F1

Ímola/94: o mais trágico dos fins de semana, as mortes de Senna e Ratzenberger e a história que mudou a F1

Ayrton Senna e Roland Ratzenberger morreram no final de semana mais trágico da história da F1 em Ímola. A partir dali, muita coisa mudou na segurança dos pilotos, nos carros e nas pistas

Grande Prêmio / GABRIEL CURTY, de São Paulo
O GP de San Marino de 1994 foi um dos mais marcantes e mais trágicos da história da Fórmula 1 e do esporte a motor. A 14ª edição da prova no circuito de Ímola ficou para sempre como um dos únicos dois finais de semana de corridas em que morreram dois pilotos: Ayrton Senna e Roland Ratzenberger.
 
A outra ocasião em que dois membros do grid tinham perdido a vida foi o GP da Bélgica da longínqua temporada de 1960. Em Spa-Francorchamps, Stirling Moss e Mike Taylor tiveram lesões sérias durante os treinos livres e, na corrida, Chris Bristow e Alan Stacey sofreram acidentes fatais.
 
Só que os tempos eram outros na principal categoria do automobilismo mundial. Os carros eram muito mais modernos, as pistas, teoricamente, muito mais seguras. Havia na época uma sensação de falsa segurança causada pelo fato da F1 ter passado quase oito anos sem nenhuma morte em um carro da categoria - 12 anos em finais de semanas de corrida - e a considerável redução nos acidentes graves. Mas tudo aquilo foi se desfazendo com o passar da etapa em San Marino.
Barrichello se lesionou, e não correu o resto do fim de semana (Foto: Getty Images)
O que se viu em Ímola era um clima de tensão, um ar extremamente carregado por conta de tudo que aconteceu no final de semana. E isso começou já nos treinos livres, na sexta-feira.
 
Ainda no TL1, Rubens Barrichello, em seu segundo ano de F1, deu um susto imenso. Em um acidente horrível, o paulista da Jordan foi arremessado ao topo da barreira de pneus na curva Variante Bassa, sofrendo um impacto de nada menos que 95 g. 
 
Barrichello foi levado ao Hospital Maggiore, em Bolonha, mas, apesar do incidente ter sido bastante impressionante, teve 'apenas' um nariz quebrado e uma lesão no braço que recebeu um gesso. No entanto, ainda que estivesse tudo certo com o brasileiro, era um sinal grande de que a insegurança rondava em San Marino.
 
O sábado de classificação foi histórico no pior sentido da palavra. 12 anos após a morte de Riccardo Paletti no GP do Canadá, uma etapa da F1 voltava a ver uma morte na pista. Com um dano na asa dianteira já da volta anterior, o austríaco Ratzenberger seguiu acelerando sua Simtek e, a 306 km/h, viu a asa quebrar de vez, perdendo o controle na curva Villeneuve e batendo com violência no muro.
Roland Ratzenberger morreu no sábado (Foto: Rainer Nyberg)
O impacto gerou uma fratura basal craniana e, pouco tempo mais tarde, já no hospital, Roland morreu aos 33 anos por múltiplas lesões sofridas. A repercussão foi imediata e alguns pilotos sequer queriam correr com medo do que poderia acontecer. Sid Watkins, que era chefe do time médico da categoria, contou até que pediu para Senna ajudar a cancelar a prova e que o brasileiro era um dos mais abalados pela morte de Ratzenberger.
 
Só que a corrida aconteceu, mesmo após um briefing acalorado em que Ayrton reclamou muito das condições de segurança da pista. Veio a largada, e o primeiro acidente forte aconteceu ainda no grid. A Benetton de JJ Lehto não largou e Pedro Lamy, de Lotus, acertou em cheio a traseira do finlandês. A pancada foi tão grande que um pneu se soltou e feriu nove pessoas ao atravessar uma cerca que protegia da pista.
 
 
O safety-car ficou na pista até o fim da quarta volta e, dois giros mais tarde, aconteceu o acidente que mudaria completamente a história da segurança na F1. Ayrton Senna, pole e líder da prova com a Williams, tricampeão do mundo e um dos maiores pilotos do esporte a motor no mundo, passou reto a 210 km/h e bateu com força na curva Tamburello, a mesma em que Nelson Piquet colidira em 1987 e Gerhard Berger em 1989.
 
A violência da batida foi tamanha que, após o impacto, o carro #2 voltou rodando e quase voltou para a pista, já bastante destruído. A bandeira vermelha foi logo acionada e o corpo médico chegou dois minutos depois ao ponto que o brasileiro havia batido. Apesar de um movimento com a cabeça, Ayrton foi removido do carro da Williams pelos médicos.
Ayrton Senna sofreu o acidente quando liderava a prova (Foto: Daniele Amaduzzi)
Ainda na pista, a equipe médica constatou perda de massa encefálica e realizou uma traqueostomia no piloto, que sofrera parada cardíaca. Senna foi encaminhado ao Hospital Maggiore de helicóptero. Recebeu uma transfusão sanguínea que o manteve vivo por mais algumas horas, com funções vitais e respiração estáveis. Porém, não havia mais atividade neurológica e poucas horas depois, a morte cerebral do piloto foi anunciada.
 
Responsável por uma legião de fãs pelo mundo e por ajudar sensivelmente na popularização do esporte a motor no Brasil, Ayrton Senna morreu aos 34 anos, apenas três corridas após iniciar sua trajetória na Williams, carro inovador que sonhou guiar enquanto estava na McLaren, equipe pela qual conquistou os três canecos mundiais.
 
A corrida em Ímola ficou completamente em segundo plano após o acidente de Senna. Sem o brasileiro, Michael Schumacher marchou para uma vitória bem tranquila, com 54s942 de vantagem para Nicola Larini e 1min10s679 na frente de Mika Häkkinen. Christian Fittipaldi estava na zona de pontos, mas abandonou após uma rodada nas voltas finais.
O pódio em San Marino (Foto: LAT)
Para o campeonato, a consequência imediata foi Schumacher praticamente encaminhando o título em apenas três corridas. O alemão da Benetton tinha 30 corridas contra apenas sete de Damon Hill e Barrichello, que vinham atrás e tinha Lehto, muito mais fraco, como companheiro - Jos Verstappen e Johnny Herbert também passaram pelo time. 
 
Lá na frente, mesmo com duas desclassificações e mais duas corridas de suspensão por ignorar bandeira preta, Schumacher ainda conseguiu ser campeão em cima de Hill.
 
Mas as consequências da morte de Senna - e de Ratzenberger também - foram muito maiores do que apenas o resultado da corrida ou do campeonato. A segurança da categoria, das pistas e até o código de postura dos pilotos, tudo mudou drasticamente.
 
A declaração pós-prova de Schumacher é basicamente um resumo de como foram as mudanças na F1 após o acidente de Senna. Simplesmente não havia mais como os pilotos ficarem longe das decisões da categoria e era necessária a união. Além disso, pistas e carros passaram a ser analisados com muito mais cuidado.
Michael Schumacher puxa a fila em Ímola (Foto: LAT)
“O acidente pareceu perigoso, mas eu não tive a impressão de que poderia ser tão grave quanto o que ocorreu ontem. Eu sabia que estava tudo certo no meu carro e que nada daquilo aconteceria comigo. Sem dúvidas, é importante que todos saibam se os carros de fato estão em condições para a corrida. Nós deveríamos ter feito as mudanças de segurança antes. Estávamos conversando sobre isto, com Ayrton, Gerhard Berger e Michele Alboreto, planejávamos um encontro em Mônaco. Por mim, começava agora a trabalhar para melhorar a nossa segurança”, falou.
 
Grande rival de Senna, Alain Prost lamentou muito a morte do brasileiro e tratou de jogar luz no problema da segurança na categoria. O francês, na época, citou uma ordem equivocada de prioridades para pilotos e organizadores.
 
“Todos esses problemas não acontecem à toa. Nos esquecemos de pensar na segurança. Quando os carros estão naquela velocidade, não há o que fazer se algo dá errado. O objetivo não é fazer uma corrida mais segura, mas uma corrida melhor para o público. Há dois anos que não se fala mais em segurança. Existe uma desunião enorme entre os pilotos. Eles se tornam, assim, vítimas diretas dos desejos e vontades de patrocinadores, organizadores e empresários. É muito importante que se saiba que a F1 hoje é um grande negócio, um negócio de enormes proporções, que move quantias gigantescas de dinheiro. É um escândalo ver todos esses acidentes após tudo o que foi dito. Não faz parte do esporte, é um escândalo", avaliou.
 
Outro ex-membro do grid que falou em tom bastante crítico após a morte de Senna foi Jackie Stewart, que também colocou no pacote de mudanças necessárias a união dos pilotos e mudanças em alguns circuitos. Piquet, aliás, já havia dito que a Tamburello precisava ser modificada.
 
“Eles precisam pressionar as autoridades esportivas. Unidos, poderiam se recusar a correr em circuitos perigosos. O que aconteceu em Ímola este final de semana mostrou como o circuito é perigoso", disse o escocês.
JJ Lehto e Pedro Lamy se bateram na largada (Foto: Rainer Nyberg)
Ainda em recuperação pelo grave acidente sofrido nos treinos livres, Barrichello também cobrou novidades imediatas para segurança.
 
"O maior piloto de todos os tempos morto tragicamente, com certeza tudo vai ter de ser revisto", disse o jovem piloto da Jordan ao jornal 'Folha de S.Paulo'.
 
As novidades na parte de segurança foram várias nos anos que se passaram. Além do fato óbvio de que os pilotos se uniram muito mais e começaram a brigar juntos por condições melhores nas pistas, outras mudanças práticas aconteceram.
 
As diferenças mais fáceis de serem identificadas estavam nas pistas. Ímola mesmo teve a Tamburello e a Villeneuve virando chicanes, a Eau Rouge foi modificada na Bélgica e, mais do que o desenho em si, os circuitos passaram a ter outros tipos de proteção que não muros de concretos. Com o passar dos anos, aumentaram as áreas de escape surgiram os soft-walls. 
A morte de Ayrton Senna mudou a segurança da F1 (Foto: Fernando Passos)
A equipe médica também foi melhor espalhada pela pista do que antes. Agora, um acidente sério levaria cerca de 30 segundos para ter o resgate iniciado e não mais dois minutos como aconteceu com Senna. Para os pilotos, proteções diferentes como um capacete mais resistente e amplamente testado e a criação do HANS, feito para proteger pescoço e cabeça de fortes impactos.
 
Nos carros, um foco muito grande na célula de sobrevivência, que se tornou ainda mais forte e defendendo o cockpit. Um exemplo foi o acidente de Robert Kubica no Canadá, com o carro se destruindo, mas a célula seguindo intacta com o piloto ali. 
 
Foram 20 anos sem que nenhum acidente fatal ocorresse durante uma prova da F1, prova de que as medidas após as mortes de Ratzenberger e Senna funcionaram bem. Foi em 2014, com Jules Bianchi batendo num trator durante o safety-car, que essa sequência caiu. A resposta veio pouco tempo depois, com a introdução do Halo, hoje já peça indiscutível no carro da categoria.


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