F1

Na Garagem: Watkins Glen vê 1º triunfo do Brasil na F1 e Rindt campeão post-mortem

A primeira conquista do Brasil na F1 aconteceu em Watkins Glen, com Emerson Fittipaldi vestindo o uniforme da Lotus. Fim de semana nos Estados Unidos garantiu Jochen Rindt como primeiro campeão post-mortem do Mundial

Warm Up / CHARLES NISZ, de São Paulo
“Uma semana antes do GP dos EUA, Colin Chapman, chefe da Lotus, me chamou ao escritório para definir o meu futuro. Basicamente, ele me perguntou se eu queria ser o piloto número um da Lotus na temporada de 1971. Com lágrimas nos olhos, aceitei”. Assim começou a trajetória do primeiro campeão brasileiro na F1. Até então, Emerson Fittipaldi havia feito três provas, terminando todas elas e tendo um quarto lugar na Alemanha como melhor resultado.
 
Por causa da morte de Jochen Rindt, acontecida quatro semanas antes, em Monza, a Lotus não correu os GPs da Itália e do Canadá. Assim, a diferença entre o falecido Rindt e Jacky Ickx, único piloto capaz de ainda tirar o título do austríaco, caiu de 35 para 17 pontos em três provas. Com 18 pontos em jogo, se Ickx vencesse as corridas da perna americana do Mundial (EUA e México), seria campeão do mundo.
Emerson Fittipaldi conquistou a primeira vitória do Brasil na F1 em Watkins Glen, 1970 (Foto: Divulgação)
Chapman pediu a Emerson apenas que fizesse uma boa corrida, terminasse a prova e dirigisse discretamente. “Foi muito delicado da parte dele não me pedir que vencesse a prova, pois qualquer piloto que tirasse a vitória de Ickx faria Rindt campeão”. No entanto, o brasileiro passou a semana toda pensando que, se vencesse, o ex-companheiro seria o primeiro campeão póstumo da F1.
 
 No sábado, o brasileiro acordou resfriado e com febre. Para piorar as coisas, Fittipaldi ainda estava assombrado pela morte de Rindt e assustado com o desafio de substituir um piloto tão veloz. Ele quase perdeu o treino classificatório. Watkins Glen é uma cidade no interior de Nova York e a única estrada para o circuito estava lotada. Um policial ligou a sirene e abriu caminho até o autódromo para Fittipaldi.
 
O treino aconteceu com chuva e Ickx confirmou a boa fase, obtendo a pole com mais de 0s5 sobre Jack Stewart. O belga marcou 1min03s070 e o escocês ficou com o tempo de 1min03s620. Fittipaldi treinou bem e ficou com o terceiro posto, virando 1min03s670.
 
Após o treino, o resfriado piorou e Chapman chamou um médico para Fittipaldi. Uma injeção de penicilina daria jeito na doença, mas não na apreensão do brasileiro naquela noite. Chapman disse a ele que a relação entre ambos seria meramente profissional. “Me afeiçoei demais a Jim [Clark] e Jochen e perdi ambos. Não quero que aconteça de novo”. “Claro que ficamos amigos. Chapman foi o meu maior professor e me ensinou tudo sobre a F1. Foram cinco anos na Lotus que valeram por mil”, afirmou Emerson.
 
Mais de 100 mil pessoas estavam presentes em Watkins Glen naquele 4 de outubro de 1970. O asfalto estava quase seco, apesar de uma pancada de chuva ter caído sobre a pista 20 minutos antes da largada. Stewart e Pedro Rodriguez, mexicano da BRM, pularam na frente e Emerson caiu para oitavo, superado por Clay Regazzoni, Ickx, Chris Amon, John Surtees e Jackie Oliver. Havia poças d'água na pista e os pneus slicks de Fittipaldi não rendiam.
 
Conforme a pista secava, o brasileiro ganhava posições: Amon foi aos pits trocar os pneus de chuva por slicks e Emerson era o quinto colocado na volta 15 – Surtees e Oliver haviam abandonado a prova. Na volta 36, foi a vez de Regazzoni parar e o brasileiro já era o quarto.
 
O lance que definiu o Mundial de 1970 aconteceu na 57ª das 108 voltas da longa corrida em Watkins Glen. A injeção de combustível de Ickx falhou e o belga da Ferrari precisou ir aos boxes, voltando à pista em 12º. Emerson já era o terceiro, mas estava um volta atrás do líder Stewart. Com problemas no motor da Tyrrell, o escocês tirou o pé e Emerson descontou a volta de desvantagem. Na volta 82, entretanto, o motor estourou e o escocês deixou a prova.
 
Ickx fazia uma insana corrida de recuperação e havia ganhado oito posições em 27 voltas. Faltando 15 giros para a bandeirada, a ordem era: Rodriguez, Fittipaldi, Reine Wisell, na outra Lotus, Amon e Ickx. A corrida se encaminhava para o final e Rodriguez tinha 17s de vantagem para Emerson. Mas o BRM do mexicano tinha um consumo elevado e ele precisou fazer um splash and go quando faltavam apenas oito voltas para o fim da corrida.
 
Emerson passou na reta na 101ª volta e viu a placa “P1. Rodriguez P2” sendo mostrada a ele. Na volta seguinte, a placa foi exibida outra vez e “a ficha caiu” na cabeça do brasileiro da Lotus: “Meu Deus, estou liderando a corrida”, lembrou Emerson muitos anos depois. O brasileiro levou o carro até o fim e até tirou o pé, para não se aproximar de um retardatário. “Foram as oito voltas mais longas da minha vida”.
 
Na volta final, Emerson se esgueirou e pôde ver Chapman jogar sua boina para o alto: o chefe de equipe repetiu com o brasileiro a mesma comemoração feita para Rindt, Clark e Graham Hill. Disputando sua quarta prova na F1, Fittipaldi foi o primeiro brasileiro a vencer na F1. Assim, Rindt se sagrava campeão do mundo.
 
José Carlos Pace, Nelson Piquet, Ayrton Senna, Rubens Barrichello e Felipe Massa são os outros cinco pilotos que venceram pelo Brasil na categoria, totalizando as 101 vitórias do país no esporte. O país é superado pela Alemanha (156) e pela Inglaterra (161) nesse quesito.