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F1

Kaltenborn assume comando da Sauber, faz história e vira primeira mulher chefe de equipe na F1

Dois dias antes de completar 69 anos, Peter Sauber cumpriu com sua promessa de deixar o pit-lane da F1. O lendário dirigente suíço oficializou na manhã desta quinta-feira (11), em Yeongmam, na Coreia do Sul, que Monisha Kaltenborn, de 41 anos, será a nova chefe de equipe da Sauber

Warm Up / Redação GP, de Sumaré

Foi no mês de abril que Peter Sauber anunciou que sua carreira como chefe da equipe que leva seu nome estava chegando ao fim. “Sempre disse que não estarei no pit-wall quando tiver 70 anos”. Um ano e dois dias antes de virar septuagenário, o lendário dirigente suíço convocou a cúpula da Sauber na manhã desta quinta-feira (11), em Yeongam — palco do GP da Coreia do Sul — para confirmar que, de agora em diante, Monisha Kaltenborn, de 41 anos, será a nova comandante do time. Nascida em Dehardun, na Índia, mas dona de cidadania austríaca, Monisha faz história ao ser a primeira mulher chefe de equipe da F1, a principal categoria do esporte a motor.

Monisha assume a Sauber na melhor fase da história da equipe. O time, sediado em Hinwil, na Suíça, já somou nada menos que quatro pódios — três de Sergio ‘Checo’ Pérez e um de Kamui Kobayashi — e tem 116 pontos, apenas 20 a menos em relação a Mercedes, quinta colocada do Mundial de Construtores. O momento, claro, é dos melhores para a chegada de Monisha. Na verdade, a dirigente indo-austríaca, então diretora-executiva da Sauber, já comandava a equipe no pit-wall nas últimas corridas, quando Peter Sauber não pôde comparecer, como em Suzuka.

Lendário Peter Sauber entrega o comando da sua equipe a Monisha em Yeongam (Foto: Sauber/Facebook)

Em uma entrevista coletiva improvisada no paddock de Yeongam, Sauber, um dos últimos garagistas da F1 e dono de uma carreira de mais de 40 anos dedicados ao automobilismo, confirmou a passagem de bastão e a entrega do comando da sua equipe a Monisha Kaltenborn.

“Há muito tempo decidimos que Monisha me substituiria, mas deixamos a data em aberto. Mas agora é um bom tempo para nós, então este é o momento certo para passar o bastão. Afinal, houve uma série de corridas em que estive impossibilitado de comparecer — como, recentemente, o GP do Japão —, onde a equipe teve um excelente desempenho”, lembrou Sauber. Em Suzuka, Kobayashi sempre esteve entre os primeiros e conquistou o primeiro pódio da sua carreira como piloto de F1.

“Não tenho dúvidas de que Monisha tem todo o talento necessário para ser uma excelente chefe de equipe, e estou igualmente certo que ela vai garantir os valores que sustentam a vida da equipe. Isto é muito importante para mim”, salientou o sempre comedido Peter Sauber.

Formada em Direito pela Universidade de Viena, cidade onde viveu desde menina, Kaltenborn chegou à Sauber em 2000 como chefe do departamento jurídico, mas pouco a pouco se tornou uma das peças fundamentais da equipe. A ponto de, dez anos depois da sua chegada à equipe suíça, Monisha ter sido nomeada diretora-executiva. Em maio deste ano, Peter Sauber lhe entregou um terço da equipe, ratificando a confiança em seu trabalho.

A partir de agora, Monisha vira a mulher mais poderosa da F1, já que a nova chefe de equipe da Sauber tem papel decisivo nas negociações do novo Pacto da Concórdia, documento que rege a distribuição dos lucros entre as equipes, Bernie Ecclestone e a FIA (Federação Internacional de Automobilismo).

“Naturalmente, estou muito ciente da grande responsabilidade que tenho perante a equipe de Peter Sauber. Ele fundou a equipe há mais de 40 anos, e na primavera [de 2003], fará 20 anos desde que a Sauber alinhou para sua estreia na F1. Somos a quarta equipe mais antiga da F1. Para construir um projeto como esse e mantê-lo vivo em um ambiente difícil é uma tremenda realização. Estou comprometida a levar a equipe de Peter Sauber à frente e ao sucesso”, falou a nova chefe de equipe da Sauber.

Do Himalaia para o mundo, Monisha faz história na F1 (Foto: Sauber)

Das montanhas do Himalaia para o mundo da F1

Monisha Narang nasceu em 10 de maio de 1971 em Dehradun, norte da Índia, na região das montanhas do Himalaia. Com apenas oito anos, Monisha acompanhou sua família, que decidiu deixar o país asiático em busca de um futuro melhor na Áustria, mais precisamente em Viena. “Naquela época isso aconteceu não por necessidade, mas mais por curiosidade”, lembrou a indo-austríaca em perfil divulgado pela Sauber. “E, no fim da contas, meus pais optaram por Viena”.

Como qualquer criança, Monisha tinha seus sonhos. A menina indiana, fascinada pela corrida espacial, no auge da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética, queria ser astronauta. O tempo passou, e os sonhos mudaram. Tão logo teve o primeiro contato com o automobilismo, Monisha teve como desejo maior disputar o Dakar, então chamado Paris-Dakar. Mas o futuro lhe reservaria outra forma de entrar para a história do esporte a motor.

Em Viena, a jovem indiana se formou em Direito e ganhou a cidadania austríaca. Monisha aprofundou seus estudos em universidades da Europa e, paralelamente, trabalhou para organizações importantes, como as ONU (Organização das Nações Unidas), além de escritórios de advocacia da Alemanha e Áustria. Nesta época, Monisha conheceu Jens Kaltenborn em Stuttgart e, pouco tempo depois, se casou com o também advogado, em cerimônia realizada perto do local de seu nascimento, no Himalaia.

Monisha, que desde o matrimônio adotou o sobrenome Kaltenborn, começou a trabalhar, em 1998, para o Fritz Kaiser Group, que, na época, era um dos acionistas da Sauber, que tinha a Red Bull como sua principal patrocinadora. Estava aberta a porta de entrada para a indo-austríaca na F1. Os assuntos legais e corporativos do grupo passaram a ser de responsabilidade de Monisha. Em 2000, o Fritz Kaiser Group vendeu suas ações e deixou a Sauber, mas Kaltenborn seguiu em Hinwil e foi nomeada chefe do departamento jurídico, sendo que, um ano depois, se tornou membro do Conselho da equipe.

Negociação de contratos com equipes, patrocinadores e fornecedores era responsabilidade de Monisha Kaltenborn, assim como as longas e duras negociações com a FIA (Federação Internacional de Automobilismo), a FOM (Formula One Management), representadas nas figuras de Jean Todt e Bernie Ecclestone. Contudo, Monisha passou a ser mais conhecida do público em 2010. Naquele ano, provavelmente, Peter Sauber já a avia escolhido como sua sucessora e passou a integrar nos trabalhos de pista e no pit-wall.

Ainda em 2010, mais precisamente no polêmico GP da Alemanha, Monisha foi a primeira mulher a fazer parte de uma entrevista coletiva de imprensa oficial com os chefes de equipe da F1. Cada vez mais, Kaltenborn ganhava o respeito e a admiração dos seus colegas de trabalho. Graças a uma enorme dedicação ao time e fidelidade a Peter Sauber, Monisha chegou onde nenhuma mulher jamais ousou em estar. Agora a menina indo-austríaca, que sonhou em ser astronauta e correr o Paris-Dakar é a primeira mulher da história a ser chefe de equipe na F1.