F1

McLaren aponta recuperação ao fechar acordo com Mercedes. Que só tem a ganhar

Depois da Honda e de Fernando Alonso, a McLaren se reorganizou internamente e decidiu apostar em pilotos jovens. Fechou contrato com a Renault, e vem, de fato, se recuperando, mas o recém-anunciado acordo com a Mercedes é o sinal definitivo de que a equipe de Woking quer muito mais na Fórmula 1. Já para a Mercedes, a jogada é igualmente interessante, mas de um ponto de vista mais político

GRANDE PRÊMIO / EVELYN GUIMARÃES, de Curitiba
Como uma bomba, o acordo entre a McLaren e a Mercedes explodiu no paddock da Fórmula 1 no último fim de semana, durante a etapa russa do calendário. As icônicas marcas vão retomar, a partir de 2021, a parceria histórica e vitoriosa que tiveram entre 1995 e 2014, e que rendeu quatro títulos mundiais, 78 vitórias e 76 poles em 351 GPs disputados. A notícia surpreendeu pelo momento vivido pela equipe inglesa, em que se recupera fortemente após desfazer o vínculo com a Honda e se juntar à Renault em 2018. No entanto, não chega a ser de fato uma grande surpresa se considerar as decisões recentes do time de Woking e o futuro que a esquadra deseja trilhar agora que foi capaz de se reorganizar.  
 
A verdade é que a McLaren flertou com o fracasso e viveu perigosamente o começo da era híbrida da F1. Daí a sensação de surpresa, mas vamos aos fatos. Quando o Mundial alterou radicalmente o regulamento técnico para a temporada 2014, sobretudo com relação à configuração dos motores, a equipe britânica, que ainda tinha o icônico Ron Dennis no comando geral, decidira pela cisão com a Mercedes. Foi ainda em 2013 que Dennis escolheu deixar de ser apenas cliente dos alemães para virar o time oficial da Honda na F1 no novo período da categoria, apostando em uma reedição bem-sucedida da associação feita entre a década de 1980 e 1990. Só que os japoneses não quiseram ingressar de imediato, então a esquadra ainda permaneceu ligada aos prateados no primeiro ano das recém-criadas unidades de potência, para só, no ano seguinte, se tornar a equipe da fábrica.
Zak Brown fez de tudo para agradar Alonso na McLaren (Foto: Indycar)
Nesta virada, a McLaren chocou ao assinar com Fernando Alonso, que saíra da Ferrari, abrindo lugar para Sebastian Vettel. Afinal, a turbulenta passagem do bicampeão pelo time ainda estava bem viva na memória. Mas o espanhol também foi seduzido pelo sonho de resgatar uma era vencedora do time inglês. Só que nada, absolutamente nada, deu certo. A marca de Sakura pagou um preço alto por subestimar a complexidade dos novos motores e demorou para engrenar. O tempo gasto e o desenvolvimento limitado criaram uma enorme pressão e tensão dentro das garagens, alimentadas o tempo todo por Alonso, que não dava trégua nas críticas. No meio deste processo, Dennis acabou sendo tirado de seu cargo e a chefia passou para as mãos do americano Zak Brown, que estabeleceu uma política diferente, mais semelhante ao modo de trabalho nos EUA. Levou Alonso a Indianápolis, trouxe Gil de Ferran para a F1. 
 
Mas a falta de resultados ainda pesava, e a convivência entre a equipe e os japoneses se tornou insuportável. O espanhol pressionou e acabou forçando o fim do acordo com a montadora em uma manobra que envolveu também a Renault, Carlos Sainz e até a Red Bull, com quem a Honda acabou se aliando. Sem alternativa, a McLaren fechou com a Renault. Apenas para agradar o asturiano.
 
Ainda assim, não era suficiente. Um ano depois, Alonso resolveu sair da Fórmula 1 por não enxergar uma chance de voltar a brigar por vitórias. E foi aí que a equipe liderada por Brown teve a oportunidade de recomeçar e não desperdiçou a chance. A primeira grande sacada foi a reestruturação interna, que culminou com a chegada de Andreas Seidl em maio deste ano – o engenheiro alemão comandou os anos vitoriosos da Porsche no WEC, mas já tinha tido papel de peso na época da BWM na F1 –, além da aposta em dois pilotos jovens, promissores e muito rápidos, e no diretor-técnico James Key. Sob a batuta de Seidl e sem o peso de Alonso, a organização começou a funcionar. Atualmente, a esquadra já ocupa o posto de quarta força do Mundial, está na frente da parceira Renault e tem, pela primeira vez desde 2014, mais de 100 pontos na tabela. 
Andreas Seidl, novo diretor-geral da McLaren, assumiu em maio (Foto: Reprodução/Twitter)
E Seidl tem muito crédito nisso. Tanto é assim que o chefão Zak Brown revelou que Andreas foi o principal responsável pela aproximação entre McLaren e Mercedes. "Eu perguntei a ele: 'O que devemos fazer para voltar a disputar no pelotão da frente?'. Ele deu rapidamente sugeriu uma série de coisas, como um novo túnel de vento. Ele liderou a decisão sobre a troca da unidade de potência. Claro que foi uma escolha do grupo, mas foi algo conduzido por Andreas."
 
"Começamos no meio do ano, Andreas e eu, discutindo o que queríamos fazer no futuro, sabíamos que tínhamos de tomar uma decisão voltando das férias de verão. Obviamente, conversamos com Toto Wolff de forma regular, principalmente por tudo que vem acontecendo na F1, então foi no início do verão que iniciamos as primeiras conversar e concluímos o acordo", explicou o norte-americano.
 
"Quando você olha para a Mercedes, percebe que eles têm sido a referência na era híbrida como fabricantes de motor, e isso tanto em potência quanto em confiabilidade. E é claro que a equipe em si é uma referência para toda essa década. Portanto, acreditamos que será o melhor motor que vamos ter em nosso carro. E o que vai nos dar a chance de ir atrás do nosso desejo de voltar ao pelotão da frente", disse Brown.
 
Certamente, a excelência da Mercedes é o que reforça o acerto no novo vínculo. A McLaren parece ter aprendido a lição e, às vésperas, de outra grande mudança de regras, faz uma escolha mais sensata e voltada para o futuro. O desejo de retomar o caminho de vitórias é mais que válido, mas é importante dar o primeiro passo, e esse é o passo que o time tinha de dar. 
 
Já a organização prateada avança para dominar o grid. Se a Ferrari tem o poder de veto e peso pela longevidade no campeonato, a Mercedes vai cavando seu espaço não só ao empilhar vitórias e títulos, mas também obtendo apoio das demais equipes. Com o contrato da McLaren, a marca alemã vai passar a fornecer motor para três equipes – a Williams já fechou um longo vínculo, enquanto a Racing Point caminha para isso –, já a equipe italiana tem associação com a Alfa Romeo e a Haas. Em uma Fórmula 1 que segue cada vez mais restrita e ainda muito política, laços fortes se tornam cruciais na hora de medir força. Ou seja, Toto Wolff faz certinha a lição de casa. 
 

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