Na Garagem: com duas provas restando em 1977, Lauda sela bi e se despede da Ferrari

Há 38 anos, Niki Lauda selava no GP dos Estados Unidos, em Watkins Glen, o bicampeonato mundial naquela que foi sua última corrida pela Ferrari. Ele ficou de fora do GP do Canadá, última etapa de 1977, e se mudou para a Brabham de Bernie Ecclestone no ano seguinte

Com o abandono de Jody Scheckter, da Wolf, em Monza, bastava ao austríaco Niki Lauda somar apenas mais um ponto nas três etapas restantes do Mundial de 1977 para ser o oitavo piloto a ser bicampeão da F1. Com o segundo lugar na Itália, Lauda tinha 69 pontos contra somente 42 pontos do sul-africano. Lauda estava com a mão na taça quando chegou em Watkins Glen no dia 2 de outubro

 
A temporada não começou bem para o austríaco da Ferrari, pois ele abandonou o GP da Argentina e a vitória ficou com Scheckter, guiando a surpreendente Wolf-Ford. Em um campeonato muito equilibrado, a F1 viu oito vencedores diferentes em 17 etapas. Lauda só venceu seu primeiro GP do ano na terceira etapa – ironicamente, na África do Sul, frustrando o desejo dos torcedores em ver o triunfo do piloto da casa.
 
Lauda sequer foi o maior vencedor da temporada. Mario Andretti, da Lotus, venceu quatro vezes, uma a mais que o austríaco, que ficou no mesmo patamar de Scheckter e James Hunt, da McLaren. O ferrarista só venceu uma das nove etapas na primeira metade do certame. E foi justamente no GP da França, no meio da temporada, quando Lauda assumiu a liderança na tabela.
 
Exibindo mais regularidade do que os rivais, Lauda tomou a liderança em Dijon e não mais largou a dianteira. Isso foi possível pela tremenda regularidade do ferrarista. Ele só abandonou as corridas da Argentina e da Suécia, além de não ter largado na Espanha por conta de problemas de saúde – uma das costelas quebradas por causa de seu acidente em Nürburgring em 1976 estava trincada. Nas outras 12 etapas, ele obteve três triunfos, seis segundos lugares, um terceiro, um quarto e um quinto posto. Foi um campeonato mais ganho com a cabeça do que com os braços.
 
Por outro lado, os rivais não mostravam a mesma regularidade. Apesar das quatro vitórias, Andretti teve seis abandonos até o GP dos EUA. Hunt e Scheckter tiveram um abandono a mais do que o norte-americano da Lotus e nada puderam fazer contra os cinco pódios obtidos por Lauda na segunda parte do campeonato.
Lauda chegou à Ferrari ainda jovem, saiu bicampeão (Foto: Ferrari)
O único piloto com regularidade similar à de Lauda era o argentino Carlos Reutemann, parceiro de Niki na escuderia de Maranello. Mas, exceção feita ao GP do Brasil, “Lole” nunca esteve perto dos ponteiros do certame. Completava as corridas, mas sem pontuação relevante – terminou duas corridas fora da zona de pontuação e obteve três sextos lugares.
 
Nos treinos em Watkins Glen, a ousadia de Hunt se fez valer e o inglês marcou a 14ª pole da carreira, com o tempo de 1min40s863. As Brabham foram uma boa surpresa: Hans Stuck foi o segundo e seu parceiro, John Watson o terceiro. Lauda foi apenas sétimo, com a marca de 1min42s089 e Scheckter, o único que podia roubar-lhe o título, obteve o tempo de 1min42s325 e largou na fila atrás dele do grid, em nono lugar.
 
A manhã do domingo tinha sol, mas pouco antes da largada, uma chuva fina caía sobre Watkins Glen. Somente Watson arriscou manter os pneus slicks em sua Brabham. Stuck largou bem, seguido por Hunt, Andretti, Reutemann, Ronnie Peterson, Lauda e Scheckter. Já na primeira volta, Lauda estava em sexto, posição que bastava para assegurar o bicampeonato.
 
Scheckter fazia sua parte e antes da quarta volta já estava em quarto – havia ultrapassado Lauda, Peterson e Reutemann. Na 10ª volta, Lauda passou seu parceiro de Ferrari e se estabilizou em quinto lugar. Cinco giros depois, a embreagem da Brabham de Stuck falhou, tirando o alemão da prova. Em uma corrida tática, Lauda, agora quarto, apenas marcava a posição do terceiro colocado, Scheckter.

Naquele momento, com um quarto da corrida já transcorrido, Hunt liderava com 15s de frente para Andretti. Em ritmo alucinante, o inglês da McLaren ganhava um segundo por volta sobre o norte-americano da Lotus. Na 23ª volta, a ordem era Hunt, Andretti, Scheckter, Lauda, Clay Regazzoni e Reutemann e essas posições foram mantidas até a bandeira quadriculada. Somente Andretti ousou perturbar essa calmaria com um ataque ao líder quando faltavam duas voltas para o fim.

 
O GP dos EUA-Leste registra algumas marcas na história da F1. Foi o 10º pódio de Andretti na categoria e a 100ª corrida de Regazzoni. Foi o GP centenário também para as equipes Tyrrell e Surtees, e o 50º da escuderia Hesketh.
Mas essa prova ficará marcada como aquela que consagrou Lauda. Campeão em 1975, Lauda abriu mão da disputa pelo título ao encostar o carro em Fuji, na decisão de 1976. Chamado de covarde pela imprensa italiana, o austríaco respondeu a isso dominando a segunda metade da temporada de 1977.
 
Lauda sequer disputou as etapas do Canadá e do Japão, pois tinha 25 pontos de vantagem para Scheckter após o GP ianque. O piloto se desentendeu com Enzo Ferrari, pois não gostou do fato da equipe ter inscrito um terceiro carro para o GP canadense. O bólido foi pilotado por Gilles Villeneuve – que substituiu Lauda no cockpit e nos corações ferraristas.
 
Além disso, Lauda não tinha boas relações com Reutemann, contratado para ocupar o seu lugar após o violento acidente sofrido pelo austríaco em Nürburgring. “Nunca gostei de Carlos, e o fato da Ferrari tê-lo contratado parecia um sinal que eles não se importavam comigo”. Lauda foi para a Brabham no ano seguinte, onde ficou por menos de dois anos, quando decidiu se aposentar. Ele voltou em 1982, pela McLaren, e sagrou-se o quarto tricampeão da história em 1984.

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