Mesmo com ‘Mercedes rosa’, Racing Point sofre em ritmo de corrida e continua devendo

Em treinos livres e até na classificação do último GP da Hungria, a Racing Point andou bem demais e se mostrou inferior apenas aos carros de Lewis Hamilton e Valtteri Bottas. No entanto, a equipe ainda não conseguiu converter em mais pontos a capacidade absurda da ‘Mercedes rosa’ pilotada por Lance Stroll e Sergio Pérez

A absurda evolução da Racing Point em 2020, obtida graças principalmente à capacidade da ‘Mercedes rosa’, o W10 clonado que virou o modelo RP20, é notória. E esse crescimento é refletido nos números. Se nas três primeiras corridas da temporada passada a equipe que tem Lawrence Stroll como dono somou somente 7 pontos, no mesmo período deste ano incomum já são 40 tentos. De mero coadjuvante, Sergio Pérez passou a postulante por pódios com frequência e, em situações mais extremas, até candidato a vitória. E mesmo Lance Stroll, motivo de chacota por quase nunca conseguir passar do Q1 no ano passado, agora vai ao Q3 sem sustos e é um habitué da zona de pontuação.

Se no ano passado a equipe chefiada por Otmar Szafnauer era uma integrante do pelotão intermediário, agora os carros rosáceos figuram sempre entre os primeiros, às vezes até lideram treinos livres e, na sessão classificatória do GP da Hungria, só ficou atrás da Mercedes original e o ‘carro de outro universo’ W11. Claro que essa evolução toda provoca inveja e a cizânia dentro da Fórmula 1, a ponto de a Renault protestar duas vezes e questionar a legalidade do RP20 e de, nos bastidores, até a poderosa Red Bull ameaçar fazer o mesmo.

A Racing Point, definitivamente, assusta as rivais e assombra o mundo da F1.

Uma imagem que seria devaneio meses atrás: ver um carro da Racing Point à frente da Ferrari, Red Bull e até de uma Mercedes, a de Valtteri Bottas (Foto: Racing Point)

Ainda assim, ser a segunda força quando a primeira é inalcançável é um alento e tanto, certo? Não, não quando a força da ‘Mercedes rosa’ se reflete apenas na sexta-feira e no sábado, mas não é convertida em mais pontos no domingo. Embora o salto de performance e também de pontos na comparação com o ano passado seja notável e gigantesca, é possível dizer que a Racing Point poderia estar num patamar ainda maior, de terceira ou até de segunda força no Mundial de Construtores se não tivesse desperdiçado chances reais até de vencer corridas.

A prova que abriu o campeonato, o GP da Áustria, foi uma prova viva de que ser uma equipe que não é habituada a competir lá na frente faz muita diferença na tomada das decisões. A Racing Point cochilou ao não chamar ‘Checo’ Pérez para fazer uma nova troca de pneus no momento da segunda intervenção do safety-car.

A Red Bull e a Ferrari adotaram a estratégia com Alexander Albon e Charles Leclerc, respectivamente, que andaram muito mais rápido na fase final da corrida, ‘jantaram com farofa’ o mexicano e foram para cima dos líderes. Albon, depois do incidente com Hamilton, abandonou com problemas no RB16, mas Leclerc alcançou o melhor resultado da Ferrari no ano e terminou em segundo. Se a Racing Point tivesse feito o mesmo com Pérez, muito provavelmente estaria comemorando até agora a primeira vitória da equipe e do próprio ‘Checo’.

No fim de semana seguinte, ainda no Red Bull Ring, o GP da Estíria foi outra prova de que a Racing Point ainda está longe de algum protagonismo no grid. A classificação na chuva foi um desastre, com Pérez inclusive ficando fora no Q1. Stroll conseguiu um lugar melhor no grid e largou em 12º, cinco posições à frente do companheiro de equipe. Na corrida, o canadense sofreu para encaixar um bom ritmo e Pérez foi melhor, mas faltou tranquilidade para ultrapassar Albon no momento certo e garantir a quarta posição. O sexto lugar veio com sabor de derrota para o piloto de Guadalajara.

A Racing Point voa nos treinos e classificações, mas fica atrás de carros como os da Red Bull em ritmo de corrida (Foto: Getty Images/Red Bull Content Pool)

A terceira etapa da temporada, o GP da Hungria, foi o fim de semana mais forte da Racing Point até agora. Nos treinos livres em condições normais, com pista seca, Sergio Pérez ficou só atrás das Mercedes de Lewis Hamilton e Valtteri Bottas. Na classificação, o mexicano passou mal, reclamou de tonturas e foi superado por Stroll, que garantiu o melhor grid da curta história da equipe: terceiro lugar, com ‘Checo’ largando ao seu lado, em quarto.

A largada com a pista ainda bem molhada foi ótima para Stroll, mas muito ruim para Pérez. Enquanto o canadense pulou para segundo, Pérez caiu de quarto para sétimo, e aí o latino-americano teve muita dificuldade para competir com carros à sua frente, mesmo tendo um desempenho melhor como um todo.

No fim das contas, o mexicano ficou encaixotado atrás de Sebastian Vettel e Albon e amargou mais um resultado que, considerando o potencial da ‘Mercedes rosa’, foi frustrante. Stroll, em contrapartida, foi muito bem, dadas as circunstâncias, e só ficou atrás de um perfeito Hamilton, um soberbo Max Verstappen e de um Bottas que foi ao pódio impulsionado pelo carro preto mágico da Mercedes original.

Em meio a um ano que vem sendo muito bom, mas que poderia ser muito melhor, a Racing Point vive às voltas com as definições sofre o futuro. Primeiro, os rumores cada vez mais fortes da chegada de Vettel à equipe, futura Aston Martin, no ano que vem. E Pérez, ciente de que Lawrence não vai dispensar seu próprio filho, sabe que, neste caso, tem a cabeça a prêmio. Coincidência ou não, o mexicano tem ficado longe da sua habitual boa performance com o melhor carro que já teve na vida na Fórmula 1.

As palavras de Szafnauer pouco depois do GP da Hungria mostram um Stroll em alta — e não por ser filho do dono, mas por fazer um bom trabalho na pista — e um ‘Checo’ surpreendentemente em baixa.

“Lance disputou o pódio, mas foi difícil segurar a Mercedes de Bottas, em recuperação. O quarto lugar no fim para Lance é um excelente resultado após um esforço maduro para concluir um fim de semana muito forte. O sétimo lugar de ‘Checo’ foi um legado de uma largada ruim, e ele passou a maior parte da tarde atrás de Vettel e Albon. Foi difícil acompanhar os carros de perto, muito menos ultrapassar, mesmo com uma vantagem em termos de ritmo”, disse o dirigente.

Depois, o mesmo Szafnauer, amenizou o discurso e reiterou que “Pérez é um grande piloto, trabalha bem e relaciona-se bem com Lance”.

Ao fim das três primeiras corridas da temporada e às vésperas de correr em casa, Silverstone, a Racing Point vive uma situação deveras curiosa. Tem o melhor carro da sua vida, colhe resultados muito bons, mas ainda segue devendo.

Com uma dupla razoável, fica a questão: trazer um piloto com o peso e a história de um Sebastian Vettel é o ponto de partida para que a futura Aston Martin vire de fato grande na Fórmula 1, mesmo com um carro copiado? Trata-se de algo impossível de responder, mas a Racing Point segue tendo o DNA de uma equipe de meio do grid. E isso não muda de uma hora para outra, nem mesmo tendo às mãos o clone de um modelo campeão do mundo.

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