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Guia F1 2015: Com carro 'brasileiro', Nasr vai bem nos testes. Mas sabe da vida dura

Apoiado pelo forte patrocínio do Banco do Brasil, Felipe Nasr finalmente conseguiu acertar a estreia na F1 e desembarca no Mundial por meio da Sauber. A equipe deu um salto de qualidade e usou bem os poucos recursos que possui para construir um carro, ao menos, que não quebra insistentemente

Warm Up / EVELYN GUIMARÃES, de Curitiba
A SAUBER DEIXOU A CLÁSSICA PINTURA
cinza e branca para exibir um tom brasileiro, quase chocante, de azul e amarelo em seu C34 para temporada 2015 da F1. Tudo isso em nome de Felipe Nasr. O brasiliense de 22 anos finalmente vai estrear no Mundial e, contando com o forte apoio do Banco do Brasil, encontrou na equipe suíça a grande oportunidade. 
 
O anúncio do acordo entre Nasr e o time de Peter Sauber aconteceu ainda no fim do ano passado, às vésperas do GP do Brasil, em novembro. O piloto, então na GP2 e reserva da Williams, sequer conhecia o novo empregador e as negociações foram rápidas. A aproximação aconteceu semanas mais tarde apenas. A princípio, o acerto com a esquadra chefiada por Monisha Kaltenborn parecia um negócio arriscado demais, especialmente diante do cenário de crise entre os times intermediários do grid e da fraquíssima temporada 2014.
Felipe Nasr estreia na F1 com um carro que não vai fazer feio como em 2014(Foto: Xavi Bonilla/Grande Prêmio)
Atrasos marcaram o começo dos trabalhos em Hinwil, principalmente devido a problemas de orçamento. Mas ainda lutando para deixar a casa em ordem, a Sauber conseguiu surpreendentemente concluir o novo projeto a tempo das primeiras atividades da pré-temporada e, pouco antes do início dos testes, liberou imagens do C34 azulão, com espaços para patrocinadores ainda vazios — o que também não é incomum para a equipe. De qualquer forma, há de se destacar o empenho do time.

O novo modelo foi à pista em Jerez de la Frontera logo em seguida, no primeiro dia de treinos. E, de lá para cá, a criação da Sauber apresentou uma evolução interessante. O carro não é exatamente o mais rápido do mundo, mas a aposta da equipe está na confiabilidade. E Nasr fechou a pré-temporada com a segunda maior quilometragem dos testes. 
 
O C34 não apresentou falhas graves ou contratempos constantes. Ao contrário, os dois pilotos — Marcus Ericsson é o colega de Felipe — tiveram muito tempo de pista, acumularam voltas e mais voltas e conseguiram progredir, ajudados também pela melhora significativa feita pelos motores da Ferrari, que empurram os modelos suíços.
Nasr foi o segundo que mais andou nos testes da F1(Foto: Xavi Bonilla/Grande Prêmio)
Ao todo, o brasileiro completou 649 voltas ou 2.976 km em 12 dias de atividades na Espanha — a marca só está atrás do registro feito por Nico Rosberg e a Mercedes. Contando também com Ericsson, os números da Sauber sobem para 5.809 km, apenas 400 km a menos que os atuais campeões. Com relação aos tempos, o desempenho cai ligeiramente.
 
No combinado dos oito dias em Barcelona, Nasr foi melhor que o companheiro de equipe, mas ficou com a sétima marca, 1s2 atrás de Rosberg. O sueco, por sua vez, terminou a sessão com o décimo tempo, somente 0s2 pior que o colega de equipe.
 
A performance deixa claro ao menos duas coisas: 1) a Sauber não está tão longe do grupo intermediário da zona de pontos e 2) que o C34 tem potencial, é melhor e mais confiável que o modelo de 2014. Resta saber apenas como a esquadra vai trabalhar com os problemas operacionais, sem contar o orçamento ainda problemático.
 
Portanto, o caminho de Felipe Nasr na estreia na F1 não parece tão obscuro e complicado quanto era no momento em que assinou o contrato ainda em 2014. Mas há ainda muito por fazer na esquadra suíça e o embate com o companheiro Ericsson também será um dos pontos para se acompanhar neste início de trajetória do brasileiro no Mundial.
A placa de Nasr nos boxes (Foto: Xavi Bonilla/Grande Prêmio)
Os caminhos do estreante

“É um momento único para mim, a minha família e todo mundo que trabalhou junto comigo. Dediquei muito tempo da minha vida para chegar neste momento e quero que comece com o pé direito. Acho que fiz tudo que eu tinha que fazer para me preparar bem e já não vejo a hora de estar lá”. Assim Felipe Nasr encarou a primeira vez na F1 ao responder pergunta do GRANDE PRÊMIO na pré-temporada na Espanha.
 
O piloto chega ao Mundial trazendo no currículo o campeonato da F3 Inglesa em 2011 e mais três temporadas na GP2, sendo o melhor resultado no ano passado, com o terceiro lugar e quatro vitórias. Também em 2014, o brasiliense trabalhou como piloto reserva da Williams, tendo andado durante a pré-temporada e em cinco treinos livres de sexta-feira ao longo do ano. A experiência certamente foi bem-vinda na preparação para o pontapé inicial no Mundial.
 
Nasr entende que sempre demonstrou que tinha condições de chegar ao Mundial, apesar dos altos e baixos vividos nas categorias de base. “Cheguei com 16 anos em um campeonato europeu e vencendo. E aí abriram as oportunidades que me favoreceram até a entrada na F1. Aquilo ali foi muito marcante. Mas acho que toda categoria que eu participei, sempre tive uma melhora, eu me desenvolvi como piloto, ganhei experiência. Acho que em todos esses momentos eu provei que tinha condição de ser piloto de F1."
Felipe Nasr (Foto: Xavi Bonilla/Grande Prêmio)
Por trás da carreira do jovem, está o pai, Samir, e o inseparável tio, Amir. Os dois foram os responsáveis pelo amadurecimento do piloto e da escalada que fez até as portas do Mundial. Segundo Felipe, a experiência de ambos agora se reflete no acerto com a Sauber. 
 
“Meu pai e meu tio me ajudaram muito com a experiência deles. Mais do que tudo, essa experiência deles encurtou muito o meu aprendizado. Saí do Brasil com 16 anos, mas já tinha uma formação muito boa da parte deles. Convivi muito tempo dentro da equipe deles, e o meu pai e o meu tio são pessoas que têm experiência no automobilismo. Para mim, isso foi uma mão na roda. E me fez um cara mais maduro, mais preparado e eu pude encarar diversos problemas, diversas situações que eu acho que, sem eles, não seria assim”, admitiu.
 
Nasr entende também que tomou a decisão certa ao esperar e escolher com calma um time para abrir as portas na F1. “Tudo tem de ser feito na hora certa, sem dar um passo maior que a perna. Hoje eu me sinto muito melhor preparado do que três, quatro anos atrás. Como piloto, como pessoa, no entendimento da parte técnica, mentalmente, fisicamente, então eu acho que estou chegando em uma idade muito boa na F1. Para essa molecada que começa agora, é ter paciência, ter calma e passar por todas essas fases”, declarou Felipe.
 
No melhor estilo ‘pé no chão’, Felipe tenta explicar que sabe o momento pelo qual sua equipe atravessa. O piloto não tem ilusões e faz questão de deixar claro que a Sauber, apesar do pequeno salto de qualidade em relação ao ano passado, ainda é uma equipe de desempenho frágil. “Primeiro, eu sei o que esperar de uma equipe que passou por tanto problema no ano passado”, esclareceu o jovem.
 
“Não é de um dia para o outro que eles vão virar a melhor equipe da F1. Mas eu acredito no potencial da equipe para buscar essa melhora, esse desenvolvimento, e quem dera se a F1 fosse só guiar carro bom. Só guiar carro para ganhar corrida. Todo mundo trabalha para isso. Estou começando agora. Vou aprender e me desenvolver junto com a equipe e, neste plano de dois anos, eu acho que vai ter uma boa melhora no carro. Posso esperar que muita coisa boa vai vir e não tem por que eu colocar essa pressão em cima de mim”, encerrou.
A equipe que ensina

Com os anos, a Sauber se tornou uma porta de entrada interessante e preciosa para jovens pilotos na F1. Os exemplos mais célebres são o de Kimi Räikkönen, Felipe Massa e pode-se aí colocar até mesmo o nome de Sebastian Vettel. Ambos deram seus primeiros passos na F1 por meio da esquadra montada por Pete Sauber e acabaram ganhando notoriedade e construindo carreiras sólidas. O finlandês e o alemão conquistaram títulos, enquanto Massa alcançou o vice-campeonato em 2008. São apenas alguns exemplos do quanto a equipe suíça sabe como cuidar de seus novatos.

Neste ponto, o xará Massa entende que a chance de Nasr é valiosa. O Felipe mais velho faz apenas uma ressalva, entretanto. Agora, a Sauber não possui mais o orçamento saudável que desfrutava há alguns anos. Neste momento, o trabalho pode, sim, ser prejudicado pelo fato de que o time não vive uma fase financeiramente tranquila.

“Eu acho que a Sauber é uma equipe que sempre apostou em pilotos jovens. Faz parte da característica da Sauber, ela conseguiu criar muitos pilotos jovens. Como eu, o Kimi, como alguns que passaram jovens, como o Pérez, o próprio (Esteban) Gutiérrez era novo. Eles têm essa mentalidade. A única diferença é que na equipe que eu corri, era uma equipe em que tinha o dinheiro, tinha o potencial de fazer um trabalho um pouquinho diferente.”

“Hoje é uma equipe que precisa de dinheiro. A gente precisa entender quanto eles podem ajudar um piloto novo agora comparando com quanto podiam ajudar um tempo atrás. Mas desejo o melhor para o Felipe, espero que ele tenha um futuro importante na F1, não só no aprendizado, mas lá para a frente também”, completou o piloto da Williams.

Nasr compartilha da mesma opinião do compatriota e, diante da experiência adquirida até o momento, é só elogios ao trabalho dos suíços. “É uma equipe que tem tradição, tem história, um bom entendimento da F1 e do que o piloto precisa saber dentro e fora do carro, como se comunicar com a equipe”, contou Felipe.

“Até agora, tudo que eu vi da equipe é muito positivo. Mas não posso deixar de mencionar que eu aprendi muita coisa na Williams, que foi muito útil, e eu consigo manter bastante coisa para este ano”, acrescentou.