F1

Há dez anos, Schumacher conquistava sétimo título mundial e era reverenciado pela Ferrari: “Simplesmente o melhor”

Arrasador, Michael Schumacher nem deu esperanças a quem começou 2004 sonhando com o título da F1. Com vitórias em 12 das 13 primeiras corridas, sagrou-se campeão com quatro provas de antecipação. Foi há exatos dez anos, em Spa-Francorchamps, com um segundo lugar no GP da Bélgica

Warm Up / RENAN DO COUTO, de São Paulo
As palavras contidas na placa exibida pela Ferrari para Michael Schumacher na reta de chegada do GP da Bélgica de 2004 expressavam bem o sentimento do time com relação ao maior campeão da história da F1: “Simplesmente o melhor”. Há exatos dez anos, em um agitado dia 29 de agosto em Spa-Francorchamps, o alemão conquistava o último de seus sete títulos mundiais.

Quis o destino que a conquista fosse selada justamente na primeira corrida daquele campeonato que Schumacher não foi capaz de derrotar todos os adversários. Terminou em segundo, atrás da McLaren do então promissor finlandês Kimi Räikkönen. E ficou frustrado por isso. “Eu preferia conquistar o título com uma vitória”, lastimou. Isso não quer dizer, no entanto, que a festa tenha sido pequena.
Schumacher chega ao pódio de Spa-Francorchamps como heptacampeão mundial (Foto: Ferrari)
Em 2003, Schumacher não foi tão dominante. Garantiu o título apenas na última etapa, com um sofrido oitavo lugar, derrotando Räikkönen. Juan Pablo Montoya também foi longe e sonhou com a taça, mas acabou ficando em terceiro.

Isso deu esperança aos adversários. Hexacampeão mundial e vencedor de quatro campeonatos consecutivos, Schumacher parecia ter voltado ao mundo dos mortais. Mas a combinação entre ele e um bom carro da Ferrari tratou de arrasar com as melhores expectativas de adversários como Kimi, Montoya e Rubens Barrichello.

O começo de ano foi avassalador. Ganhou em Melbourne, Sepang, Sakhir, Ímola, Barcelona, Nürburgring, Montreal, Indianápolis, Magny-Cours, Silverstone, Hockenheim e Budapeste. Nesse intervalo, a única derrota aconteceu em Mônaco — e não foi por culpa dele.

Schumacher estava liderando o GP de Mônaco e lutava pela sexta vitória no Principado, que o colocaria em condição de igualdade com Ayrton Senna na pista. Mas, enquanto liderava durante um período de safety-car, foi abalroado por Montoya dentro do túnel. Quando os dois carros apareceram na chicane do Porto, só se via a Ferrari andando em três rodas de volta para os boxes. Aquele também foi o único abandono de Michael no ano.
Em um ano de corridas extremamente monótonas, GRANDE PRÊMIO chamou prova da Bélgica de "GP de verdade". Etapa que selou hepta de Michael Schumacher não foi exibida ao vivo na TV brasileira devido à final do vôlei masculino nas Olimpíadas de Atenas, que terminou com vitória do Brasil. F1 passou em VT por volta do meio-dia
Após o GP da Bélgica, Schumacher ainda conquistaria mais uma vitória, em Suzuka, estabelecendo o recorde de 13 triunfos no mesmo campeonato. A marca só foi igualada em 2013, pelo compatriota Sebastian Vettel, mas o herdeiro de Schumi precisou de uma corrida a mais para isso.

Curiosamente, o germânico não conseguiu ser tão dominante em 2004 no que dizia respeito às pole-position. Foram ‘apenas’ oito em 18 oportunidades. Aos sábados, seis pilotos conseguiram superá-lo: Barrichello (quatro vezes), Jarno Trulli (duas), Jenson Button, Ralf Schumacher, Fernando Alonso e Räikkönen (uma).

De qualquer forma, fato é que seus recordes só aumentaram durante aquele ano. Ao término daquele GP da Bélgica, ele somava 82 vitórias (aposentou-se definitivamente da F1 em 2012 com 91), 65 melhores voltas (77), 134 pódios (155), 1158 pontos (1566), 4600 voltas na liderança (5111) e 123 GPs liderados (142). Um recorde que ainda não lhe pertencia era o de pole-positions, conquistado só dois anos mais tarde. Ao todo, largou na primeira posição do grid 68 vezes.

As imagens da conquista do sétimo título de Michael Schumacher na F1  

O título encerrou aquela que ficou conhecida na história da F1 como 'Era Schumacher'. O trabalho que conduziu ao penta consecutivo teve início em 1996, quando o piloto trocou a Benetton pela Ferrari como parte da formação do dream team liderado por Jean Todt. Ross Brawn e Rory Byrne também se tornaram personagens fundamentais para o sucesso do time que, na realidade, deveria ter conquistado seis canecos de Pilotos seguidos, não só de Construtores, não fosse o acidente que quebrou a perna de Schumi no GP da Inglaterra de 1999.
Celebração da Ferrari pelo heptacampeonato de Michael Schumacher em Spa (Foto: Ferrari)
Em 2005, Alonso e a Renault mudaram a cor que se destacava no Mundial, passando do vermelho para o azul. O principal fator que contribuiu para isso foi a proibição da troca de pneus durante as provas, com a Michelin fazendo um trabalho bem superior ao da Bridgestone. Em 2006, o último ano de sua primeira passagem pela F1, o heptacampeão voltou a disputar o título e fez frente a Alonso até a última prova, o GP do Brasil, quando um pneu furado ainda nas voltas iniciais tirou qualquer chance de sucesso. Ainda assim, ele deu show para se despedir da categoria e da Ferrari.

Só é uma pena que Schumacher não possa fazer grande festa pela data especial. O piloto continua internado devido ao grave acidente de esqui que sofreu no dia 29 de dezembro de 2013, em Méribel, nos Alpes Franceses. Michael teve traumatismo craniano grave e permaneceu em coma por quase seis meses no Centro Hospitalar Universitário de Grénoble. Em junho, quando seu quadro apresentou melhora, foi transferido para uma clínica em Lausanne, na Suíça, onde permanece desde então. Schumacher tem 45 anos, é casado com Corinna e pai de Mick e Gina-Maria.

Pacote GRANDE PRÊMIO para o GP de Abu Dhabi de F1: 
O homem que só sabe ganhar

FLAVIO GOMES, de Spa-Francorchamps
Texto publicado pelo GRANDE PRÊMIO em 30 de agosto de 2004
Ao receber a bandeirada em segundo lugar no GP da Bélgica ontem, em Spa, Michael Schumacher teve tempo de ler o recadinho que a Ferrari lhe passou através de uma placa de "pitwall", aquela que os mecânicos mostram aos pilotos para indicar em que posição estão, quem está atrás, quem está na frente. Normalmente essas mensagens são bem curtas, números e nomes abreviados, porque a 300 km/h não dá tempo de ler muita coisa.

Mas a placa de ontem podia ser lida com calma, o alemão já havia cruzado a linha e, como faz tradicionalmente, jogou o carro para perto do muro para comemorar perto do time mais uma vitória. Sim, ele foi segundo. Mas era o que precisava para assegurar o sétimo título mundial. Uma vitória, de certa forma. E a placa tinha quase um discurso, pelos padrões minimalistas da comunicação entre piloto e box. Dizia: "Michael - 7 volte campione del mondo - Simply the best".

Sete vezes campeão do mundo. Simplesmente o melhor. 

É muito difícil discordar do conteúdo da placa. Falar de Michael Schumacher, 35 anos completados em 2 de janeiro, tem sido um exercício de repetição nos últimos anos. Nos últimos cinco, para ser preciso. O alemão é campeão seguidamente desde 2000. Detém todos os recordes estatísticos da F1, menos o de poles, que vai cair mais cedo ou mais tarde. Seus números são todos superlativos. É o piloto com mais títulos (7), vitórias (82), melhores voltas (65), pódios (134), pontos (1.158), voltas na liderança (4.600), GPs liderados (123), vitórias seguidas (7), vitórias na mesma temporada (12, até agora), pontos no mesmo ano (144, em 2002, e deve cair ainda este ano) e mais alguns, tantos que se torna cansativo esmiuçar, porque na verdade Schumacher não se traduz em números, apenas. 

Ele mesmo não gosta muito de falar deles. É clássica sua frase sobre a sanha estatística que acorre a cada conquista, que número é para lembrar quando ele estiver velho sentado diante da lareira. Quando empatou em títulos com Fangio, em 2002, recusou comparações. No ano passado, ao deixar o argentino para trás, disse que jamais seria tão bom quando o lendário piloto que dominou a F1 nos anos 50. Ao igualar as vitórias de Senna, há quatro anos em Monza, chorou como uma criança. 

Michael descreveu seu estado de espírito em Suzuka, na última prova de 2003, como "estranho". Ele chegou em oitavo e conquistou o hexa. Ontem, se disse "pensativo". Como no Japão, não ganhou a corrida. O título não parece tê-lo deixado mais feliz do que de costume. Menos, na verdade. Não se notou em Schumacher, mesmo depois de alcançar uma marca histórica, que possivelmente nenhum de nós verá ser batida, a alegria juvenil demonstrada já 12 vezes neste ano, em cada uma das vitórias que conseguiu, tenham sido elas fáceis ou difíceis, suadas ou tranquilas. 

Porque Schumacher gosta de ganhar corridas. Quando não ganha, fecha a cara. Ser campeão, em sua lógica inatacável, é a consequência direta e menor daquilo que ele preza: a vitória. Por isso estava pensativo ontem. E estranho em Suzuka. Ontem, deve ter ido dormir pensando no porquê de não ter chegado em primeiro. No Japão, em outubro do ano passado, foi tudo tão esquisito, fez uma corrida tão ruim, que tomou um porre e quebrou janelas, cadeiras e geladeiras como um adolescente revoltado. 

São 13 anos de F1, de uma carreira que começou polêmica, o moleque arrogante que ousou desafiar os medalhões da época, e que de repente, a partir de maio de 1994, quando Senna morreu, viu-se sozinho, sem medalhões para dividir os holofotes. Virou a estrela única de um esporte milionário que só preza quem vence. 

Assim, havia um único caminho ao alemão de queixo grande e talento enorme para ganhar o respeito do mais exigente dos mundos: vencer, vencer tudo. É o que vem fazendo há anos. Só que às vezes não dá e o sorriso rasgado e o salto glorioso no pódio dão lugar a um ar pensativo e a uma voz baixa, quase envergonhada, para explicar uma derrota. Como ontem, no dia em que foi heptacampeão. Mas perdeu. E isso o homem que só sabe ganhar não tolera.

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