Mulher, preta e africana: por que Stephanie Travers fez história no pódio do GP da Estíria

Engenheira química da Petronas, Stephanie Travers foi, aos 26 anos, a primeira mulher preta ao subir no pódio da Fórmula 1. Nascida no Zimbábue, a profissional foi escolhida pela Mercedes para representar o construtor vencedor do GP da Estíria e festejou a conquista ao lado de Lewis Hamilton

O pódio do GP da Estíria de Fórmula 1 definitivamente foi histórico. No topo, Lewis Hamilton, vencedor da corrida do último domingo (12) no Red Bull Ring, protestou contra o racismo com o punho cerrado, gesto emblemático protagonizado pelas ‘Panteras Negras’ nos Jogos Olímpicos de 1968 e visto pela primeira vez na principal categoria do esporte a motor. Outro fato igualmente histórico e inédito foi proporcionado pela Mercedes. A construtora vencedora da prova escolheu a engenheira Stephanie Travers para representá-la na celebração. É a primeira mulher preta e africana em mais de 70 anos de história a subir no pódio da Fórmula 1.

Mas quem é Stephanie Travers? Nascida no Zimbábue há 26 anos, formou-se em engenharia química em 2016 pela Universidade de Bradford, na Inglaterra, e no ano seguinte obteve a especialização no Imperial College de Londres. Antes de se formar, porém, Stephanie trabalhou como professora de piano e como garçonete antes de ir atrás do sonho.

Lewis Hamilton e Stephanie Travers
Lewis Hamilton e Stephanie Travers no pódio do GP da Estíria (Foto: Twitter)

Em março de 2019, Stephanie foi selecionada em um processo global desenvolvido pela Petronas — principal patrocinadora e também fornecedora de combustíveis e lubrificantes da Mercedes — para ser engenheira de fluídos para trabalhar junto à Mercedes a partir da temporada passada. Ao todo, Travers enfrentou mais de 7 mil concorrentes. O anúncio foi visto pela rede social LinkedIn.

“Tive a coragem de entrar e, a partir deste ponto, disse que isso era algo que eu sempre quis fazer, pois um processo global não deve me impedir de me inscrever. Me inscrevi e, depois de passar por todas as etapas, mantive a calma para garantir que me apresentaria da melhor forma possível”, explicou Travers em entrevista concedida em janeiro deste ano ao site Women On Wheels.

O pódio do GP da Estíria de Fórmula 1 foi histórico em muitos aspectos (Vídeo: Reprodução)

Um dos estágios do processo seletivo era o envio de um vídeo, com 1 minuto de duração, respondendo a perguntas de Valtteri Bottas e outros integrantes da Mercedes. Aprovada nesta fase, Stephanie viajou até Kuala Lumpur, na Malásia, sede da Petronas, em uma competição semelhante ao programa de TV ‘Amazing Race’, uma caça ao tesouro, para chegar ao estágio final: uma entrevista com Giuseppe D’Arrigo, CEO da Petronas.

“Me concentrei na minha própria jornada, especialmente durante a fase de votação do vídeo — teve outros nove vídeos, mas não os assisti, fiz somente o meu, focada no meu. Não queria me comparar com mais ninguém e somente me concentrei na minha própria jornada o tempo todo e me mantive tranquila”, relembrou.

Desde que se uniu à Petronas para trabalhar em conjunto com a Mercedes, a rotina de Stephanie compreende a chegada à pista na terça-feira, bem antes do início das atividades de pista, para ajudar a montar o laboratório de combustível. Nas corridas fora da Europa, este laboratório fica dentro da garagem da equipe, e no Velho Mundo a estrutura é montada em um motorhome.

“Analiso o óleo do motor, o óleo do câmbio e o combustível durante o fim de semana de corrida. Faço a análise de combustível para garantir que estamos em conformidade com os regulamentos da FIA para verificar se não temos tambores de combustível contaminados durante o transporte e para garantir que, ao abastecer as plataformas de combustível, a bomba de combustível e ao abastecer o carro, não temos contaminação, e não podemos transportar se mudarmos as especificações de combustível”, descreveu.

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As melhores imagens do GP da Estíria 2020 de Fórmula 1

A engenheira contou, também, que a relação com as corridas é de amor e vem desde cedo. “Sempre adorei o automobilismo, desde pequena; costumava assistir com meus pais e avós. Tinha primos que andavam de kart, então isso foi algo que sempre gostei. Cresci assistindo a Fórmula 1 e sempre quis ver ao vivo, o que tive a oportunidade de fazer na universidade. Ver a F1 ao vivo em Barcelona tornou aquilo muito mais real para mim”.

“Depois disso, sabia que definitivamente queria entrar um dia na F1. Naquele momento, já tinha me formado em engenharia química, sabendo que uma opção possível era entrar na F1, mesmo sabendo que há poucos espaços neste nível. A maioria das pessoas na F1 faz engenharia mecânica ou aeroespacial. Sabia que queria seguir química e matemática, então escolhi a engenharia química com a esperança de entrar na F1, mas sabia que, se não desse certo, não seria o fim, já que eu ainda estaria fazendo algo que gosto”, disse.

Quando perguntada sobre qual conselho daria para uma jovem que sonha em trilhar a carreira de uma profissão predominantemente masculina, Stephanie ressaltou: para tudo na vida, o mais importante é amar o que se faz.

“Diria para que siga em frente. Se isso é algo que você realmente ama, basta se aplicar. Faça o melhor que puder na escola, concentre-se nos assuntos do seu interesse e não se afaste deles se souber que o caminho final é uma carreira que é predominantemente masculina. Minha turma tinha cinco mulheres. E isso não me impediu. Fiz todo o curso, tirei notas muito boas, mantive o foco. Sabia que o objetivo final era algo que era muito apaixonada. Contanto que você esteja feliz com o que faz, isso é o principal”, concluiu.

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