GUIA 2020: Racing Point tem sacada de mestre para liderar F1 ‘B’: copiar Mercedes

A proximidade cada vez maior de Lawrence Stroll com Toto Wolff e o dinheiro infinito do bilionário canadense ajudaram a Racing Point a ser a grande sensação dos testes de pré-temporada com uma solução curiosa e polêmica: o RP20 é uma cópia rosa do W10, campeão da F1 no ano passado. Por um lado, o movimento é genial; por outro, levanta o debate sobre o real DNA da categoria

A Racing Point causou furor nos testes de pré-temporada em Barcelona, lá em fevereiro. Não que tivesse repetido a assombrosa performance da Brawn GP em 2009, mas a equipe baseada em Silverstone chamou a atenção por levar à pista catalã uma verdadeira cópia rosa do Mercedes W10 com o qual Lewis Hamilton faturou o hexacampeonato mundial no ano passado. A novidade ganhou manchetes ao redor do mundo pelo movimento genial por um lado — e até óbvio, por outro —, mas também gerou críticas e olhares tortos de membros de equipes rivais e levantou a seguinte questão: afinal, até que ponto copiar as bases de um carro vai contra o chamado DNA da F1?

O RP20 que foi pilotado por Sergio Pérez e Lance Stroll nada teve a ver com o carro que fora apresentado dias antes, em evento na Áustria. O modelo que foi à pista, contudo, mostrou traços muito diferentes. O bico fino e arredondado na ponta trouxe muitas comparações com o Mercedes W10, e foi só o primeiro. Tão logo começaram a pipocar fotos de Barcelona, ficou nítido que o carro como um todo foi inspirado na Flecha de Prata de 2019. Estava ali, diante dos olhos do mundo, a ‘Mercedes rosa’.

Bico, asa dianteira, tampa do motor, asa traseira e até mesmo os bargeboards são praticamente idênticos ao campeão W10. Tudo foi construído tendo como base componentes construídos pela Mercedes e fornecidos para a Racing Point: suspensão, câmbio e motor. Diferente dos outros modelos da antiga Force India ou da Racing Point no ano passado, o novo carro rosa foi desenvolvido no túnel de vento da Mercedes, em Brackley, e não mais em Colônia, na base da Toyota na Europa.

O carro completamente remodelado veio também na esteira de uma ordem de Lawrence Stroll, frustrado com a falta de performance do primeiro modelo da Racing Point. O bilionário canadense não poupou esforços e dinheiro para que os engenheiros pudessem ter às mãos a chance de se inspirar no melhor carro da última temporada.

Comparação dos carros da Racing Point e Mercedes (Arte: Rodrigo Berton/Grande Prêmio)

A influência de Stroll também é direta por dois fatores. O primeiro, claro, diz respeito ao dinheiro, já que o empresário é fonte inesgotável de recursos desde que assumiu o controle da equipe. É pelas mãos — e pelo dinheiro — de Lawrence, inclusive, que a Racing Point vai mudar de nome em 2021, uma vez que o canadense comprou boa parte das ações da Aston Martin e vai colocar o nome da lendária montadora britânica novamente na F1.

Outro ponto que certamente impulsiona a Racing Point é a proximidade entre Stroll e Toto Wolff. Evidente que a amizade, em um meio tão profissional, competitivo e até cruel como é o da F1 fica num segundo plano, mas os dois são homens de negócios bem-sucedidos e sabem como costurar uma parceria vitoriosa. Assim, pouco a pouco, com sagacidade nos bastidores e dinheiro infinito, Lawrence Stroll deixa de ser conhecido como ‘pai de Lance Stroll’ para virar uma figura cada vez mais poderosa no grid.

O grande objetivo da Racing Point ao desenvolver uma cópia do W10 é o de recuperar protagonismo no pelotão intermediário da F1 e, com alguma sorte, incomodar as grandes. As aparências não negaram as evidências de um clone muito bem-nascido, com performance bastante consistente na pré-temporada tanto em ritmo de classificação como também nas simulações de corrida — embora, neste quesito, números indicam a Racing Point atrás da McLaren. Mas é inegável que o começo foi bem mais positivo na comparação com os últimos anos do time britânico.

Andy Green, diretor-técnico da Racing Point e responsável direto pelo projeto do RP20, lembrou que a ideia de se inspirar no melhor carro do grid era óbvia. Mas deixou claro que o novo modelo da equipe rosa não saiu das pranchetas da hexacampeã mundial. “Devemos buscar um carro pior? É lógico que nos inspiremos no campeão do mundo. Mas construímos nosso carro por conta própria e não deixamos a Mercedes nos ajudar”, disse o engenheiro em Barcelona.

Em entrevista ao site norte-americano ‘Motorsport.com’, Green disse que o aspecto financeiro foi determinante para que a Racing Point pudesse levar adiante o projeto de clonar o melhor carro do grid.

“Não pudemos seguir esse caminho antes. Nossas mãos estavam financeiramente atadas. Tivemos de transportar muitos componentes de um ano para outro. Não era possível fazer uma redefinição, como fizemos agora. Não tínhamos recursos financeiros, não tínhamos as pessoas e também não tínhamos capacidade. É preciso muita mudança na infraestrutura para poder fazer o que acabamos de fazer”, explicou.

“Faz sentido financeiramente trabalhar com um fabricante em alguns componentes. Contamos com a caixa de câmbio e o sistema hidráulico da Mercedes desde 2015 e simplesmente expandimos essa participação para este ano”, justificou Green.

Os donos de tudo (Foto: Racing Point)

Contra o DNA da F1?  

A inspiração da Racing Point no projeto vitorioso da Mercedes não é propriamente uma novidade na F1. A Haas, desde que estreou na F1, em 2016, trouxe várias peças e similaridades da sua parceira técnica, a Ferrari, além de ter a construção do seu chassi feita pela italiana Dallara.   Natural que, quando um carro se destaca na F1, este seja alvo de críticas, ainda mais nas condições pelas quais nasceu o Racing Point RP20.   Claire Williams, por exemplo, ressaltou a posição histórica da equipe que leva seu sobrenome de ser independente e jamais se tornar um time B na F1. “Estamos muito orgulhosos pelo fato de sermos um construtor independente e fabricarmos nosso próprio carro. Não é um modelo que queremos mudar no momento. Se der certo para eles [Racing Point] neste ano, o último antes de uma nova mudança nas regras, ótimo, mas não teria dado certo para nós. Por isso seguimos no caminho em que estamos”, disse a filha de Frank Williams.   Em tom mais assertivo, James Key, diretor-técnico da McLaren — equipe que concorre diretamente com a Racing Point pelo posto de ‘melhor do resto’ na F1 —, explica que “a última coisa que você quer é copiar seu vizinho, porque você quer desenvolver um carro com ideias melhores. Do ponto de vista da engenharia, como engenheiro, você quer sair e derrotar todos os outros. E é isso o que motiva a maioria das pessoas. O que torna a F1 única é o fato de equipes versus equipes, bem como pilotos versus pilotos, e como engenheiro você quer ser o melhor do grid na sua categoria específica. É isso o que motiva muitas pessoas, é certamente o que me motiva”.

As rivais da Racing Point questionaram as ações do time (Foto: Pirelli)

O chamado DNA da F1 diz que cada equipe tem a missão de construir seu próprio carro. Por isso o campeonato chama-se Mundial de Construtores e não Mundial de Equipes. Mas ainda que o RP20 seja claramente inspirado na Mercedes, não há dúvidas no paddock de que o trabalho em Silverstone foi feito dentro das regras, como admite até mesmo Andreas Seidl, chefe da McLaren. “Entendemos que a cooperação que existe entre a Racing Point e a Mercedes está dentro do regulamento, então não há motivo para reclamar”, comentou o alemão.

Andy Green defendeu o projeto rosa para 2020 e assegurou. “O que fizemos é completamente legal. O que fizemos foi competir com as regras que foram escritas. Essa é a ideia do jogo. Você recebe um arcabouço de regras e segue o mais rápido possível. É isso que estamos fazendo. Se outras equipes não seguiram o caminho que seguimos por motivos desconhecidos para nós, a decisão é deles. Eles tiveram a mesma chance de fazer exatamente o que fizemos, mas optaram por não, por motivos que não conheço”.  

Na visão do engenheiro, o falatório em torno da ‘Mercedes rosa’ prova que o projeto em si realmente nasceu bem. “Me encoraja saber que as pessoas estão falando sobre nós, que as pessoas estão reclamando sobre nós. Para mim, é um bom indício de que estamos fazendo algo realmente bom, então estou feliz. Se estivéssemos no fundo do grid, ninguém sequer mencionaria o que fizemos”, comentou.   O debate sobre a cópia rosa da Mercedes arrefeceu um pouco depois da polêmica que tomou conta da F1 nas últimas semanas com o assunto Ferrari-FIA. Mas a Racing Point tende a voltar ao centro das discussões em breve, principalmente se corresponder às expectativas e tiver uma boa performance neste fim de semana de GP da Austrália. Só Melbourne vai poder responder se o clone é tão bom quanto a sua versão original.

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