Hamilton diz que assassinato de George Floyd gerou mudança: “Não posso ficar em silêncio”

Lewis Hamilton revelou que ver as imagens chocantes do assassinato de George Floyd por um policial norte-americano levou a uma mudança de postura e à luta pública contra o racismo. O agora heptacampeão contou também que há pilotos no grid que não sabem o significado de se ajoelhar. Mesmo diante da luta em um esporte predominantemente branco, Hamilton garante: “É importante continuar fazendo isso”

Em meio à pandemia e durante o período em que a Fórmula 1 aguardava para retomar as atividades e iniciar a temporada 2020, o assassinato de George Floyd, homem preto de 40 anos sufocado pelo joelho do policial branco Derek Chauvin no mês de maio em Minneapolis, Estados Unidos, provocou uma grande mudança em Lewis Hamilton. Sempre ativo nas redes sociais e constantemente marcando posição em temas-chave como meio ambiente, o piloto assumiu uma luta pública contra o racismo e a repressão policial. Mas Hamilton não foi só voz ativa nas redes sociais: o agora heptacampeão foi para as ruas em Londres protestar e levou o debate para dentro da própria equipe: “Não é suficiente ser racista. Você tem de ser antirracista”.

Consagrado como o maior campeão e vitorioso na Fórmula 1 em todos os tempos, Hamilton concedeu entrevista ao jornal britânico ‘The Guardian’. E contou que, num primeiro momento, quando começou a empilhar títulos na principal categoria do esporte a motor, acreditou que seu êxito seria responsável por gerar mudanças no esporte, com mais presenças de pretos. Mas não foi isso o que aconteceu, e Lewis teve de repensar.

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Lewis Hamilton
Lewis Hamilton protestou contra o racismo nas ruas de Londres (Foto: Reprodução/Instagram)

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“Assistir George por aqueles oito minutos e 30 segundos, como para tantas outras pessoas, trouxe tanta emoção que nem havia percebido que havia obstruído e reprimido isso ao longo do tempo”, revelou o britânico de 35 anos.

Ao ver que o racismo segue muito enraizado na sociedade, Hamilton disse que suas conquistas nas pistas só têm valor se for possível ajudar a mudar a realidade.

“Competir e conquistar títulos é ótimo, mas o que isso realmente significa? Não significa nada, ao menos que você possa ajudar a impulsionar a mudança. Não posso ficar em silêncio durante este tempo. Decidi que devo usar esta plataforma. Há tantas pessoas por aí que estão lutando e tantas que passaram pelo que vivi, e pior”, salientou.

“Não é suficiente não ser racista. Você tem de ser antirracista. Você tem de ser contra o racismo e apoiar esses movimentos. Veja a NBA, que tem sido incrível. Fiquei muito, muito surpreso e impressionado com o que as pessoas têm feito, com o que as organizações do futebol têm feito”, explicou Lewis.

Hamilton lembrou que o desafio sobre lutar contra o racismo e falar sobre o tema em um esporte esbranquiçado e elitista como a Fórmula 1 é muito mais difícil. O dono de 94 vitórias no Mundial lembrou que há pilotos no grid que não têm a menor ideia do que significa o gesto de se ajoelhar. Nomes como Charles Leclerc, Max Verstappen, Kimi Räikkönen, Carlos Sainz, Daniil Kvyat, Antonio Giovinazzi e Kevin Magnussen decidiram não aderir ao gesto antes das largadas do Mundial de F1 neste ano.

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Lewis Hamilton falou sobre os pilotos que não se ajoelham em gesto contra o racismo (Foto: Mercedes/LAT Images)

“Estou em um esporte dominando pelos brancos e, como você sabe, você tem de ter muito, muito cuidado com a forma como você aborda isso, o que você diz, porque as pessoas vão usar suas palavras contra você na maioria das vezes”, disse. “Há alguns pilotos com quem trabalhei que ajoelharam no começo e disseram: ‘Por quanto tempo devo fazer isso?’. E é uma pergunta interessante para eles porque, obviamente, mostra uma falta de compreensão”, lembrou Hamilton.

Mesmo ciente da forma como sua luta pode ser encarado por quem jamais teve a ideia do que é racismo, Lewis assegura que não vai desistir ou parar de se manifestar e continuar lutando.

“É muito simbólico seguir usando essa plataforma e usar essa mensagem. É importante continuar fazendo isso, para seguir mantendo a consciência, porque, de outra forma, essa coisa poderia ter uma morte silenciosa e voltar a ser como era no passado. Então, não vejo isso mudando por algum tempo”, comentou.

Ao diário, Hamilton explicou como ajudou a provocar uma das mudanças mais simbólicas na F1 neste ano. A Mercedes, que tradicionalmente corre com a cor prata, mudou neste ano seu layout para a temporada e pintou seus carros de preto como forma de aderir aos protestos antirracistas com o propósito não apenas de mudar somente a pintura, mas também a postura de ampliar a diversidade na contratação de funcionários.

“Escolhemos correr com um layout totalmente preto como uma promessa pública para melhorar a diversidade da nossa equipe, e uma declaração clara de que nos posicionamos contra todas as formas de discriminação. É tão grande que a Mercedes tenha tirado o prata. Houve muita conversa de bastidor, criando um diálogo e explicando a eles a importância disso. Demorou um pouco. Mas estou muito orgulhoso desta equipe por se responsabilizar e dizer: ‘Não fizemos o suficiente, mas podemos avançar mais, e é isso o que vamos fazer”, disse.

“Então, quando conversamos, todas as semanas, o departamento de RH me explica os processos que estão fazendo para tentar melhorar sua compreensão e o processo de recrutamento. E, você sabe, isso me deixa muito orgulhoso e mais disposto a ir e lutar por eles na pista”, salientou.

FÓRMULA 1; F1; TOTO WOLFF; MERCEDES;
A Mercedes, liderada pelo Toto Wolff, marca posição no meio da F1 contra o racismo (Foto: Mercedes/Twitter)

Hamilton luta em várias frentes para tornar o esporte a motor mais inclusivo, e isso passa pela recém-criada Comissão Hamilton, que visa impulsionar não apenas a carreira de pilotos pretos, mas de promover a diversidade como um todo em vários ramos de atuação, como engenharia, ciência, tecnologia, matemática e marketing. O projeto é desenvolvido ao lado da Academia Real de Engenharia do Reino Unido.

Ciente de que está na fase final da mais laureada carreira de um piloto na história, Hamilton deixou claro que quer deixar um legado que vá muito além das vitórias, dos títulos e dos recordes. “Quero olhar para a F1 daqui a 10 anos e realmente ver a mudança porque sim, nós temos esse movimento Black Lives Matter e há um microfone e as pessoas estão te ouvindo, mas você tem de trabalhar muito para ativar a mudança”.

“Vou precisar seguir trabalhando com esses caras em segundo plano. Você não vai me ver na pista, ou dificilmente vai me ver na pista, mas estou agora conversando com a Liberty e a F1, mais a longo prazo, para tentar ajudá-los a progredir na direção certa e a continuar a atrair novos públicos. Por outro lado, não quero que o tempo passe rápido. Por outro lado, mal posso esperar para começar este novo capítulo da minha vida. Vai ser um desafio, mas é disso que se trata”, concluiu o heptacampeão Lewis Hamilton.

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