Maior escândalo da história recente da F1 é grande marca de curta trajetória do noturno GP de Cingapura

A primeira corrida disputada totalmente à noite na F1 foi marcada por um escândalo que tomou proporções enormes quase um ano depois. O GP de Cingapura de 2008 teve como principal episódio a batida proposital causada por Nelsinho Piquet e ordenada por Flavio Briatore. No dia em que a F1 perdeu, Fernando Alonso venceu e Felipe Massa foi prejudicado por uma falha da Ferrari no reabastecimento

O dia 28 de setembro de 2008 representou um marco histórico para a F1. A conservadora categoria baseada na Europa levou um bom tempo para seguir seus pares na América do Norte, e realizou, naquele ano, sua primeira corrida totalmente disputada à noite. O cenário escolhido, não sem antes a injeção de muitos milhões de dólares nas contas da FOM [Formula One Managament], foi a suntuosa cidade-estado de Cingapura. Em Marina Bay, praticamente uma Monte Carlo asiática, mas sem o charme da Riviera Francesa, a F1 aportou para correr diante das iluminadíssimas ruas do traçado de 5.067 m de extensão.

Mas além do próprio marco histórico pela então inédita corrida noturna em si, o GP de Cingapura de 2008 acabou ser o pano de fundo para o maior escândalo da história moderna da F1. E, de quebra, tamanha armação, protagonizada por um brasileiro, acabou por atrapalhar outro brasileiro na luta pelo seu título mundial.

Entretanto, a história do GP de Cingapura vai um pouco além da sua edição inaugural. Bem diferente das últimas e sexagenárias provas, como os GPs da Bélgica e da Itália, Cingapura tem apenas sete anos de trajetória na F1.

Com três vitórias em Marina Bay, Vettel é o 'imperador' de Cingapura (Foto: Getty Images)

Se é que se pode dizer, o ‘imperador’ de Cingapura é Sebastian Vettel. Enquanto teve o melhor carro do grid nas mãos, o alemão deitou e rolou durante a dinastia Red Bull e emendou três vitórias em série (2011, 2012 e 2013) e é o maior vencedor desta curta história da prova. O primeiro vencedor — e mais polêmico dentre eles — foi Fernando Alonso, que alcançou seu triunfo controverso pela Renault, repetindo o feito dois anos depois pela Ferrari. Em 2009, pela McLaren, e no ano passado, pela Mercedes, o topo do pódio ficou com Lewis Hamilton.

Lewis, aliás, poderá escrever um capítulo muito mais positivo nas ruas de Marina Bay. Caso comprove todo o gigantesco favoritismo que ostenta e vença em Cingapura no próximo domingo, o britânico vai se igualar a Ayrton Senna em número de conquistas. Ao completar 161 GPs, mesmo número cumprido pelo brasileiro tricampeão do mundo, Hamilton, se subir ao topo do pódio, vai empatar com seu mestre em 41 vitórias na carreira como piloto de F1.

UM PAÍS ILUMINADO

Quando Bernie Ecclestone anunciou, ainda em 2007, a assinatura de contrato para a realização do GP de Cingapura, à noite, muitas perguntas pairaram sobre a segurança do circuito de rua de Marina Bay. Mas as dúvidas se dissiparam quando a estrutura de iluminação foi montada de forma a proporcionar não apenas aos pilotos, mas também aos espectadores, um cenário que garantisse o melhor visual possível da pista.

A iluminação de Marina Bay impressiona (Foto: Getty Images)

A estrutura de iluminação de Marina Bay foi toda desenvolvida pela holandesa Philips. Em todo o percurso de 5.067 m, foi montada uma plataforma temporária que iluminou o circuito com uma intensidade quatro vezes maior em relação a um estádio de futebol de alto nível à noite.

Os números são surpreendentes: iluminação instalada em apenas um lado, a dez metros do chão; quase 1.500 refletores, a quatro metros de distância um do outro; torres colocadas a 32 metros de distância uma a outra. O sistema gerava nada menos que 3.000 lux de intensidade de iluminação, comparável aos 800 lux de um estádio de futebol e meros 30 lux de iluminação pública.

A GRANDE FARSA

A cena ainda está na retina do apaixonado por velocidade. Felipe Massa liderava o GP de Cingapura e estava à frente de Lewis Hamilton, seu maior rival na briga pelo título em 2008. O brasileiro indicava que tinha tudo para ser o primeiro vencedor em Marina Bay, até que surgiu uma bandeira amarela na 14ª volta: Nelsinho Piquet havia batido no muro, proporcionando a entrada do safety-car para que os fiscais removessem sua Renault, bastante destruída.

Massa, então, entrou para os boxes, assim como Hamilton e os outros ponteiros da prova. Mas num erro, a Ferrari liberou Felipe antes de completar o reabastecimento. O brasileiro arrancou e levou consigo a mangueira que os mecânicos usavam para injetar gasolina no seu carro. Aí o piloto teve de voltar aos boxes e foi punido, arruinando uma vitória quase certa, que fatalmente mudaria o desfecho daquela temporada e, por consequência, o campeão de 2008.

Mas a batida de Piquet beneficiou de forma direta Fernando Alonso, seu companheiro de equipe. Uma volta antes do acidente, o espanhol, que havia largado apenas em 15º (uma posição à frente de Piquet), antecipou seu pit-stop. Aí, depois da batida do brasileiro, Fernando ganhou muitas posições e, de último, subiu para quinto lugar. Com uma estratégia de apenas um pit-stop, contra duas dos seus principais concorrentes, Alonso vencia de forma improvável depois de amargar um ano de intensa rivalidade com Hamilton na McLaren.

Contudo, o que parecia ser uma felicíssima coincidência revelou-se uma completa farsa. A armação foi revelada pelo jornalista Reginaldo Leme durante a transmissão do GP da Bélgica de 2009, causando espanto até mesmo ao próprio narrador Galvão Bueno. Depois de muita investigação e julgamento, Pat Symonds e Flavio Briatore foram banidos do esporte. Piquet e Alonso — o maior beneficiado em todo o episódio — foram inocentados. E a F1 foi derrotada pelo escândalo conhecido até hoje como ‘Cingapuragate’.

Fora da F1, Nelsinho reconstruiu a carreira e chegou aos 30 anos como, provavelmente, o melhor piloto brasileiro em atividade. Hoje em grande fase, Piquet foi campeão da primeira temporada da F-E, brilha no Global Rally Cross e, de quebra, vai representar o Brasil na próxima Copa das Nações, evento que faz parte da Corrida dos Campeões, em Londres. Curiosamente, ao lado de Massa, diretamente prejudicado no episódio de 2008.

SHOW DE HAMILTON

Em 2009, a McLaren não vivia seus melhores momentos. A equipe levou muito tempo para se adaptar ao novo regulamento imposto pela F1, que acabou por beneficiar diretamente a Red Bull, sobretudo na segunda metade da temporada e, principalmente, a Brawn GP, que surpreendeu o mundo do esporte ao enfileirar uma série de vitórias, a maioria delas com Jenson Button.

A equipe parecia ser a grande força em Cingapura naquele ano, até porque Rubens Barrichello havia mostrado grande trabalho e vencido o GP da Europa, em Valência, numa pista com características semelhantes ao circuito de Marina Bay. Mas quem deu as cartas naquele fim de semana foi Lewis Hamilton, já campeão do mundo com a McLaren.

Lewis largou da pole e praticamente dominou a corrida, sendo superado apenas por Alonso, e por algumas voltas, depois de ter feito seu segundo pit-stop na volta 46. Mas logo Lewis retomou a ponta e venceu com tranquilidade. Foi sua 11ª vitória na carreira.

A CORRIDA DOS NÚMEROS

Fernando Alonso lutava pelo título mundial da temporada 2010 e tinha contra si nada menos que quatro grandes adversários: Sebastian Vettel e Mark Webber, da Red Bull, Lewis Hamilton e Jenson Button, da McLaren. O título acabou ficando com Vettel, depois que a Renault preta e amarela de Vitaly Petrov evidenciou a falha tática da Ferrari no GP de Abu Dhabi daquele ano, mas essa história fica para mais tarde.

Depois de ganhar ‘na raça’ e por apenas 0s2 de vantagem para Vettel, Alonso encostava em Webber, então líder da classificação, ao vencer em Cingapura e alcançar seu 25º triunfo na F1. Conquista que veio depois de Fernando marcar sua 20ª pole na carreira. Foi o 60º pódio do espanhol na categoria, que viu também a 50ª corrida da história da Force India, bem como o 50º GP de Timo Glock, hoje no DTM.

KOVA ON FIRE

A Lotus voltava ao grid da F1 na temporada de 2010, mas não era ‘aquela’ Lotus. Liderada por Tony Fernandes, a equipe anglo-malaia comprou os direitos de usar o lendário nome eternizado por Colin Chapman e retornou à categoria com Jarno Trulli e Heikki Kovalainen. Depois, como Caterham, o time foi até o fim de 2014 sem marcar pontos e, portanto, sem deixar saudades.

Heikki Kovalainen teve de lidar com as chamas em seu carro no GP de Cingapura de 2010 (Foto: LAT Photographic/Lotus)

Mas a então Lotus acabou por protagonizar um incidente no GP de Cingapura de 2010. O carro de Kovalainen enfrentou uma pane no motor na antepenúltima volta e começou a pegar fogo. Mas o finlandês, com a tradicional tranquilidade e frieza, não se apavorou e usou de um extintor de incêndio para conter as chamas.

BARBEIRAGEM DE SCHUMACHER

A edição do GP de Cingapura de 2012 representou mais um domínio de Vettel naquela temporada. Mas por outro lado, também foi palco de uma das raras barbeiragens de Michael Schumacher na F1. Na volta 39 da prova, o alemão brigava no bloco intermediário com outros pilotos, mas errou o ponto de frenagem e acertou em cheio a Toro Rosso de Jean-Éric Vergne.

O acidente foi bem forte, e ambos abandonaram. Apesar do impacto da batida, ninguém ficou seriamente ferido. Vergne cumprimentou o alemão e demonstrou respeito por Schumacher. Mas o episódio é lembrado até hoje como uma das poucas falhas do heptacampeão mundial.

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