F1

Há 30 anos, Senna conquistava primeira vitória na F1 no mesmo dia da morte de Tancredo Neves

Em um 21 de abril como hoje, 30 anos atrás, Ayrton Senna passeou na chuva torrencial do Estoril para vencer o GP de Portugal e sua primeira corrida na F1. Ali, no que veio a ser o dia da morte do primeiro presidente civil eleito pós-anos de chumbo, Tancredo Neves, Senna começou seu legado na F1 e no Brasil

Warm Up / PEDRO HENRIQUE MARUM, do Rio de Janeiro


Era um 21 de abril como hoje, em 1985. Um início de tarde com chuva torrencial no Estoril, e a F1 estava prestes a largar para o GP de Portugal. No Brasil, alguma expectativa. Um jovem piloto, apenas em seu segundo ano na F1, primeiro numa equipe que dava a ele mais chances de andar nas posições frontais, debutava na pole-position de um GP.
 
Conforme a chuva apertava e a pista portuguesa dificultava mais, com um desenho que fazia a água escorrer para algumas partes do traçado, as coisas pareciam ser niveladas, favorecendo o jovem piloto da Lotus, Ayrton Senna. Especialmente quando puxava-se a memória para o GP de Mônaco do ano anterior, onde Senna barbarizou com a Toleman também na chuva.
 
No entanto, o torcedor brasileiro regular esperava mais que o resultado de uma corrida na F1. A conquista, então recente, de ter um presidente civil como comandante-chefe pela primeira vez desde o Golpe Militar de 1964, se tornou rapidamente um pesadelo. Eleito em janeiro de 1985, Tancredo Neves se viu em graves problemas de saúde. Um tumor no intestino, que escondeu por receio do pavor que a palavra 'câncer' pudesse causar, especialmente quando a sombra dos militares ainda era muito forte e a posse ainda não era certeza. Embora tenha arquitetado todo um plano para se certificar de que a faixa presedencial chegasse às suas mãos, Tancredo sequer pôde ser empossado, ficando essa obrigação com o vice de sua chapa, José Sarney. E embora as semanas de Tancredo no hospital, primeiro no Distrito Federal e depois em São Paulo, fossem acumulando, o presidente eleito não estava ficando melhor.
 
Mas aquilo ficou para trás por alguns momentos. No Estoril, na chuva e todas as adversidades que um dia daqueles podia representar a um piloto, Senna largava na frente e abria. Atrás dele, Elio de Angelis, seu companheiro de Lotus, tomava a segunda posição de Alain Prost e Keke Rosberg na largada.
 
Foi uma prova inegavelmente divertida. Os pegas entre Nelson Piquet - com uma Brabham que não roncava tão alto em 1985 -, Riccardo Patrese e Stefan Johansson, entre de Angelis e Prost, por exemplo, deram à corrida um quê de emoção. Claro, as quebras também eram potencializadas com a chuva, bem como os erros.
Ayrton Senna comemora a vitória no GP de Portugal de 1985 (Foto: Reprodução/Twitter)
E não fosse por esses pegas, não teria a menor emoção para quem não fosse ou estivesse torcendo por Senna. No volante da Lotus #12, Ayrton abriu, abriu e abriu mais um pouco. E nessa deu volta em quase todos na pista. Apenas o segundo colocado, Michele Alboreto, então na Ferrari, ficou incólume.
 
A lista de momentos históricos para o Brasil em dias 21 de abril não cessa assim, tão rápido. Em todo o território nacional o dia é feriado. Uma homenagem ao primeiro - e talvez maior - grande personagem do qual o país se orgulha. Foi em um 21 de abril que Joaquim José da Silva Xavier, Tiradentes, foi enforcado no Rio de Janeiro. O único membro da Inconfidência Mineira a assumir total responsabilidade pelo movimento que visava fazer da Capitania de Minas Gerais - revoltada pelos impostos abusivos, a capitação, da Coroa Portuguesa, como a Derrama e o Quinto - uma república independente de Portugal. O ano era 1792, ainda 16 antes da Família Real desembarcar no Brasil e mostrar algum apreço pela Colônia.
 
Um pulo no tempo até 1960. E em outro 21 de abril, o país ganhou sua nova capital federal. Brasília foi inaugurada pelo presidente Juscelino Kubitschek. Não que interiorizar a capital do Brasil fosse novidade. José Bonifácio, o 'Patriarca da Independência', falava na futura Brasília na época da independência brasileira. Mas foi JK - e seu Plano de Metas - quem tirou a antiga ideia do papel. O Plano Piloto de Brasília acabou por ser desenvolvido por Lucio Costa com projetos arquitetônicos ambiciosos do gênio Oscar Niemeyer.
 
Então, em 1985, Senna cruzou a linha de chegada. Ainda não tinha o 'Ayrton Senna do Brasil' de Galvão Bueno, que se tornaria o apelido com que o narrador exaltava o piloto ao cruzar a linha de largada na parte áurea da carreira. Existia o tema da vitória e seu 'tã tã tã', mas ainda não era identificado tão intrínsicamente a Ayrton como se tornaria. Era, então, apenas uma vitória convincente, quase brilhante, de um jovem atleta com muita gasolina no tanque.

Mas, hoje, olhando em retrospectiva, a vitória no Estoril em 1985 é muito mais do que mais uma das vitórias. Num momento em que a vida do primeiro presidente civil pós-ditadura escapava de suas mãos, e a nação se via mais uma vez atingida no âmago, Senna apareceu, venceu e mostrou ao mundo que seria mais do que um outro. Aos berros, Galvão dizia como a F1 falava do "talento fantástico e da incrível capacidade de conduzir um automóvel" do 'garoto' Senna, que fazia uma festa ímpar de dentro do cockpit do carro da Lotus.
 
O dia 21 de abril de 1985 terminaria com uma cobertura extensa dos veículos de comunicação brasileiros. No fim da noite, num plantão do 'Fantástico', o então porta-voz da presidência, Antônio Britto, anunciou que, aos 75 anos de idade, Tancredo Neves morrera vítima de uma infecção generalizada.
 
Talvez por isso a memória de Senna ainda seja tão viva hoje, 21 anos após sua morte. Por vencer e aparecer com uma força dominante quando tanta gente no país precisava encontrar um motivo para torcer e confiar que daria certo. Não que Tancredo fosse um herói unânime, amado por todos. Era um articulador político inteligente, mas chamava a ditadura de revolução. Não era um ídolo inconteste. Mas era a porta de saída vista pelo povo aos anos de chumbo e a ignorância dos homens fardados. E quando o país se via no direito de ser órfão de um personagem tão peculiar, Senna apareceu. E se não para isso, para que servem os grandes do esporte?
 
E nos anos Sarney que se seguiram, com o Brasil numa espiral da morte na economia – com a inflação chegando a quase 400% e planos econômicos tão mirabolantes quando fracassados -, assim como nos anos Collor de congelamento e impeachment, e sem respaldo no futebol, Ayrton vencia e tinha a habilidade de falar o que os torcedores queriam ouvir. Tornava-se um dos grandes da F1 e um motivo pelo qual muita gente tinha para se orgulhar de bater no peito e dizer que era Brasil. Faça o juízo de valor que quiser de Senna, pouco vai mudar na relação de adoração que tanta gente, velhas e jovens e de todos os credos e raças, têm com ele.
 
E todo esse legado começou naquele dia de abril de 1985, no Estoril.