F1

Eficiente, Rosberg deixa pecha de amarelão para trás e entra com justiça para galeria dos campeões mundiais de F1

O que pouca gente esperava no começo do ano se consumou neste domingo (27) em Abu Dhabi. Nico Rosberg é campeão mundial de F1. Um título que coroa a melhor fase da carreira do alemão de 31 anos que, depois de boas passagens pela Williams e um começo promissor pela Mercedes, derrotando inclusive Michael Schumacher, foi tachado de amarelão por sucumbir aos duelos contra Lewis Hamilton. Mas o rótulo definitivamente fica para trás com a conquista histórica, repetindo o feito do pai

Warm Up / FERNANDO SILVA, de Sumaré
Há pouco mais de um ano, no fim do GP dos Estados Unidos, Nico Rosberg cometia um erro que colocava fim às suas pretensões de título e via o rival Lewis Hamilton comemorar o tricampeonato mundial de F1. Desde que passou a dividir os boxes da Mercedes com o britânico, em 2013, o alemão vinha sendo rotulado como o bom piloto que é, mas que amarelava e fraquejava nos momentos decisivos, como havia acontecido em Austin. Mas justamente depois daquela corrida no Texas, a atitude de Nico mudou completamente. Do piloto sem poder de reação dos últimos anos, Rosberg se mostrou muito mais aguerrido, determinado, forte mentalmente e, acima de tudo, muito eficiente, aproveitando cada oportunidade que teve pela frente. Tudo isso, aliado à sua notória capacidade como piloto — nem sempre reconhecida e ofuscada pelo midiático Hamilton — acabou por ajudá-lo a sacramentar, enfim, a conquista do seu primeiro título mundial na noite deste domingo (27), em Abu Dhabi.
 
E a arrancada para o título mundial de 2016 começou justamente na corrida seguinte ao fracasso em Austin. No México, Rosberg começava uma incrível série de sete vitórias consecutivas, considerando as três últimas da temporada passada (México, Brasil e Abu Dhabi) e as quatro primeiras deste ano (Austrália, China, Bahrein e Rússia). O ponto final de uma série que apenas dois grandes campeões haviam feito — Michael Schumacher e Alberto Ascarifoi na primeira volta do GP da Espanha, quando Hamilton acertou seu carro e colocava fim à prova da dupla da Mercedes, mostrando estar abalado com a supremacia do alemão no princípio da temporada.
 
Só que Hamilton não é qualquer rival e não é tricampeão por acaso. Contando com o melhor equipamento do grid, o britânico empreendeu uma reação poucas vezes vista na F1. Depois de ter ficado 43 pontos atrás de Rosberg, Lewis emendou, a partir do GP de Mônaco, seis vitórias em sete corridas, virando o jogo. Após o GP da Alemanha, o último antes das férias de verão na Europa, o placar apontava 217 pontos para Hamilton contra 198 para Rosberg. Vantagem de 19 pontos em favor do britânico. 
A vitória em Spa-Francorchamps foi fundamental para a virada de jogo de Nico Rosberg em 2016 (Foto: Mercedes)
 
Era preciso mais do que competência para dar a volta por cima. Além da sua capacidade, Nico também precisava da ajuda da sorte, que tantas vezes determinou seus fracassos na F1. E justamente a sorte de campeão, que tanto acompanhou Hamilton nos últimos anos e também nas últimas corridas da temporada, lhe virou as costas e partiu para o outro lado dos boxes da Mercedes.
 
Na Bélgica, a necessária troca de motor fez Hamilton largar do fim do grid, abrindo caminho para uma vitória redentora de Rosberg. Em Monza, após uma pole-position soberana, Lewis falhou na largada, se recuperou, mas viu o rival novamente comemorar uma vitória. Em Cingapura, depois de espantar a sombra da derrota que rondava a Mercedes, Nico vencia de novo e enfim virava o jogo, voltando a ser líder do campeonato.

Na Malásia, veio o golpe de misericórdia: quando caminhava para vencer e retomar a ponta do Mundial, Hamilton se desesperou ao ver seu motor quebrado. O terceiro lugar de Rosberg em Sepang foi festejado como se fosse uma vitória. Na prática, a quebra na Malásia praticamente colocou fim às chances de Hamilton em faturar o tetracampeonato em 2016.

E para complementar uma sequência incrível de Rosberg, a quarta vitória em cinco corridas no segundo semestre veio também na esteira de outro erro de Hamilton na largada em Suzuka. Competente e, finalmente, com sorte, Rosberg se encaminhava para seu primeiro título mundial.
Aos 20 anos, Rosberg foi o primeiro campeão da história da GP2 (Foto: GP2 Series)
A partir de então, Nico claramente passou a jogar com o regulamento, uma vez que ele sequer precisava mais vencer para ser campeão. Assim, Hamilton não teve dificuldades para ganhar em Austin, enquanto o alemão novamente contou com a sorte de campeão, faturou uma posição com o abandono de Max Verstappen e aproveitou o momento do safety-car virtual para subir para segundo lugar, superando Daniel Ricciardo, parceiro de Max na Red Bull.

No GP do México, Rosberg passou por um apuro durante uma disputa com o novo gênio Max Verstappen, mas conseguiu seguir na pista e terminou em segundo. Mesmo resultado obtido no emocionante e encharcado GP do Brasil, depois de chegar a perder a segunda posição para o próprio Max, mas conseguiu recuperá-la depois de uma parada final do holandês da Red Bull para novamente terminar em segundo lugar. Duas semanas depois da prova em Interlagos, Rosberg chegava a Abu Dhabi 12 pontos à frente de Hamilton. Um terceiro lugar lhe bastava para chegar ao título. Sem se arriscar, Nico novamente terminou em segundo e garantiu o tão sonhado título mundial de F1.
Não é exagero dizer que a quebra de Hamilton na Malásia foi determinante para o título de Rosberg em 2016 (Foto: Reprodução/Facebook)
Um título que veio sobretudo pelo fato de Nico conseguir aproveitar as chances que teve, sendo muito mais eficiente que Hamilton. Os números mostram que Lewis é um piloto muito melhor e mais completo que o alemão. Mas o #44 viveu um ano de cão, cheio de problemas e falhas, longe do seu melhor, embora as dez vitórias, contra nove de Rosberg, evidenciam uma temporada que não foi de todo ruim. No entanto, Nico tirou proveito de cada revés sofrido pelo rival, acumulou gordura o bastante para ficar tranquilo e administrar uma vantagem confortável sem precisar se arriscar. No fim das contas, se sagrou campeão não o melhor, mas o piloto mais eficiente do ano.

A carreira do novo campeão mundial de F1
 
Depois de 11 anos, Rosberg voltou a soltar o grito de campeão. Há 11 anos, o então jovem alemão faturava o primeiro título da história da GP2. Em um grid que contava com nomes como Nelsinho Piquet, José María ‘Pechito’ López, Scott Speed, Xandinho Negrão e seu grande adversário na luta pela taça, Heikki Kovalainen, Nico garantiu cinco vitórias e chegou ao título com a equipe francesa ART Grand Prix. 
 
No ano seguinte, o filho de Keke Rosberg estreava na F1 como piloto da Williams numa fase de transição para a equipe britânica. E Nico começou bem, somando pontos logo na corrida de estreia, no Bahrein. Mas era um período cheio de dificuldades para a Williams, de modo que o alemão só voltou a pontuar no GP da Europa, em Nürburgring, somando quatro pontos em seu primeiro ano na F1.
 
Em 2007, Rosberg foi bem melhor e somou 20 pontos, o possível com um carro muito problemático e dotado do motor Toyota. Seu companheiro de equipe à época, Mark Webber, tinha somado apenas 13 pontos. Já no ano seguinte, ainda pela Williams, vieram os primeiros pódios na carreira como piloto de F1: terceiro lugar na abertura da temporada 2008, na Austrália, e seu melhor resultado no ano, o segundo posto no polêmico GP de Cingapura, ficando só atrás de Fernando Alonso. Em 2009, apesar de ter feito sua melhor temporada na Williams, faturando todos os 34,5 pontos da equipe no Mundial, ficando em sétimo lugar, Nico não voltou ao pódio.
Em 2010, a Mercedes voltava à F1 como equipe e tinha Rosberg ao lado de Schumacher (Foto: Mercedes)
Até que sua carreira ganhou novos horizontes ao fim daquele ano com a volta da Mercedes como equipe à F1. E a montadora alemã, que havia acabado de adquirir a BrawnGP, surpreendente campeã do mundo em 2009, trouxe o jovem Rosberg e resgatou da aposentadoria o maior campeão da categoria, Michael Schumacher. Uma dupla 100% alemã numa escuderia germânica. Muitos imaginavam que Nico seria facilmente surrado por Schumacher. Mas aconteceu justamente o contrário.
 
Rosberg foi muito melhor que Schumacher desde o primeiro ano da Mercedes. Nico fazia em 2010 sua então melhor temporada na carreira, com direito a três pódios (terceiro lugar nos GPs da Malásia, China e Inglaterra) e terminou em sétimo lugar, com 142 pontos, apenas dois a menos em relação ao sexto lugar, Felipe Massa. Schumacher fechava aquele ano apenas em nono, com 72 pontos.
 
A Mercedes ainda ficou num patamar inferior em relação à Ferrari, Red Bull e McLaren em 2011 e, desta vez, Rosberg não foi ao pódio. Em um 2011 bastante irregular, Nico fechou em oitavo e marcou 89 pontos, enquanto Schumacher veio logo atrás, em oitavo, com 76. Só que o destino reservaria a Nico a chance de voltar a levar a Mercedes ao topo do pódio, assim como fizeram ícones como Juan Manuel Fangio e Stirling Moss. Confirmando que a Mercedes caminhava, ainda que a passos lentos, rumo à glória na F1, Rosberg venceu pela primeira vez na carreira no GP da China de 2012 e ainda voltou ao pódio com o segundo lugar no GP do Canadá. Contudo, a Lotus havia feito um belo trabalho naquele ano e, graças a Kimi Räikkönen, Romain Grosjean e James Allison, o time aurinegro terminava em quarto, à frente da Mercedes.
Rosberg foi o responsável pela primeira vitória da nova era da Mercedes na F1 (Foto: Mercedes)
Mas a realidade da escuderia prateada mudava drasticamente em 2013. Schumacher se aposentava definitivamente ao fim do ano anterior, e o time sediado em Brackley trazia o badalado Lewis Hamilton, contratado a peso de ouro da McLaren, para o seu lugar. A dupla rapidamente se tornou uma das mais consistentes da F1 e ajudou a levar a Mercedes ao vice-campeonato do Mundial de Construtores. Nico voltava a vencer, nos GPs de Mônaco e da Inglaterra, e conquistava também os pódios na Índia e em Abu Dhabi. 
 
Mas de uma forma que jamais havia acontecido em sua carreira na Mercedes, Rosberg era superado no fim da temporada por Hamilton. Nascia ali uma das grandes rivalidades da década na F1. E o embate entre os antigos amigos da época do kart acirrou a partir do momento em que a Mercedes passou a dominar a F1 com a nova ‘Era Turbo’. O time alemão desenvolveu a melhor tecnologia das novas unidades motrizes e iniciou uma era prateada na F1.
 
Com uma postura bem diferente da Ferrari, a Mercedes liberou a briga entre os dois. Hamilton se colocava como um piloto de melhor qualidade, mas Rosberg não se mostrava muito longe. Tanto que, mesmo tendo vencido apenas cinco corridas em 2014, contra 11 de Hamilton, Nico chegava a Abu Dhabi, palco da etapa derradeira do campeonato — única da história com distribuição de pontos em dobro — com chances de título. Mas uma quebra, aliada à vitória de Lewis, adiaram o sonho de Rosberg.
 
Em 2015, Rosberg teve seus momentos de brilho, venceu algumas boas corridas, como em Mônaco, mas nem de longe foi páreo para Hamilton, que venceu com três corridas de antecipação. Nico só conseguiu de fato ser mais efetivo depois que Lewis havia confirmado o título, em Austin. E aí, a partir do GP do México, o mundo da F1 via um outro Nico Rosberg, que depois de ser subestimado e até ter virado motivo de chacota, enfim virou o jogo e agora, mais do que nunca, pode soltar da garganta o grito de campeão. E, diga-se, com toda a justiça do mundo.