F1

Niki Lauda, 1949-2019

Tricampeão mundial, Niki Lauda morreu nesta segunda-feira (20). O austríaco protagonizou umas das recuperações mais impressionantes do esporte, depois do acidente que quase lhe tirou a vida em 1976. Lauda ocupava o cargo de presidente não-executivo da Mercedes e havia sido submetido a um transplante de pulmão no ano passado

GRANDE PRÊMIO / EVELYN GUIMARÃES, de Curitiba / FERNANDO SILVA, de Sumaré
Andreas Nikolaus Lauda. O homem que venceu a morte por duas vezes não conseguiu vencê-la e se foi nesta segunda-feira, aos 70 anos. Um dos maiores pilotos da história, Niki Lauda jamais conseguiu deixar a Fórmula 1, sua grande paixão, e até antes de ser hospitalizado para cuidar de problemas de saúde que o levaram a ser submetido a um transplante de pulmão, era habitué do paddock como presidente não-executivo da Mercedes.
 
Lauda deixou a F1 da forma como foi eternizado: como um vencedor.
Toto Wolff e Niki Lauda na Mercedes (Foto: Mercedes)
Nascido em 22 de fevereiro de 1949 em Viena, Lauda iniciou sua trajetória no automobilismo no fim dos anos 1960 correndo nas antigas F3 e F2 antes de ter sua primeira chance na cobiçada F1. O debute no Mundial aconteceu em 1971 e em casa, no GP da Áustria, correndo pela pequena equipe March.
 
Com poucos recursos financeiros, Lauda só voltou à cena no ano seguinte, mas para fazer a temporada completa. Foi um ano particularmente difícil, mas Niki insistiu em 1973, deixando a March e trocando-a pela BRM. Em cenário muito criticado nos dias de hoje, Lauda foi piloto pagante e teve de recorrer a um empréstimo para poder seguir no Mundial.
 
Com o patrocínio da Marlboro na BRM, Lauda teve um ano melhor e faturou o quinto lugar, no GP da Bélgica, como seu melhor resultado em 1973. Mas tudo mudaria a partir da temporada seguinte. Com grande influência dentro da Ferrari, Clay Regazzoni, Niki Lauda assinou contrato com a poderosa escuderia de Maranello e deixou para trás os tempos em que precisava recorrer a patrocinadores para correr.
 
Quando teve às mãos um equipamento de qualidade, Lauda correspondeu. Logo na sua estreia pela Ferrari, veio o primeiro pódio, um segundo lugar no GP da Argentina. A primeira pole viria duas corridas depois, na África do Sul. No ano do bicampeonato de Emerson Fittipaldi, Niki largou na frente em nove GPs, venceu as corridas da Espanha e da Holanda e fechou o Mundial como o quarto melhor colocado.
Niki Lauda acelerando no Brasil em 1976 (Foto: LAT)
A consagração veio em 1975. Em uma temporada de sonho, Lauda venceu cinco GPs, marcou nada menos que nove poles e não deu chances a ninguém. Bicampeão no ano anterior, Fittipaldi foi o vice naquele campeonato.
 
1976 começou vencedor para Lauda, que triunfou na etapa de abertura daquele Mundial no GP do Brasil. Vieram então outras vitórias na sequência: nos GPs da África do Sul, Bélgica, Mônaco e Inglaterra, além de pódios em Long Beach, Espanha e Suécia, tendo como único abandono neste período o GP da Espanha.

Até que Lauda venceu a morte pela primeira vez.
 
Em Nürburgring, no chamado ‘Inferno Verde’ de Nordschleife, talvez o circuito mais desafiador em todos os tempos, com 22,8 km de extensão, o austríaco sofreu o acidente que mudaria para sempre sua vida. O então campeão do mundo perdeu o controle da sua Ferrari e bateu forte contra o guard-rail. O carro pegou fogo, com Lauda preso às ferragens por intermináveis minutos. Parecia ser o fim, e até um padre chegou a lhe dar a extrema-unção.
 
Como uma fênix, porém, Lauda renasceu das cinzas e voltou a correr pouco depois, no GP da Itália. Niki ainda lutou na reta final da temporada pelo título contra James Hunt. Na última corrida do ano, o GP do Japão, em Fuji, Lauda optou por não correr em razão de uma chuva torrencial na região do circuito. O britânico se arriscou e faturou seu único título mundial.
Daniel Brühl e Niki Lauda (Foto: BILD: SN/AFP)
A rivalidade entre Lauda e Hunt naquele ano foi eternizada no cinema pelo filme ‘Rush’.

Em 1977, Lauda provou que estava forte e competitivo mesmo depois do acidente que quase o vitimou. Arrasador, Niki se despediu da Ferrari com a conquista do bicampeonato, deixando para trás nomes como Mario Andretti — campeão de 1978 —, Jody Scheckter e o próprio Hunt.
 
No ano seguinte, Lauda determinou uma mudança importante na sua carreira. Depois de anos vitoriosos pela Ferrari, o piloto aceitou o convite de Bernie Ecclestone e trocou a equipe italiana pela Brabham. Mas o austríaco não foi tão bem-sucedido no seu novo ciclo, apesar de ter vencido duas vezes. Com muitas quebras, sobretudo em 1979, Lauda deixou a F1 ao fim da temporada.
 
Só que Lauda jamais ficou totalmente fora da F1. Ainda que tivesse se dedicado aos negócios e à sua Lauda Air, o bicampeão chegou até mesmo a trabalhar como comentarista de TV e era figura comum no paddock do Mundial. Foi assim por dois anos, até que Niki não resistiu à tentação de voltar às pistas e regressou ao grid como piloto da McLaren para a temporada 1982.
Niki Lauda vencia a primeira em casa em 1984 (Foto: Reprodução/Twitter)
E nem mesmo o tempo fora das pistas tornou Lauda menos competitivo. Sua primeira vitória pela McLaren veio logo na terceira corrida, em Long Beach. Veio então outro triunfo, na Inglaterra, e mais um pódio, em Dijon. Foi um regresso bastante positivo para o austríaco, que teria de lidar com dissabores no ano seguinte pela diferença de performance do McLaren empurrado pelo motor Ford Cosworth em relação aos propulsores turbo da época.
 
A McLaren desenvolvia, em conjunto com a Porsche, os motores que colocaria na pista em 1984. Foi o ano da glória de Lauda, que conquistou seu tricampeonato mundial na esteira de um grande duelo com Alain Prost. Foram cinco vitórias — África do Sul, França, Inglaterra, Áustria e Itália, além de segundos lugares no Canadá, Alemanha, Holanda e Portugal. Lauda foi campeão com meio ponto de vantagem para Prost.
 
Naquela temporada, a vitória valia 9 pontos, mas o fato de o histórico GP de Mônaco, que teve Ayrton Senna como grande protagonista, ter sido interrompido com bandeira vermelha com menos de dois terços de prova valeu ao francês apenas metade dos pontos, ou seja, 4,5. Mesmo se Prost tivesse terminado em segundo lugar e Senna vencido, o ‘Professor’ somaria 6 e levaria a melhor sobre Lauda.
 
Lauda então fez história ao ser campeão pelas duas maiores equipes da história, a Ferrari e a McLaren. O austríaco saiu de cena nas pistas no ano seguinte, não sem antes deixar mais uma vitória no currículo, novamente na Holanda.

Depois de uma carreira vitoriosa na Fórmula 1, o austríaco também se aventurou em outros negócios, como aviação, em que constituiu a própria empresa. Desde 2012, assumiu o presidência não-executiva da Mercedes e foi um dos grandes responsáveis por trazer Lewis Hamilton para a equipe no ano seguinte. Lauda seguiu sendo um dos fortes pilares de sustentação da esquadra prateada que domina o Mundial desde 2014, quando a maior das categorias introduziu os motores híbridos. Em 2016, Niki conquistou o Prêmio Laureus pela carreira que trilhou no esporte. 
 
Ao lado de Toto Wolff, o chefão da Mercedes, Lauda presenciou o sucesso do time, os cinco títulos mundiais de Construtores e Pilotos.
Niki Lauda e Lewis Hamilton (Foto: Getty Images)
Em agosto do ano passado, sofreu uma intervenção cirúrgica de transplante pulmonar. O procedimento aconteceu um dia após o aniversário de 42 anos do famoso acidente que o então campeão mundial vigente protagonizou no GP da Alemanha de 1976, em Nürburgring, e que provocou queimaduras tão severas que perduraram pelo resto da vida. 
 
Desde então, vinha se recuperando do transplante longe dos holofotes, depois de passar um longo período internado. Nesta semana, o tricampeão precisou ser levado em clínica na Suíça, onde passou por diálise para lidar com problemas renais. 

Lauda jamais deixou de ser parte do mundo da F1. Sempre com o lendário boné vermelho, o austríaco era figura habitual do paddock e sempre se notabilizou pelo jeito 'falastrão' de ser, sendo um dos mais requisitados para entrevistas. Foi assim mesmo no período final da sua vida, já como dirigente da Mercedes e afastado das pistas.

A última vez em que esteve no paddock da F1 foi no GP da Inglaterra de 2018.