GUIA 2023: De punição a ações inusitadas: qual o tamanho do impacto do teto de gastos?

Lançado em 2021, regulamento financeiro obrigou as equipes da Fórmula 1 a aprimorar os recursos técnicos e de pessoal, o que implica em mudanças grandes no dia a dia das fábricas. Mas qual será o impacto do teto orçamentário na temporada 2023?

Durante as décadas de 1990 a 2010 muito se falou sobre a criação de um teto de custos aos times da Fórmula 1. O intuito era não apenas tentar promover mais igualdade nas pistas, mas, sobretudo, impedir a escalada de orçamento das equipes de ponta e a consequente quebra por parte das menores. E em 2021, em meio ao segundo ano completo da pandemia do coronavírus, a ideia enfim saiu do papel na categoria mais tradicional do esporte a motor mundial. E a adaptação ao cenário não foi das mais fáceis, especialmente para os grupos mais fortes. Agora, passadas duas temporadas sob um sistema mais rígido e uma violação, será interessante acompanhar o impacto real da redução dos gastos.

Isso porque, logo no primeiro ano, houve o primeiro revés: a Red Bull, campeã de Pilotos com Max Verstappen – em uma decisão apertadíssima contra Lewis Hamilton, da Mercedes – excedeu, em menos de 5%, o teto orçamentário da temporada 2021.

A irregularidade rendeu uma multa de US$ 7 milhões aos taurinos (R$ 36,5 milhões, na cotação atual), bem como uma redução de 10% no tempo de desenvolvimento do modelo desta temporada, o RB19, no túnel de vento. Punições leves, sim. Em conta à grandeza da esquadra austríaca, apenas um arranhão.

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Mas o que é o teto de orçamentário na F1?

O teto de gastos impõe um limite de custos relacionados a ações específicas por parte das equipes de Fórmula 1. Ou seja, a soma de todos esses componentes não pode exceder a um valor estipulado pela Federação Internacional do Automobilismo (FIA).

Vale destacar que o período de análise sempre se refere ao acumulado do ano anterior. Portanto, em 2023, os times vão prestar contas à entidade pelos gastos do campeonato passado – ao mesmo tempo em que equilibram as finanças para não ultrapassar o teto deste ano.

Aliás, o chefão da F1, Stefano Domenicali, já demostrou certo descontentamento com esse cenário, cobrando do órgão regulador mais rapidez no processo de análise do limite de custos. “Temos de reagir o mais cedo possível para manter a credibilidade do esporte”, enfatizou o cartola. “Devemos garantir que a verificação e a certificação sejam feitas muito mais cedo, porque se algumas equipes falharem, isso precisará ser tratado adequadamente e no menor tempo possível para ter mais credibilidade”, emendou.

De fato, essa foi uma das críticas quando as informações sobre a violação da Red Bull começaram a vir a público em 2022.

Outro ponto importante: o limite para 2022 foi estipulado em US$ 140 milhões (R$ 733,18 milhões). E neste ano, o teto é de US$ 135 milhões (R$ 707 milhões), mais valores a serem acrescidos por conta de correção monetária.

Para o chefão da Alpine, Otmar Szafnauer, o teto de gastos tem desenvolvido um importante papel na F1, mesmo ainda sendo extremamente elevado em relação a outras categorias. “O limite em si ajudou a Fórmula 1 como um todo, elevou as avaliações das equipes”, garantiu o dirigente. “O limite que temos agora ainda é dez vezes maior ao de qualquer outra fórmula de corrida gasta e, para mim, isso é o suficiente”, definiu.

Stefano Domenicali se preocupa com teto de gastos (Foto: Mark Thompson/Getty Images/Red Bull Content Pool)

Uma das grandes polêmicas em torno desse limite orçamentário na F1 gira em torno daquilo que é (ou não) permitido pelo regulamento. Basicamente, a restrição de custos envolve tudo o que é físico do carro, equipamentos de garagem, peças sobressalentes e gastos de transporte.

Por outro lado, existe uma tênue linha entre o que conta ou não. Por exemplo, os gastos com salários dos pilotos e dos três membros mais bem pagos do time técnico não figuram na contabilidade do teto, que se restringe à remuneração dos demais colaboradores.

Há, contudo, elementos que estão muito bem definidos no regulamento e não contam ao orçamento de um time durante o ano. São custos relacionados a viagens, marketing, ações legais, inscrições e licenças, atividades com carros além da F1 e de passeio, bem como pagamentos de licença parental e doença, bônus e benefícios como convênios médicos aos colaboradores.

É importante lembrar que, de fato, existe certa flexibilidade no Regulamento Financeiro da FIA, publicado em setembro passado, mais precisamente no artigo 8.10 (letras a e b). Nele, consta que há ainda um limite de custos de 5% além do teto, classificado como “violação de gasto excessivo menor”.

Acima disso, a esquadra infratora está passível a sanções mais agressivas, chegando, até mesmo, à impossibilidade de disputar a temporada seguinte à infração.

Como as equipes operam dentro do limite na F1 2023

Se até pouco tempo a preocupação financeira das equipes era unicamente em ter um equilíbrio nessa área, atualmente se estende ao cumprimento do limite de gastos. E, para isso, promovem mudanças de diversas ordens para se enquadrar no regulamento da FIA.

A primeira delas, aliás, é algo muito conhecido: a redução do quadro de colaboradores. Não à toa, Christian Horner revelou que a Red Bull teve que demitir mais de 90 pessoas; a Mercedes, por sua vez, dispensou 40 funcionários.

Ainda em termos de recursos humanos, outro caminho é na transferência de profissionais de alto salário, desde que não estejam no top-3 de ganhos, o que automaticamente já fica fora da contabilidade de gastos, para outras empresas do grupo. Dessa forma, continuam a colaborar indiretamente com o desenvolvimento.

Um caso que poderia se enquadrar nesse contexto é o do ex-diretor técnico da Aston Martin, Andrew Green, que se transferiu recentemente à Aston Martin Performance Technologies, criada para alavancar o conhecimento obtido pela equipe na F1 para outras áreas.

As equipes reduzem custos também por meio de mudanças de seus colaboradores (Foto: Mark Thompson/Getty Images)

Entretanto, há outro fator que gera economia: a boa e velha pista! Ao optar pelo experiente Nico Hülkenberg para o lugar de Mick Schumacher, nesta temporada, a Haas certamente levou em conta a série de estragos que o alemão causou nos carros, sobretudo na primeira parte do campeonato passado.

Apenas no acidente do alemão durante a classificação ao GP da Arábia Saudita, o time estadunidense gastou cerca de US$ 1 milhão (R$ 4,7 milhões, na cotação à época) para consertar o bólido.

O time de Kannapolis também inovou na pré-temporada. Para otimizar os recursos e garantir mais dinheiro para investir no carro, a Haas apareceu no Bahrein com um pitwall reduzido, o que permitiu uma economia de cerca de US$ 250 mil (cerca de R$ 1,3 milhão).

Por fim, outra medida eficaz – e que é a aposta das grandes equipes – é reduzir o desenvolvimento e o tempo de fabricação. E como é possível imaginar, essa é uma faca de dois gumes. De acordo com Lewis Hamilton, as chances de conquistar o título de 2021 seriam maiores caso a Mercedes tivesse apostado em uma atualização de assoalho ou asa em torno de US$ 300 mil (R$ 1,5 milhão).

Portanto, as equipes têm um enorme desafio pela frente diante de um teto orçamentário cada vez mais severo e estabelecido. E a temporada 2023 terá a tarefa de deixar claro se as medidas tomadas pela FIA vão ou não surtir o efeito esperado, e isso vale da sanção aplicada à Red Bull a fiscalização e transparência de decisões.

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