fiz um ultrassom. Apareceu uma massa no útero, que acharam que poderia ser um mioma. Ao mesmo tempo, eu comecei a sentir a dor na lombar. Foi quando fui a um atendimento de um hospital, onde acharam que era alguma coisa na vértebra, mas nada demais, e o médico disse que se a dor continuasse era para eu me consultar com um especialista em coluna.” 
 
A tal consulta com o especialista aconteceu somente um mês depois. “Nesse meio tempo eu continuei tomando remédio para as dores e fui mais uma vez no atendimento porque estava com muita dor.”
 
“Quando enfim consegui ir ao especialista em coluna, ele passou uma ressonância magnética. O resultado apontou fratura em duas vértebras. O laudo dizia que as fraturas eram patológicas, ou seja: causadas por alguma doença. Mas quando eu vi 'fratura', já fiquei preocupada. Nem me toquei que era patológica. Só fiquei imaginando onde que era possível eu tivesse fraturado alguma vértebra.” 
 
Foram aproximadamente 24 horas com a coluna como maior preocupação. Aí a vida mudou.
 
“Consegui retornar ao médico no dia seguinte, e ele já tinha ligado para o hospital e falado com a equipe de oncologia. Eu entrei em choque.”
 
“A única coisa que pedi foi para trocar de médico. Quis ser tratada pelo mesmo médico que tratou meu pai. O ortopedista que me atendeu antes sugeriu que eu me internasse para realizar mais exames e realmente chegar a um diagnóstico. Já se sabia que a fratura tinha sido causada por um tumor, mas ainda não se sabia que tipo de tumor era. Agora era necessário definir para chegar ao tipo de tratamento exato que eu precisava.” 
 
“Eu me internei, fiz biópsia na vértebra. Passei por uma cirurgia para fixar a vértebra, que era a última torácica, primeira da lombar. E aí veio o diagnóstico. Quando veio, eu já tinha feito um PET Scan, que é um exame específico para ver onde tinha tumor no meu corpo. Descobriram com esse exame e mais a biópsia, que eu tenho um câncer de osso chamado Sarcoma de Ewing.”
 
De acordo com o Instituto Nacional de Câncer, o INCA, o diagnóstico do Sarcoma de Ewing é mais frequente entre os 11 e os 20 anos (64%), seguido da faixa até os 10 anos (27%) e 9% entre os 21 e os 30 anos. Um caso raro, pois. Outro traço comum deste tipo de câncer é que o diagnóstico já seja feito quando metástases tenham aparecido. Foi o caso. “Já tinha algumas metástases: uma no útero - aquela que acharam que era um mioma - uma em cima das mamas e uma no pulmão.”
 
“Segui internada e comecei o tratamento. A ideia era que fossem seis sessões de quimio: na primeira eu estava internada. Fiquei Natal e Ano novo no hospital, passei muito mal. Depois eu tive alta e fiz as outras em ambulatório - ia ao hospital, fazia e voltava. Tinha bem menos efeito colateral, o que foi muito bom.”
 
Além de toda a questão física e emocional que um processo como tal naturalmente representa, a luta de Ana ainda precisou parar nos tribunais. “Depois das seis sessões eu fiz outro PET Scan - era para fazer na metade do tratamento, mas o plano de saúde não deixou. Eu tive que pedir uma liminar judicial para conseguir.” 
Ana Luiza e o irmão conhecendo um F1 (Foto: Reprodução)
A notícia que veio na sequência, no entanto, foi especial. “Depois dessas sessões eu tive remissão completa da doença, o que quer dizer que não tem mais nenhum tumor ativo no meu organismo. E aí, sim, eu consegui fazer o transplante de medula óssea.”
 
A remissão não é o fim da corrida contra o câncer, mas o desfecho de uma etapa para a abertura da seguinte. No caso de Ana Luiza, a próxima fase também continha uma ida aos tribunais para vencer o plano de saúde.
 
“Demorou um pouco até que eu fizesse o transplante, porque o plano não autorizava de novo, e eu tive que voltar para a justiça e conseguir outra liminar. O transplante que eu fiz, que eu estava comemorando no vídeo do shoey, é um transplante de medula autônomo, onde eu sou a minha própria doadora. Não precisei achar um doador. Esse transplante é melhor, porque o paciente não corre risco de rejeição e você não precisa tomar imunossupressor - a imunidade fica em situação bem melhor.” 
 
“O transplante começa com uma coleta de células-tronco, que são congeladas em laboratório, e depois de duas semanas você é internada para fazer o procedimento. O transplante na verdade é uma quimioterapia muito forte para acabar com qualquer vestígio do câncer, mas ele acaba matando junto a medula óssea. Depois que você faz essa quimio recebe um ou dois dias de descanso no hospital, e aí recebe de volta as células-tronco que foram coletadas. O dia em que você recebe as células-tronco é considerado o 'Dia Zero'. A partir desse dia você vai contando em que dia a medula vai pegar, no meu caso foi o dia 11 de agosto, e até os 100 dias, que são os mais críticos. Durante esse tempo você ainda tem restrições alimentares, não pode ficar em lugares fechados com muita gente, tem que ficar meio isolada.” 
 
“Os meus 100 dias acabaram no dia 7 de novembro, um dia antes de viajar para o GP do Brasil. Acabaram liberando para ir, foi bem no limite. Foi a primeira vez que eu saí para lugares mais cheios, viajei - foi minha primeira viagem durante todo esse período de tratamento.”
Ana Luiza é atleticana (Foto: Reprodução)
MUDAR E SEM TEMOR
 
Um diagnóstico de câncer altera a forma como uma pessoa vive e encara a vida, presente e futuro. Ana explica como aconteceu com ela.
 
"Mudei muito. Primeiro você passa a ver a vida e as coisas com outros olhos. Dar valor às pequenas coisas. Na primeira internação, fiquei dez dias sem comer. Depois você agradece um copo d'água que consegue tomar. São coisas muito pequenas que na correria do dia a dia a gente não percebe, mas que passa a dar valor. E também dá valor às coisas que a gente ama: família, amigos, vontade de realizar os sonhos de experiências e momentos. As coisas materiais perdem o valor e os momentos e as experiências ficam melhores. Ainda no meu caso, acho que me tornei uma pessoa mais positiva depois do câncer."
 
O diagnóstico faz com que se passe a aproveitar cada sanduíche, como versou o cantor Warren Zevon, anos atrás, em entrevista a David Letterman.
 
"É mais ou menos por aí. O mais difícil para mim foi aprender a viver um dia de cada vez - e ainda é difícil. Mas você tem que viver um dia de cada vez, não pode ficar pensando no passado ou no futuro. Ao mesmo tempo, você fica na ansiedade de viver as coisas que você quer. Por mais que a gente não se aproxime da morte, a morte fica mais real." 
 
De hora para outra ter que encarar a própria mortalidade foi mais um elemento com o qual Ana teve de lidar desde que soube do diagnóstico.
 
"Como eu já tinha lidado com isso, já que perdi meu pai também para o câncer, a gente já fica um pouco mais próxima. Mas é diferente quando é com você. Especialmente quando você é jovem, porque a gente não pensa que vai viver uma coisa assim tão rápido. A gente olha para a frente e ainda vê muitos anos de vida." 
 
"Eu acho que acaba mudando o olhar e, ao mesmo tempo, tira um pouco do pavor da morte. Eu, hoje, não tenho medo da morte, mas tenho medo de não conseguir viver as coisas que eu gostaria de viver."
Ir ao GP do Brasil foi uma vitória para Ana Luiza (Foto: Reprodução)


TEMPOS MAIS ENSOLARADOS
 
Um ano depois do diagnóstico, Ana Luiza ainda está em tratamento, mas em outro estágio. Após a quimioterapia mais agressiva, a remissão e o transplante bem-sucedido, agora ela passa por mais algumas sessões do que é chamado de quimioterapia de manutenção: essencialmente uma quimio mais fraca e com capacidade menor de causar efeitos colaterais.
 
"Faço quatro semanas seguidas e folgo uma. Ainda estou bem no início, fiz só duas sessões, até porque na primeira, apesar de ser mais fraca, eu passei mal e acabei tendo que ser internada. Pedi para esperar e fazer a seguinte só depois da corrida, por causa do medo de passar mal em São Paulo [quando viajou para o GP do Brasil]."
 
Sem planejar muito à frente, o que sabe no momento é que será essa a batida do tratamento nos próximos seis meses.
 
"Depois meu médico vai avaliar os exames e decidir se vai ser necessário fazer por mais seis meses ou não. Por enquanto, ainda é indefinido. Não pensamos muito na frente porque vai definir muito da resposta do organismo ao tratamento. Claro que tem um protocolo a ser seguido, mas, para mim, o médico passa etapa por etapa."

MAIS PERTO DA F1 DO QUE NUNCA ANTES
 
Fã de uma vida inteira, Ana jamais esteve tão próxima da F1 quanto nas últimas três semanas. Como os 100 dias de isolamento pós-transplante de medula terminaram na quarta-feira anterior ao GP do Brasil, ela estava no limite para realizar um sonho: enfim, após tantos anos, assistir a uma corrida ao vivo. 
 
Por todas as dificuldades e sofrimentos de lutar uma batalha tão aflitiva durante um ano, foi para realizar o sonho de menina que correu assim que foi permitida. No Setor M, em frente aos boxes de Interlagos, viveu.
 
"Foi muito legal. Nunca tinha ido, então foi uma experiência incrível. Eu fui querendo voltar, já estou fazendo contagem regressiva para o próximo. É diferente de ver pela TV, o barulho é muito maior, você vê os carros de muito mais de perto... Quando cheguei em casa eu vi a corrida de novo para ter outra perspectiva [risadas]. O que você vê da corrida depende muito de onde você está, não dá para acompanhar tudo ao mesmo tempo."
 
Dez dias depois da prova em Interlagos e para contemplar o que seria a última corrida de Ricciardo com as cores da Red Bull, a equipe organizou uma brincadeira online com voltas de competição, porque valia prêmio. Consistia em internautas mandarem vídeos realizando o shoey - ato de beber do próprio calçado, popularizando pelo australiano em suas vitórias - junto a mensagens endereçadas para Daniel. Era uma brincadeira para envolver fãs, mas Ana resolveu entrar na disputa e levou para outro nível. "Eu postei para participar, mas achei que só fazia sentido se eu colocasse algo da minha vida pessoal, não só celebrando [o piloto]. Queria que fosse algo mais."
 
"Um shoey para celebrar os 100 dias do meu transplante de medula óssea, e Daniel Ricciardo foi quem me inspirou a ser sempre uma pessoa positiva e sorrir durante meu tratamento de câncer", foi o que disse no tuite. Ricciardo respondeu no dia seguinte. "Incrível! Não sei o que dizer... Você é fantástica."
Daniel Ricciardo faz o famoso shoey no pódio do GP de Mônaco (Foto: Red Bull Content Pool)
Não foi a única vez que Ricciardo se mostrou espantado com a mensagem de Ana Luiza. Na última entrevista dele como piloto da Red Bull, falou sobre o prêmio e as mensagens de carinho que recebeu. Mas o destaque de todo esse processo estava evidente. "O vídeo que realmente me tocou foi o de uma moça fazendo o shoey no 100º dia após o transplante de medula óssea. Esse deixou um enorme impacto", contou Ricciardo.
 
"Quando eu vi [o tuite de resposta], estava na quimioterapia. Eu recebo dois remédios que dão sono, então estava dormindo na hora da retuitada, mas meu celular começou a vibrar com mensagem de Whatsapp. Eu achei que era um grupo que o povo tinha empolgado, jamais imaginei que fosse isso. Até que me ligaram, aí que eu fui pegar o telefone, já tinha gente me mandando print. Na hora eu fiquei sem graça, até porque ainda estava tonta dos remédios. Foi demais. Demorou um pouco para a ficha cair. Na verdade eu acho que não caiu ainda."
 
"Para mim, já foi muito ele ter me retuitado. A forma como o vídeo viralizou foi totalmente inesperada e acabou tomando a proporção que tomou. Várias pessoas marcando, a Red Bull comentou, então foi muito surreal. Depois que ele retuitou, então, comecei a receber mensagens de apoio de todo o mundo, foi bem surreal e é uma coisa que não tem preço. Pessoas que nem te conhecem começam a mandar mensagens de apoio, de carinho."
 
Na última quinta-feira, 29 de novembro, o resultado: Ana Luiza ganhou a sapatilha autografada pelo ídolo.
 
"Ganhar o prêmio foi incrível! Fiquei tremendo na hora que soube. Mas acho que a ficha só vai cair completamente quando eu receber as sapatilhas. Acredito muito que ganhei graças à repercussão que o vídeo tomou por causa da galera do Twitter. Se não fosse a repercussão dos jornalistas brasileiros que cobrem a F1 e dos amantes da F1 aqui no Brasil, acho que o vídeo não teria chegado no Ricciardo e na Red Bull da forma como chegou."
 
E finalizou: "Mais feliz que isso só se eu o conhecesse pessoalmente."
Ana Luiza no shoey da vitória (Foto: Reprodução)
Ana Luiza passou e ainda vive dias difíceis, alguns piores e outros melhores. Já viveu dores pungentes, físicas e emocionais. Mas está aqui não apenas para viver. Está aqui para contar a história dela e mostrar, como um exemplo, que, sim, temos que saber tirar cada pedacinho de alegria e prazer que nos é jogada. Ana Luiza passou a ser a menina do shoey, mas se tornou também muito mais. É um arquétipo do que o esporte pode ser. Ana Luiza, contadora tributária, atleticana e fã é a revelação do ano ao trazer consigo as mensagens que nos negamos a querer ouvir.
 
Nós, do GRANDE PRÊMIO, somos seus fãs e estamos na torcida para que os seus dias sejam cada vez mais brilhantes, Ana.