Ex-pilotos da F1 e da Indy defendem cockpits fechados após acidente de Wilson: “Hoje não se aceita a morte”

Depois das recentes mortes de Jules Bianchi e de Justin Wilson, a discussão sobre a segurança dos cockpits voltou com força e uma das propostas levantadas para ampliar a proteção da cabeça do piloto em carros de fórmula é a de cobrir o habitáculo. O GRANDE PRÊMIO ouviu ex-pilotos da F1 e da Indy, atualmente correndo na Stock Car, e a maioria saiu em defesa da canopy

Hoje não se aceita a morte no automobilismo. A frase foi dita por dois ex-pilotos da Indy, Bia Figueiredo e Raphael Matos, enquanto falavam sobre a perda de Justin Wilson e avaliavam o que ainda é possível fazer para proteger o piloto dentro de um carro de monoposto. Os questionamentos sobre segurança voltaram à tona mais recentemente depois dos acidentes de Jules Bianchi, na F1, e Wilson, na categoria norte-americana. E a proposta mais discutida no momento diz respeito aos cockpits fechados.

A ideia não é nova. Afinal, a cabeça do competidor é a parte mais vulnerável, e os recentes acidentes fatais na F1, na Indy e até na extinta F2 deixaram ainda mais que claro que algo precisa ser feito para proteger o piloto, apesar de todas as medidas de segurança adotadas nas últimas décadas. Na verdade, a maior das categorias vem realizando estudos há anos sobre a possibilidade de cobrir o habitáculo do piloto, assim como a série de Indianápolis. 
Justin Wilson morreu há pouco mais de uma semana (Foto: IndyCar)
Defendendo a Andretti, o britânico foi atingido na cabeça por uma peça que voou do carro de Sage Karam, que se acidentara pouco antes. O inglês de 37 anos foi levado ao hospital e não resistiu aos ferimentos. A morte foi confirmada um dia após a corrida. E comoveu o mundo da Indy e toda a comunidade do esporte a motor pelo mundo. 
 
A F1 viveu uma situação semelhante no mês passado, quando foi anunciada a morte de Jules Bianchi, de 25 anos. O jovem francês também não suportou o gravíssimo impacto contra uma grua que resgatava o carro de Adrian Sutil durante o GP do Japão de F1 de 2014. O piloto chegou a ser operado e diagnosticado com uma lesão axonal difusa. Em coma desde então, sua condição foi se deteriorando. 
 
Os dois casos levantaram todo o tipo de questionamento sobre o que ainda pode ser feito pela segurança em um esporte de risco reconhecido como o automobilismo, ainda mais em carros de fórmula, ou ‘open-wheels’, ou seja, em que as rodas também ficam expostas. Ao longo dos anos, diversos itens foram melhorados e reforçados, especialmente na F1. As laterais dos modelos foram elevadas, os capacetes e viseiras ganharam proteção de materiais mais resistentes, também houve avanços nos sistemas de suspensão, fabricação e desenho dos carros. Os pilotos passaram a partir de 2003 a usar o Hans, equipamento que tem como função dar apoio à cabeça e ao pescoço. Preso ao capacete e sob os ombros do piloto, o recurso ajuda a proteger o pescoço e a coluna do competidor. 
 
A Indy também se preocupou com a segurança nos últimos anos. A primeira grande mudança foi no chassi, agora a categoria compete com o DW12 – introduzido em 2012. Desde o ano passado, o carro tem reforços laterais, novos painéis de fibra de carbono foram adicionados na parte exterior e interior do carro, que terão também uma espuma de plástico na parte do cockpit onde ficam as pernas dos pilotos. Além disso, um anel de reforço também em fibra de carbono foi adicionado à estrutura do habitáculo. A peça é uma espécie de protetor cervical. Neste ano, os kits aerodinâmicos deixaram o modelo mais robusto para evitar voos e consequências maiores em caso de batidas traseiras e laterais.
 

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Mas ainda há o que fazer. E a FIA (Federação Internacional de Automobilismo) segue promovendo testes e estudos aprofundados sobre uma tampa para o cockpit. Ainda não há nenhuma indicação de que a F1 vá adotar em breve essa ideia ou mesmo a Indy. O que há é uma enorme discussão sobre as propostas para ampliar a segurança. Durante a etapa de Cascavel da Stock Car, o GRANDE PRÊMIO ouviu ex-pilotos da F1 e da Indy sobre as recentes tragédias do esporte e o que se pode fazer ainda.
 
A maioria pediu por mudanças, por uma evolução rápida com relação à cabeça do piloto dentro dos monoposto. Quase todos defenderam o cockpit fechado, ainda que isso provoque uma descaracterização das competições de fórmula pelo mundo. 
 
Para Matos, que correu na Indy entre 2009 e 2011, já passou da hora de se promover uma alteração na concepção dos carros. “É claro que a gente vai perder aquele aspecto de carro aberto que aprendemos a correr… Eu mesmo vim crescendo nessas categorias de fórmula a vida inteira. Então, vamos perder isso com os cockpits fechados. Mas acho que vai ser em prol do esporte, em prol dos pilotos, porque acho que hoje em dia o automobilismo não aceita mais perder pilotos como nós perdemos o Justin. Eu acho que agora é preciso reagir rapidamente e agressivamente”, decretou o piloto ao GP.
 
Figueiredo usou o mesmo argumento. A morte não é bem aceita no esporte, como era nos anos 1960, 1970, quando se perdia pilotos quase que a cada temporada. Embora tenha que cobrir um cockpit de um monoposto é uma medida extrema, Bia concorda que é o caminho a se seguir, ainda que isso interfira na forma como os fãs veem a competição.  “Acho que fechar o cockpit muda muito a característica do fórmula como estamos acostumados. É muito drástico”, afirmou a pilota. 
 
“Mas eu penso sempre na família e no piloto que pode sempre perder a vida ali. E nos últimos anos, a gente só perdeu pilotos de monopostos porque a cabeça estava exposta. Foi assim com Dan Wheldon, com o Justin, com Jules Bianchi, com Henry Surtees. E, mesmo de certa maneira, com Ayrton Senna também. Teve uma 500 Milhas em que um pneu quase pegou na cabeça do Helio Castroneves. Quer dizer, esse é um gargalo nosso e é onde os pilotos estão perdendo a vida. Então, acho que isso precisa evoluir agora”, completou.
 
“Hoje as pessoas já não aceitam mais a morte no automobilismo tão bem. Acho que o fã quer ver porrada, batida, mas quer também que o piloto saia bem do carro. Então, quando acontecem coisas assim, é ruim para todo mundo. O esporte é vida, é saúde. Quando alguém morre competindo é muito drástico”, acrescentou a paulista, que esteve na Indy por quatro temporadas. 
Rubens Barrichello sofreu seu mais forte acidente em Ímola em 1994 (Foto: Forix)
Com experiência de ter competido longamente na F1 e com uma temporada na Indy, Rubens Barrichello também defendeu a proposta de se cobrir o cockpit. O paulista viveu intensamente a evolução vivida pelo Mundial em termos de segurança, logo depois das mortes de Senna e Roland Ratzenberger em Ímola, em 1994. E elegeu os principais pontos de melhorias feitas através dos anos. 
 
“Antigamente, nós víamos os ombros, mãos e pescoços do piloto enquanto guiavam. O aumento da parede lateral do cockpit foi um grande benefício, bem como o uso do Hans. Os crash-tests também aumentaram a eficiência no impacto frontal e lateral. E, finalmente, as pistas. Essas sim sofreram muitas transformações importantes”, explicou Barrichello ao GRANDE PRÊMIO
 
Diante disso, o atual campeão da Stock Car também não vê problemas, acha que é apenas uma questão de se acostumar com a mudança. A declaração é quase uma resposta aos críticos, que falam sobre a perda de característica do monoposto. “Em algum momento, alguém vai testar fechar o cockpit. Concordo que olhar para um fórmula fechado será estranho, mas prefiro o estranho a perder um colega de trabalho. Gostar ou não da mudança não vem ao caso, o mundo hoje passa por transformações e, talvez, essa seja uma delas”, continuou.
 
“Quando eu guiava um fórmula gostava da sensação do ar na cara. Quando guiei o Stock me senti dentro de uma caixa com pouco ar. Logo acostumei. Tudo é questão de costume”, acrescentou o recordista de GPs na F1.
 
Ricardo Zonta, que também competiu no Mundial, seguiu a mesma linha de Barrichello. O paranaense defendeu a cobertura dos cockpits e disse que será preciso apenas se acostumar com a novidade. “Em um primeiro momento, vai mudar bastante a característica do monoposto. Mas depois acostuma”, disse. “Depois de todos esses acidentes, algo precisa mudar. Os riscos são altos, e os carros são muito rápidos. As peças são cada vez mais leves e mais frágeis também”, emendou.
 
O piloto também entende que uma das opções testadas pela FIA – a de fazer uma cobertura inspiradas em aviões de combate – é o melhor caminho para o desenvolvimento da peça. “Acho que a opção de fazer como um avião de caça, uma bolha transparente, é uma boa. Quer dizer, ainda vai permitir ao torcedor enxergar o capacete do piloto do mesmo jeito. E acho que é legal. Espero e torço para eles mudem mesmo”, afirmou Ricardo.
 
Ex-piloto da Williams e da extinta Jaguar, Antonio Pìzzonia gosta da ideia de uma proteção para o habitáculo do competidor, mas acredita que a solução não será adotada, ao menos não completamente. “Não acredito que os monopostos vão ficar 100% fechados. Eu já vi algumas ideias e alguns projetos relacionados a isso. A própria FIA já apresentou propostas para aumentar a proteção ao redor do piloto, mas não fechar 100%.” 
 
“Isso porque há opiniões divididas. Por exemplo, tem gente que acha que se você fechar o monoposto, então deixa de ser um fórmula. Outras pessoas acham que isso não vai mudar nada. Eu não acredito realmente que os cockpits serão fechados completamente, mas acho alguma coisa será feita em prol de uma segurança maior para o piloto ali dentro do carro. Mas acho que está na hora de mudar”, disse o amazonense. 
Luciano Burti falou sobre os risco de uma eventual adoção dos cockpits fechados (Foto: Duda Bairros)
A voz destoante é a de Luciano Burti. O piloto e comentarista da TV Globo bateu exatamente na tecla levantada por Pizzonia. Para Burti, fechar o cockpit de um monoposto vai descaracterizá-lo complemente, colocando em risco até a existência e a razão de ser de corridas de fórmula. Luciano ainda explicou que é quase impossível tornar o automobilismo um esporte 100% seguro. Os riscos existem e não há como controlar todas as situações. 
 
“A gente querer tornar o automobilismo 100% seguro é impossível”, falou ao GRANDE PRÊMIO. “Acho que só colocando um limitador de velocidade, andar só até 120 km/h e olhe lá. Não tem jeito, sempre vai haver carros andando a 150, 200, 300, 350 km/h. Quer dizer, o risco faz parte, não tem como evitar. Óbvio que no caso do Justin foi uma fatalidade. Foi algo estúpido, mas é algo que pode acontecer neste esporte. E aí você começa a pensar no que poderia ser feito… Muito pouco”, afirmou. 
 
“Tem a ideia de fechar o cockpit do fórmula. Mas aí eu tenho de lembrar um lado, e eu sei que é muito duro falar nisso agora, porque eu fiquei realmente muito, muito chateado pelo Justin, especialmente porque eu o conhecia muito bem. Mas nós temos de lembrar que o carro de fórmula é um carro aberto. É um carro aberto. Ele é assim, nasceu assim e uma das grandes diferenças para os demais carros de corrida é essa. Você vê o piloto guiando, a cabeça dele”, enfatizou.
 
“Agora, se cobrir esse carro, você vai começar a perder o DNA. Então, se for assim, vamos andar só de turismo ou de GT, porque carro aberto é perigoso. Não é somente o piloto que está exposto, as rodas estão expostas. E por conta disso também pode capotar ou sair voando, como já vimos antes. Ou então deveriam acabar de vez com os fórmulas. É isso que a gente quer? Ou não, o risco faz parte do automobilismo? O risco faz parte. Então, eu não vejo muita solução”, completou o piloto da RZ na Stock Car.
 
O paulista de 40 anos ainda foi mais longe. “Acho que a morte do Senna foi um marco muito grande para a questão da evolução da segurança. E tenho certeza que essa evolução vai continuar ainda. Mas no estágio que está é muito difícil de pensar em segurança por causa da velocidade. Outra coisa, mesmo que você faça um carro 100% resistente, o nosso corpo não é. Se você der uma pancada no muro a 300 km/h, o carro pode aguentar, mas a gente não. Que foi o que aconteceu comigo lá em Spa [Burti sofreu o pior acidente de sua carreira na F1 na Bélgica em 2001]. Eu quase não aguentei, apesar do carro ter suportado. Não tem jeito, com velocidade alta, a gente nunca vai ter uma segurança ideal, não existe isso”, declarou.
 
“Não estou dizendo que sou contra [sobre o cockpit fechado], mas acho que temos de pensar no todo. Será que é isso mesmo? Não sei… Segurança está em primeiro lugar? Sim, também acho, mas o que é correr de fórmula? Acredito agora precisamos lembrar que tem os dois lados.”
 
Burti insistiu ainda que o automobilismo é um esporte de risco e que isso deve ser considerado sempre. “Não há segurança máxima”, afirmou. E disse que talvez outras medidas fossem mais eficazes, como as mudanças nas pistas. E, no caso da Indy, ainda há o atenuante de que os circuitos ovais oferecem um risco a mais. 
 
“Na F1, acho que os circuitos melhoraram muito, especialmente por causa do Senna. Mas, na Indy, correr em circuito oval é quase uma loucura”, salientou. “Isso sim é uma coisa que não faz muito sentido. É algo extremamente perigoso. Por isso, não acho que o problema seja o cockpit aberto, o problema é andar naquela velocidade ali. Eles andam com o muro muito perto. Para mim, aquilo lá é perigoso demais. A pancada ali é muito forte. Eu nunca andei na Indy e nunca andaria pela questão do oval”, finalizou.
É possível cobrir o cockpit sem descaracterizar o carro
A FIA vai continuar no próximo mês os testes relacionados a cobertura do cockpit. A entidade-mor trabalha com algumas opções, incluindo uma proposta feita pela Mercedes, que cobre apenas as laterais e a frente do habitáculo. Uma das grandes preocupações para adoção de uma estrutura protetora está, especialmente, na remoção do piloto, em caso de emergência. Além disso, a escolha do material também é outra questão importante.
 
No ano passado, o GRANDE PRÊMIO ouviu o engenheiro Andrea Toso, chefe do departamento de pesquisa e desenvolvimento e líder do setor de competição para os EUA da Dallara. A fábrica italiana é a responsável pelos chassis atuais da Indy e já conduz estudos sobre a cobertura do habitáculo dos pilotos. "Estamos trabalhando nisso com a Indy e com alguns pilotos, que têm testado diferentes conceitos e ideias, e até mesmo em alguns protótipos", revelou o italiano.
 
Embora veja como uma “possibilidade” para o futuro, Toso listou alguns pontos que ainda precisam de estudos mais avançados. “Eu sei que a FIA Foundation vem estudando e experimentando o conceito das coberturas de cockpit nos últimos anos. No entanto, ainda existem dificuldades técnicas — visibilidade por meio de um material transparente — e questões de segurança — em caso de acidente. A extração do piloto de dentro do carro pode ser um problema; se o material da cobertura se quebrar em muitos pedaços, os pequenos estilhaços podem atingir o piloto como balas dentro do cockpit. É prudente seguir essa ideia, que parece óbvia para o público em geral, mas isso também envolve riscos negativos, que deve ser previstos e resolvidos por profissionais.”
 
O engenheiro ainda revelou que os custos serão também um fator decisivo, além de toda a decisão com relação à tecnológica que será utilizada na concepção, design e fabricação da peça.

 

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