Ferrari tem dia menos catastrófico na Hungria, mas crise segue sem data para acabar

O GP da Hungria foi melhor que os dois no Red Bull Ring para a Ferrari. Mas não se engane: a crise vai continuar pelo menos até 2021, consequência do congelamento dos carros atuais

Depois de uma vexatória falta de ritmo nas duas corridas do Red Bull Ring, a Ferrari partiu para o Hungaroring em busca de respostas. Como fazer a SF1000 render mais do ponto de vista aerodinâmico? Como superar o déficit de potência? O pacote de atualizações vai surtir efeito? Em linhas gerais, a equipe parece mesmo ter evoluído um pouco, mas é necessário ter cautela com os prognósticos: a crise segue forte em Maranello, e fica cada vez mais claro que não é de simples solução.

Para começo de conversa, o tamanho do imbróglio fica claro por conta das atualizações para a Hungria. O pacotão foi vendido ao público como a salvação de 2020, corrigindo mazelas detectadas ainda na pré-temporada. No fim das contas, só ajudou a Ferrari a ter ritmo um pouco mais competitivo contra Racing Point e McLaren. A luta contra a Red Bull segue difícil e contra a Mercedes, impossível. Em outras palavras, já está claro que terceiro no Mundial de Construtores é o provável limite dos avermelhados nesse ano, mas já uma divisão abaixo da dos dois primeiros colocados. Não há atualização que resolva isso do dia para a noite.

Sebastian Vettel foi quem trouxe o melhor resultado da Ferrari na Hungria (Foto: Ferrari)

A Ferrari, por mais que já saiba da impossibilidade de voltar a ser uma real candidata às vitórias ainda em 2020, precisa acelerar o desenvolvimento do carro. O motivo é simples: os bólidos atuais ficam, salvo pequenas exceções, com desenvolvimento congelado em 2021. Ou seja, os pontos fracos que não forem resolvidos agora serão carregados até a introdução do novo regulamento. Isso, por sua vez, leva a um efeito bola de neve: quanto mais tempo os italianos gastarem desenvolvendo o carro atual, menos terão para pensar no de 2022. Para entender isso, basta olhar para a Mercedes: os dois campeonatos já estão no papo e dá para pensar tranquilamente no próximo projeto.

Mesmo ignorando o problema do desenvolvimento da SF1000, a Ferrari tem outros pepinos para descascar. Citemos, por exemplo, as dificuldades crônicas com estratégia: depois das voltas com intermediários, Charles Leclerc foi forçado a andar com pneus macios, que claramente não se comportaram bem na Hungria. O desgaste veio quase de imediato e tornou o dia do monegasco muito difícil. A equipe quis fazer o mesmo com Sebastian Vettel, que assumiu o papel de estrategista por alguns segundos e sugeriu colocar pneus médios. A diferença ficou evidente: Charles terminou em 11° e Sebastian subiu para sexto.

Mattia Binotto
A batata de Mattia Binotto segue assando, e em fogo cada vez mais alto (Foto: Ferrari)

Parece algo pontual, mas não é. Ou melhor, seria pontual se não fosse um problema que se repete semana após semana. É difícil lembrar da última vez que a Ferrari tirou uma carta da manga com a estratégia, surpreendendo rivais. Mercedes e Red Bull conseguem vez que outra. A Ferrari, por sua vez, só parece vencer quando tem tudo a seu favor. Caso seja necessário sair um pouco da caixa, a missão já se torna dura.

No fim das contas, esses problemas todos recaem sobre a mesma pessoa: Mattia Binotto. Na chefia da Ferrari desde 2019, o dirigente tinha a missão de dar um passo adiante, fazendo ajustes nos avanços promovidos pelo antecessor Maurizio Arrivabene. Não conseguiu: a escuderia está ainda mais bagunçada e, olhando de fora, a sensação é de falta de um senso de liderança em Binotto, algo que a Mercedes tem em Toto Wolff e a Red Bull tem com Christian Horner e Helmut Marko.

O caminho não é a demissão sumária de Binotto, até porque não é isso que vai tornar a SF1000 subitamente mais rápida. Quando o assunto é 2020 e 2021, a união talvez seja mesmo o melhor caminho. Para 2022, com o projeto do carro novo indo adiante, vai ser o momento de fazer mudanças internas profundas. Talvez seja o único jeito de acabar com a crise e o jejum de títulos ferrarista.

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