F1

Na Garagem: Senna estreia na F1 pela modesta Toleman no GP do Brasil em Jacarepaguá

Há exatos 35 anos, Ayrton Senna estreava na F1 no GP do Brasil, disputado na hoje extinta pista de Jacarepaguá. Naquele dia, Senna largou em 16º e não completou a corrida por uma falha do turbo do motor Hart de seu Toleman

Grande Prêmio / EVELYN GUIMARÃES, de Curitiba
O cenário era Jacarepaguá e o dia, 25 de março de 1984. Um domingo que abriu o Mundial de F1 com alterações importantes no regulamento. O reabastecimento passou a ser proibido e os carros não podiam levar mais de 220 L de combustível por prova. Era uma primeira tentativa de reduzir os custos da categoria-mor. 84 também viveu o início da eletrônica: as equipes já conseguiam coletar e monitorar as informações em tempo real. Era a revolução tecnológica invadindo os boxes. A Brabham-BMW, que vinha de título com Nelson Piquet no ano anterior, pintava como a grande favorita.

E foi a pista carioca, que sequer existe mais, que testemunhou também a estreia do piloto que até hoje é considerado um dos grandes de todos os tempos. Tão vitoriosa quanto polêmica e relativamente curta, a passagem do brasileiro pelo Mundial teve início dentro de um carro branco, azul e vermelho de uma equipe pequena, de pouca envergadura, perto das poderosas Brabham, Ferrari, Renault, McLaren e Lotus dos anos 80.

Campeão da F-Ford e da então bastante prestigiada F3 Inglesa, Senna chegou a testar com a esquadra de Frank Williams em 1983, visando uma vaga na temporada seguinte com o time de Grove. Não deu certo. Tentou a McLaren, a Brabham. E nada. Aí surgiu o negócio com outra inglesa.

O brasileiro acabou encontrando um bom acordo com a modesta Toleman, de propriedade de Ted Toleman e Alex Hawkridge, para, enfim, estrear no maior campeonato de monopostos do mundo, aos 24 anos.
A Toleman usada por Senna em 1984 (Foto: Getty Images)
Dono de uma personalidade forte e de uma postura altamente profissional, Ayrton assinou como primeiro piloto do time, já exigindo prioridades técnicas. E a aposta do time britânico para um campeonato mais competitivo era, de fato, o motor turbo, além do jovem prodígio brasileiro. O venezuelano Johnny Cecotto apareceu mais tarde como companheiro de equipe de Ayrton.

O robusto carro para aquele ano era o TG184, equipado com motor Hart 1.5 L4T. E foi ao volante dele que Ayrton se classificou para o GP do Brasil no 16º lugar do grid. A pole-position, conquistada no dia anterior, era de Elio de Angelis, com a Lotus, com a marca de 1min28s392, com uma média de velocidade de 204,9 km/h. Já o tempo registrado por Senna foi de 1min33s525, 5s1 mais lento que o ponteiro, portanto.

O calor intenso do verão do Rio de Janeiro provocou muitas quebras naquele dia, e a estreia de Senna durou apenas oito voltas. Enquanto Michele Alboreto, de Ferrari, liderava a prova, depois de um início confuso, à frente de Niki Lauda, Derek Warwick, Nigel Mansell e Patrick Tambay, Ayrton, com o Toleman #19, entrava lentamente nos boxes.

O brasileiro foi o primeiro a abandonar a corrida, com problemas no turbo, quando estava em 16º, depois de ter conseguido brigar pelo 13º posto nas primeiras voltas.
Ayrton Senna no GP de Mônaco de 1984
A etapa carioca da F1 foi desgastante e longa. No fim, Alain Prost, o rei do Rio, fez jus ao apelido que mais tarde lhe deram, e venceu o primeiro GP daquele ano, no retorno à McLaren. Era apenas o décimo triunfo no Mundial do francês, que se tornaria ainda o maior rival de Senna na F1. Keke Rosberg cruzou a linha de chegada em segundo, enquanto De Angelis completou o pódio. Piquet também deixou a prova com problemas de motor.

A segunda prova daquele campeonato de estreia de Ayrton foi um pouco melhor. Ele largou em 13º e terminou na zona de pontos, com o sexto lugar na África do Sul. O resultado se repetiu na Bélgica, na terceira prova. Depois, a F1 desembarcou em San Marino, onde curiosamente Senna sequer conseguiu tempo suficiente para colocar o Toleman no grid.

Aí veio a corrida na França, e nova falha do turbo tirou Senna da disputa. A maré mudou em Monte Carlo. Foi pelo estreito e atrevido traçado do GP de Mônaco que Senna finalmente brilhou na F1. Depois de largar em nono, a chuva que desabou sobre o Principado provocou uma corrida cheia de acidentes.

Reconhecidamente talentoso no molhado, Senna veio recuperando posições até alcançar o segundo posto. Prost liderava, com grande vantagem. Mas a chuva aumentou, e a direção de prova decidiu encerrar a corrida com 31 voltas completas. Era o primeiro pódio de Senna na F1.

O calendário, então, levou os pilotos para o Canadá. Lá, Senna alcançou um sólido sétimo posto. Aí vieram duas provas em sequência nos EUA, Detroit e Dallas. Dois abandonos, um por acidente e outro por uma falha mecânica, respectivamente, ocorreram.
GP do Brasil de 1984, a estreia de Ayrton Senna (Foto: LAT Photographic/Forix)
Na volta à Europa, Senna retomou o bom desempenho e conseguiu seu segundo pódio naquele ano. Foi o terceiro lugar em Brands Hatch, com vitória de Niki Lauda. Na reta final da temporada, viveu mais quatro provas desastrosas nos GPs da Alemanha, Áustria, Holanda e Europa, disputado em Nürburgring. Não completou nenhuma, devido a acidentes e problemas mecânicos.

Entretanto, o fim da temporada terminou de forma mais competitiva. No Estoril, palco da primeira vitória de Senna na F1 um ano mais tarde, o piloto obteve um novo pódio, novamente em terceiro. O triunfo foi de Alain Prost, que acabou perdendo o título de 84 para Niki Lauda por meio ponto.

Ayrton Senna competiu na F1 entre 1984 e 1994, defendendo quatro equipes ao todo. Foi tricampeão e morreu em consequência de um acidente durante o GP de San Marino, na pista de Ímola, há 20 anos.