GUIA 2020: Da pandemia à busca por sobrevivência: os 100 dias que mudaram a F1

De repente, tudo parou. A F1 estava pronta para colocar os carros na pista em Melbourne, quando um funcionário da McLaren foi diagnosticado com a Covid-19. A partir daí, a maior das categorias precisou tomar decisões duras para contornar a crise sanitária que se instalou no mundo. Cancelou o GP da Austrália às vésperas dos treinos e teve de mexer até em seus regulamentos para sobreviver. Agora, tenta recomeçar

ERA PARA SER a temporada mais longa da história da Fórmula 1. Era para ter um início voltado apenas para as ações de pista e as celebrações dos 70 anos do Mundial. Era para ser o ano do equilíbrio, enquanto se aguardava a revolução. Era… Pois o 2020 acabou virando do avesso todo e qualquer plano. A assustadora propagação do novo coronavírus também atingiu em cheio a F1. E a obrigou a tomar decisões difíceis. A maior categoria do esporte a motor no mundo precisou se adaptar ao novo momento, entender sua própria estrutura e rever suas regras para sobreviver. Num primeiro momento, o cenário ganhou contornos dramáticos e sem precedentes. Afinal, jamais a F1 cancelou um GP poucas horas antes dos carros ganharem à pista ou colocou contra a parede nomes fortes do grid. Em um campeonato tão internacional e de uma logística absolutamente descomunal, os chefes foram colocados à prova, desafiados e tiveram de agir rápido. Agora, a categoria máxima do esporte a motor larga no domingo, 5 de julho, na Áustria, depois de meses tensos e de incertezas, mas também de redenção.

A Fórmula 1 estava pronta para começar na Austrália, mas a pandemia a atingiu em cheio (Foto: GP da Austrália)

A partir do momento que um funcionário da McLaren foi diagnosticado com a Covid-19, já com todos devidamente instalados no paddock do Albert Park, a F1 se viu no olho do furacão. Com as equipes, patrocinadores e promotores pressionando por uma ação, foi necessária uma noite inteira para tomar a dura decisão de cancelar todas as atividades daquele fim de semana de meados de março. Naquele momento, a imagem que ficou foi a de que a Fórmula 1 havia subestimado a força da doença.

De volta à Europa, o comando do Mundial passou a enfrentar outro tipo de pressão: como realizar um campeonato em meio a uma pandemia? O vírus havia se espalhado de tal forma pelo Velho Continente, Ásia e Américas que tornou qualquer previsão altamente arriscada, e a F1 não podia mais cometer erros. E isso ficou nítido na primeira grande determinação da FIA (Federação Internacional de Automobilismo) em paralisar as fábricas, como forma de proteger os trabalhadores do contágio, mesmo sabendo dos riscos orçamentários. A pausa do verão europeu foi antecipada. No começo de abril, grande parte dos times já havia decidido por férias coletivas e até redução de salários, como forma de lidar com as perdas financeiras.

Ainda no fim de março, após o adiamento das etapas do Bahrein e do Vitenã – a China, é verdade, já havia descartado sua prova por ter sido o primeiro país a lidar severamente com a Covid –, não havia qualquer sinal de que seria possível realizar corridas em 2020. E essa possibilidade assombrou aqueles que chefiam todo o negócio e aqueles que dependem de carros na pista.

O Bahrein até se preparou para receber a F1 sem público, mas decidiu pelo adiamento (Foto: Reprodução/Twitter/Bahrein)

Rapidamente ficou claro que todo o primeiro semestre estava comprometido. Exemplos: neste período, o tradicional GP de Mônaco foi cancelado – primeira vez em 66 anos que as ruas do Principado não vão receber a F1. França e Holanda também resolveram seguir a decisão dos promotores monegascos pouco depois. Mais tarde, Azerbaijão, Japão e Singapura também pulariam fora.

Na verdade, também foram semanas de discussões nos bastidores, enquanto o coronavírus vitimava milhões de pessoas em todo o mundo. Depois da China, a Europa se tornou o grande epicentro da doença, com países como a Itália, Espanha e Reino Unido sofrendo significativamente. Só depois os EUA e o México passaram a ser notícia pelo número alto de mortes e, então, a América do Sul, com o Brasil puxando os índices para cima. Portanto, pensar em corridas e em tudo que as envolve se tornou um tormento.

 De um lado, o Liberty Media, o grupo que detém os direitos da categoria, e a FIA estudavam maneiras de disputar a temporada de algum jeito e, de outro, as equipes pensavam em formas de se manterem financeiramente saudáveis. Foi aí que começou uma agitada conversa sobre limite de gastos, divisão da receita e congelamento de regras, além de uma mudança expressiva de regulamento.

Os times do grupo intermediário do grid foram os líderes desse embate. A McLaren se mostrou a esquadra mais sensata e realista, batendo o pé para que o teto orçamentário, que já havia sido aprovado no ano passado, como parte do próximo conjunto de regras, fosse revisado. Todo o esforço deu certo. Enquanto buscava-se uma solução para o campeonato, foram aprovadas medidas importantes nessa fase de preocupação econômica – tudo, claro, de forma eletrônica.

No fim de maio, a FIA autorizou alterações nas regras em nome da diminuição dos custos na Fórmula 1 ao longo dos próximos três anos devido à pandemia. As decisões afetaram os aspectos esportivos, técnicos e financeiros. Ficou firmado o adiamento das regras de 2021 para 2022, enquanto o próximo campeonato vai obedecer às normais atuais.

Diretor da McLaren, Zak Brown puxou a fila pela redução do teto orçamentário na F1 (Foto: McLaren)

Entre determinações quanto ao uso do túnel de vento e testes aerodinâmicos pelas grandes equipes e restrições de componentes, a mudança mais importante disse respeito ao teto orçamentário, que ganhou novos e importantes números. A entidade máxima designou uma queda gradativa do limite de gastos. A medida agradou de forma geral, até aqueles ferrenhos defensores do orçamento livre – leia-se Ferrari e Red Bull. Além dos regulamentos para tentar manter a saúde financeira dos times, os chefes debatiam também sobre um calendário. Afinal, todas as medidas aprovadas também dependiam da realização das corridas. Daí, a chefia do Mundial passou a avaliar de forma mais concreta um início de campeonato, também porque a Europa passou a viver um recuo do contágio em alguns países.

Neste cenário, o circuito da Áustria surgiu como uma alternativa atraente. Com números do coronavírus menos assustadores e com uma pista de propriedade privada à disposição, a F1 começou a ver com bons olhos a opção o Red Bull Ring como palco na nova abertura da temporada. Outro local também passou a ser ventilado: Silverstone. Mesmo em dificuldades por causa da Covid, os ingleses sugeriram etapas duplas e usando o sentido contrário da pista. Aliás, muitas ideias apareceram nesse tempo, como a proposta de usar essa temporada especial para testar formatos novos. Apesar de ofertas divertidas, como grid invertido, corridas de classificação e novos traçados. Nada foi aceito. O que foi aprovado mesmo foi o conceito de rodadas duplas. E assim teve início a formação do calendário que se tem até agora: oito etapas, sendo duas corridas na Áustria e duas na Inglaterra, além de provas na Hungria, na Bélgica, na Espanha e na Itália.

Só que ainda parece pouco e o Liberty Media segue trabalhando para acrescentar mais etapas e chegar a algo perto de 15 corridas. Circuitos como Mugello, Ímola, Portimão e Hockenheim estão no radar, assim como a tentativa de correr no Canadá, EUA, Bahrein e Abu Dhabi. México e Brasil parecem improváveis, devido aos altos índices de contágio e morte pela doença.

A F1 vai abrir a temporada no Red Bull Ring, que em 2019 marcou o início de uma sequência de corridas espetaculares (Foto: Divulgação)

Com a formação do calendário, a FIA estabeleceu regras para a realização das corridas, diante da ameaça de contágio e das restrições logísticas. O distanciamento social é a regra máxima, e isso acabou por alterar protocolos tradicionais como pódio e cerimônias antes do apagar das luzes. A estratégia de prova também sofrerá mudanças, com a Pirelli estabelecendo uma quantidade padrão de jogos de pneus e compostos para cada piloto. Ainda serão 13 conjuntos, mas oito de macios, três de médios e dois de duros.

Só que a F1 não viveu apenas de estudos de calendário e negociação de novas regras. O mercado de pilotos também aqueceu o noticiário nesses mais de 100 dias de espera. E foi bombástico. A segunda semana de maio foi, de longe, a mais turbulenta de toda essa fase de espera. Isso porque, no dia 12, a Ferrari anunciou que não renovaria o vínculo de Sebastian Vettel depois do fim de 2020. Com o alemão fora para o próximo ano, os italianos não perderam tempo e foram atrás de Carlos Sainz – claro que, até a confirmação, muitos rumores brotaram na imprensa internacional. A contratação do espanhol saiu dois dias depois. Aí sem Sainz, a McLaren tinha de tomar uma atitude e, como o time de Maranello, tratou de ser rápida. No mesmo dia, inclusive, publicou a assinatura do acordo com Daniel Ricciardo, que decidira deixar a Renault. Quer dizer, em menos de uma semana, as peças do tabuleiro do grid formaram um interessante enredo que ainda não acabou e promete reaquecer assim que os carros forem à pista. Afinal, Vettel está livre, a Mercedes ainda não confirmou sua dupla, há vaga na equipe francesa e outras ainda devem buscar o mercado.

Enquanto tudo isso acontecia, os pilotos mais jovens do grid aproveitavam o tempo livre para disputar a F1 virtual. Charles Leclerc, Lando Norris, Alex Albon, George Russell fizeram a alegria dos fãs não só pelas brigas mais equilibradas no game, como também pelo mimimi e provocações. No fim, um surpreendente Russell acabou levando o título. Agora, no entanto, terá de se deparar com a dura realidade da Williams.

O GRANDE PRÊMIO analisou toda a movimentação do mercado da F1

Falando nela, a equipe inglesa expôs a grave crise que vive e revelou uma estratégia de mercado que abre as portas para a venda. Também perdeu o patrocinador principal e vai começar a temporada com um layout mais básico, digamos assim. Mas o time de Grove não foi o único a lançar preocupação, a McLaren também se vê em apuros. A esquadra britânica demitiu funcionários e está com um pedido de empréstimo na justiça – o Grupo McLaren, na verdade. Ainda assim, a marca já pensa na venda de ações como forma de ajudar na recuperação financeira.

Apesar dos impactos da crise terem sido gigantesco – e a fatura ainda vai chegar –, a Fórmula 1 deu passos importantes para se tornar mais consciente e engajada em causas sociais e de proteção ao meio-ambiente. Ainda no início da pandemia, foi lançado o projeto Pitlane. A iniciativa contou com os esforços das sete equipes com fábricas na Inglaterra – Red Bull, Racing Point, Haas, McLaren, Mercedes, Renault e Williams – no combate ao coronavírus. Entre os objetivos, estava fabricar mais respiradores mecânicos e a produção de novas tecnologias para ajudar na recuperação de problemas respiratórios causados pela Covid-19. A equipe prateada foi quem mais se destacou nesta área. A Ferrari também trabalhou em pesquisa e produção de dispositivos médicos na Itália, um dos países mais assolados pela doença na Europa.

Lewis Hamilton
Lewis Hamilton protesta contra o racismo nas ruas de Londres (Foto: Reprodução/Instagram)

E nas últimas semanas, a F1 também viu Lewis Hamilton erguer a voz mais uma vez contra o racismo e as injustiças sociais, agora de forma ainda mais contundente. O hexacampeão mostrou revolta contra o brutal assassinato de George Floyd nos EUA – o homem preto foi morto por um policial branco na cidade americana de Minneapolis, e isso desencadeou uma série de protestos pelo mundo contra a discriminação racial e a violência policial – e chamou atenção de seus pares e da própria F1 para o episódio. O inglês foi às ruas de Londres e defendeu que vidas negras importam. A atitude contagiou o Mundial e alguns pilotos também se manifestaram.

Talvez como resposta direta, a F1 ainda lançou dias atrás a iniciativa #WeRaceAsOne [corremos juntos, em tradução livre] para promover causas sociais em cada GP. Com o arco-íris como símbolo, o movimento começa neste domingo (5), valorizando profissionais da saúde e a causa antirracista.

Portanto, é assim que a F1 chega à Áustria. Como o mundo, o Mundial também vai expor novos protocolos. As corridas serão ainda estranhamente diferentes. As arquibancadas vão estar vazias. Por conta do isolamento social, toda a logística terá de ser mais simples e limitada. As equipes vão ter de levar um número reduzido de pessoas, assim como a organização, fornecedores, imprensa, comissários e fiscais. As cerimônias que antecedem à largada, o desfile dos pilotos e o pódio foram descartados. Entrevistas serão por videoconferência.

E na pista? Bem, na pista, a hierarquia de forças ainda apresenta a Mercedes (Lewis Hamilton) como favorita, com uma Ferrari cambaleante e uma Red Bull (Max Verstappen) mais bem preparada. É no bloco intermediário que a surpresa deve reinar: a Racing Point, numa cópia clara do carro prateado, assombrou na pré-temporada e é candidata até a incomodar o top-3 do grid. McLaren, Renault, AlphaTauri e Alfa Romeo surgem na sequência, com uma Williams aparentemente mais decentes. A Haas é a equipe que segura a lanterna por enquanto.

Ainda é cedo para uma análise aprofundada, mas dá para dizer que a Fórmula 1 que vai alinhar neste domingo no Red Bull Ring é, certamente, melhor e mais relevante do que aquela que foi cancelada há pouco mais de 100 dias.

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