Interlagos, 80: do renascimento nos anos 90 a incerteza do GP do Brasil

No mesmo ano em que Interlagos completa 80 anos, São Paulo vê o término do atual contrato com a F1 para receber o GP do Brasil. Apesar do interesse das partes em uma eventual renovação, o futuro é incerto. Além da concorrência do Rio de Janeiro — e um obscuro pool por trás de um projeto de circuito que sequer existe —, a pandemia do novo coronavírus torna a manutenção do evento na capital paulista um enorme ponto de interrogação

_ Interlagos completa 80 anos envolto em incerteza sobre concessão

Assim como quis João Doria quando assumiu a prefeitura de São Paulo em 2017, Interlagos esteve perto de desaparecer para dar lugar a um conjunto residencial a partir dos anos 1990. Só que Luiza Erundina, a primeira mulher a assumir o comando da capital paulista, em 1989, lutou para não apenas manter Interlagos, mas também para trazer de volta o GP do Brasil de F1.

 
A hoje deputada estadual pelo PSOL revelou, em entrevista exclusiva à Revista WARM UP, como foi a corrida contra o tempo para evitar que o país perdesse seu principal evento automobilístico.
 
“No comecinho do governo, fui visitar os equipamentos, as instalações da prefeitura e fui visitar Interlagos. Fiquei espantada por ver uma área de 1 milhão de m² em uma região muito valorizada. No entorno dela, havia todo um cinturão de favelas, pobreza e miséria. E aquele espaço estava sendo usado para as atividades de kart. Pessoas com poder aquisitivo muito alto usavam aquilo para corridas de kart ou de automóvel, a prefeitura mantendo aquilo, e havia uma equipe de funcionários que fazia toda a manutenção. Aquilo custava caro. Parecia um casarão velho e deteriorado, mas custando caro para a cidade”, comentou a ex-petista.
A então prefeita Luiza Erundina ao lado do Piero Gancia, que era presidente da CBA, na época da reforma do autódromo (Foto: Arquivo/Luiza Erundina)
“Naquela ocasião, eu disse: ‘Bom, ou a gente coloca esse autódromo em condições de representar alguma coisa para a cidade, ou é melhor transformar essa área em um conjunto habitacional’, que era o que meu partido gostaria que eu tivesse feito. O que fazia todo sentido. Era minha luta, inclusive. Vi que aquela área daria um conjunto habitacional com milhares de casas. Mas aquilo não resolveria o problema de habitação da cidade, e nós deixaríamos de ter uma receita para São Paulo. Intuí isso”, disse.
 
Mas a mudança do GP do Brasil do Rio para São Paulo só foi possível graças a um homem, pouco conhecido do público geral, mas talvez o maior responsável pelo país ainda ter uma corrida de F1. Piero Gancia, na época presidente da CBA (Confederação Brasileira de Automobilismo), conheceu a prefeita, e os dois fecharam um acordo: o pai de Carlo Gancia e da jornalista Barbara Gancia manteria o GP do Brasil, e a prefeitura reformaria o autódromo.
 
“Procurei o Piero, que era o representante do Brasil na FIA. Ele confiou e gostou de mim. Devo muito a ele. São Paulo deve muito a ele. Foi ele quem me ajudou a lutar contra os órgãos internacionais, que se sentiam pressionados, inclusive por outros países, para conseguirem levar um GP de F1 para suas nações”, contou a política. “Se não tivesse vindo para São Paulo, o Brasil perderia. Porque em Jacarepaguá houve um grande acidente, e o piloto ficou paraplégico”, continuou a deputada federal, fazendo menção à batida brutal sofrida por Phillippe Streiff nos testes de pré-temporada de 1989 com a AGS.
 

Com o Rio de Janeiro sem condições e Goiânia — palco de provas do Mundial de Motovelocidade entre 1987 e 1989 — sem um circuito capaz de reunir segurança suficiente para receber um GP de F1, o Brasil estava, de fato, prestes a perder seu GP de F1. “Junto com o Gancia, entrei em campo e disse: ‘Olha, Piero, faça o que você puder, me ajude, e a prefeitura garante a reforma do autódromo’. E só tínhamos alguns meses no calendário”, relembrou Erundina.
 
O prazo realmente era curto: somente quatro meses. “A corrida era em março e nós estávamos em novembro, e iniciando o governo com muitas dificuldades, com dívidas, com a pressão da população por demanda de saúde, de educação, de pavimentação, de canalização de córregos e pleito por moradia. Mas eu fiz um cálculo com meu secretário de finanças e disse: ‘Se a gente trouxer esse GP, isso passa a ser uma fonte de receita para a cidade’. Imagine que todos os anos teríamos uma corrida de F1, além de outros eventos que são realizados na pista. Então, a partir daí, falei: ‘Vou conseguir recursos, e vamos recuperar o autódromo’”.
Ayrton Senna também participou das reformas (Foto: Arquivo/Luiza Erundina)
Luiza relembrou a importância de Gancia para a sobrevida de Interlagos. “Ele estava em Paris, em uma reunião da FIA. Ele me ligou e disse: ‘Prefeita, estou aqui para decidir o calendário da F1 e estou dependendo da sua última palavra. Gostaria de saber se a senhora garante, de fato, essa reforma dentro do prazo’. E eu respondi que ele podia fechar, porque eu garantia”.
 
Com o acordo firmado entre a prefeitura de São Paulo e a CBA, por intermédio da FIA, faltava conseguir os recursos para que a obra se tornasse viável. Então, Erundina procurou por parcerias na iniciativa privada, o que a levou até a Shell. 
 
“Depois que eu consegui que São Paulo fosse incluída no calendário, teríamos de garantir uma condição satisfatória para o autódromo. Então, procurei a Shell e ofereci um empréstimo de 20 terrenos da prefeitura para que eles pudessem instalar postos de combustível. Em contrapartida, eles bancariam os custos da reforma, que na época estava orçada em US$ 3,5 milhões (R$ 20,2 milhões em valores de hoje). E a Shell pagaria, por mês, 5% dos seus lucros brutos daqueles 20 postos de gasolina aos cofres municipais. E, também, eles repassariam 50 ônibus para serem integrados à frota da CMTC — Companhia Metropolitana de Transportes Coletivos —, que estava deficitária”, continuou.
 
A Shell contratou a Vega Sopave, empreiteira que ficou responsável por realizar as reformas e deixar o autódromo pronto dentro do prazo. Daí em diante, três outros personagens foram fundamentais para o desenho do ‘novo Interlagos’. Carlos Montagner, por muitos anos diretor de prova do GP do Brasil, foi o arquiteto que orientou as reformas do autódromo. Chico Rosa, administrador de Interlagos à época, propôs uma grande mudança no traçado. E Ayrton Senna, campeão mundial de F1 e maior estrela do esporte naquele tempo, colocou sua marca com o S do Senna, trecho que representou a ligação entre o antigo e o novo traçado.
 
“Houve grandes mudanças no autódromo: a diminuição do traçado, toda a reconstituição do piso, da pista e a construção de novos espaços para a imprensa e ambulatório. Chegamos nas últimas horas antes do GP, e algumas coisas ainda não haviam sido concluídas. Mas realizamos o GP no dia 25 de março de 1990. Fechamos um contrato de cinco anos, que foi renovado por mais cinco”, explicou Erundina. Desde aquele ano, o GP do Brasil de F1 nunca mais saiu da capital paulista.
 
E o futuro?
Interlagos está no último ano de contrato com a F1 (Foto: Rodrigo Berton/Grande Prêmio)
Palco de alguns dos maiores momentos da história da F1, como a mais incrível decisão de título, travada em 2008, Interlagos é adorada por pilotos de todos os cantos, que não se cansam de exaltar a sua história. A pista paulista, de fato, quase sempre rende corrida boa.
 
Ao longo dos últimos dez anos, Interlagos passou por uma série de reformas e adequações para conseguir se manter no calendário da F1. Além das obras que buscaram ampliar as condições de segurança, toda a instalação de boxes, torre de controle, paddock e área para imprensa e convidados foi completamente remodelada, tendo início na administração de Fernando Haddad e com a sequência nas gestões de Doria e Bruno Covas. A última parte de um longo projeto de obras era a cobertura do paddock, prevista para ser entregue em fevereiro deste ano com a etapa do Mundial de Endurance. Algo que não aconteceu, nem prova nem reforma.
 
Contudo, no mesmo ano em que Interlagos completa 80 anos, São Paulo chega ao término do seu contrato para receber o GP do Brasil. A permanência ou não da corrida em solo paulistano — e brasileiro — ainda é uma completa incógnita. Desde que Doria assumiu a prefeitura de São Paulo, a gestão municipal trabalha para repassar a administração de Interlagos para a iniciativa privada. Em princípio, Doria trabalhou para privatizar o complexo, mas o prefeito teve de mudar os planos depois de muita pressão e luta da comunidade do esporte a motor.
 
Quando foi eleito governador de São Paulo, Doria deixou a administração da capital paulista para Bruno Covas, que mudou o plano original e começou a trabalhar no projeto de concessão de Interlagos, algo que já foi feito, por exemplo, com o estádio do Pacaembu. Contudo, recentemente o edital de licitação foi suspenso pelo Tribunal de Contas do Município por conta de irregularidades no processo e não tem data ainda para ser retomado.
 
Além da incerteza sobre o futuro do autódromo em si, é impossível ainda considerar se Interlagos vai seguir como palco do GP do Brasil. Nos últimos anos, o Rio de Janeiro surgiu como interessado em voltar a receber a etapa nacional da F1 e tem como cabeça do projeto o obscuro consórcio Rio Motorsports. A empresa planeja a construção de um circuito na região de Deodoro, na Zona Norte da capital fluminense, mas não dispõe dos cerca de R$ 800 milhões da construção do complexo, contando assim com o apoio governamental da tríade formada pelo presidente Jair Bolsonaro, pelo governador Wilson Witzel e pelo prefeito Marcelo Crivella.
 
Só que, em meio a tudo isso, a pandemia do novo coronavírus devastou os já combalidos cofres públicos de um estado praticamente falido. E mesmo São Paulo, na luta para cuidar dos seus na luta contra o inimigo invisível, tem na permanência do GP do Brasil na cidade a menor das prioridades em um momento em que o cenário tende a ser ainda mais catastrófico e letal.
 
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