Ocon até cresce com Renault, mas não embala e toma surra de Ricciardo. O que falta?

De ausência gigantesca e futuro na Mercedes para limbo no grid e inferioridade notória comparado ao companheiro, é justo discutir o que falta para Esteban Ocon embalar nas cores da Renault e retomar o rumo da carreira

Quem acompanha o Mundial de Fórmula 1 atentamente nos últimos dois anos não fica em dúvida ao afirmar que a Renault deu um salto adiante nas últimas corridas do campeonato. Sobretudo desde Silverstone, ficou evidente que os carros amarelos são dotados de motores mais poderosos que as demais rivais do pelotão intermediário e, da rabeira da briga, cresceu. Mesmo em condições cada vez mais próximas das ideais, porém, Esteban Ocon segue longe do companheiro de equipe. O que falta para o francês?

As primeiras corridas do ano deram a sensação de que a Renault duelaria com a AlphaTauri e, em momentos, a Ferrari, enquanto enxergava McLaren e Racing Point de longe. Mas quando Silverstone veio, porém, o panorama foi se moldando. A Renault bem próxima das duas rivais inglesas na briga pelo terceiro lugar do Mundial de Construtores. Para ter em conta, neste momento, após dez etapas, a Renault tem 99 pontos contra 104 da Racing Point e 106 da McLaren. Da Inglaterra para cá, sete etapas, pontuou mais que as duas: 87 contra 64 da McLaren e 63 da Racing Point.

Dos 99 tentos dos franceses, 63 são de Ricciardo, que ocupa o sexto lugar do Mundial de Pilotos. Neste momento, é o segundo piloto do resto do grid – excluindo apenas Mercedes e Red Bull – em pontuação: dois tentos atrás de Lando Norris. Ocon tem 36 e é o 12º posicionado. Além do companheiro, perde para as duas McLaren, as duas Racing Point, Charles Leclerc e Pierre Gasly.

Ocon só terminou a corrida à frente de Ricciardo duas vezes: uma no abandono do australiano do GP da Áustria e outra quando Daniel rodou tentando desafiar Carlos Sainz no GP dos 70 Anos.

É verdade que Esteban teve um começo de ano sumido: marcou somente quatro pontos nas três primeiras corridas e, realmente, esteve sumido nas primeiras etapas. Conforme o carro melhorou substancialmente, seu rendimento acompanhou. Pontuou em cinco das últimas sete provas, levando em conta que, em Mugello, tinha boas chances quando precisou abandonar por problemas no freio – situação que já havia vivido na Estíria, lá no princípio do ano.

É justo elogiar o fato de ter feito 32 pontos neste período de maior bonança, o que é efetivamente muito melhor que quatro em três corridas. Mesmo assim, segurem os doces para oferecer em premiação, porque Ricciardo fez 55 neste mesmo recorte de tempo. Redesenhando a classificação do campeonato de Silverstone para cá, Ocon seguiria fora do top-10, em 11º, passaria apenas Sainz.

Ocon fez 32 pontos nas últimas sete provas (Foto: Renault)

Após o sétimo lugar na Rússia, duas posições atrás do companheiro e derrotado pela triste Ferrari, porém, ficou feliz com o que notou.

“Concordo que a primeira parte da corrida foi minha melhor da temporada até agora. Larguei bem e o ritmo era bastante forte. O stint de pneus macios ficou bem próximo a Daniel, mas eu consegui manter os pneus vivos por um pouco mais de tempo, umas duas voltas, o que foi legal. Infelizmente, depois de trocar para pneus duros, ficou mais difícil. Ainda temos coisas a ver com relação a isso. Podíamos ter marcado mais pontos”, disse.

“Estamos chegando lá. É um bom sinal que tenhamos tido ritmo tão bom na primeira parte. Claro que não acabou sendo fantástico por causa do segundo stint, mas ainda foi um resultado decente para a equipe. Estamos alcançando o terceiro lugar do Mundial de Construtores”, comentou.

É tudo verdade. Ocon parecia desafiar Ricciardo e tinha tudo para alcançar Leclerc tirando pelo primeiro stint, mas caiu bastante de produção no segundo. É apenas mais um momento na temporada em que Ocon desaparece. Após dez corridas, salvo por alguns brilharecos, as corridas vem sendo opacas mesmo quando não são ruins. É muito difícil avaliar o desempenho do francês na temporada como qualquer coisa mais que regular. Médio, somente, e sendo otimista.

É pouco. Necessário reforçar que é pouco para alguém que, quando perdeu a vaga por desenvolvimento improvável de circunstâncias em 2018. Quando fora esteve, em 2019, muito se dizia como havia um problema fundamental na Fórmula 1 ao expelir gente com o talento de Esteban para fora do circuito. Houve quem foi além e suplicou uma mudança na Mercedes, logo onde, com Ocon na vaga de Valtteri Bottas. Mas hoje, com um companheiro de primeiro tipo como Ricciardo e bom carro, Ocon não dá a menor confiança de que entregaria o pacote básico – que podemos rebatizar de Pacote Bottas – para a Mercedes: pontos, pódios e título do Mundial de Construtores sem sufoco.

A cobrança é parecida a que deve ser feita a George Russell, mas com o asterisco que Ocon, mais velho e experiente, deveria mostrar espinha calibrada o suficiente para atender a esses desejos de quem vê nele talento fulgaz de futuro postulante ao título. O 2020 que deveria ser da volta por cima, onde Ocon mostraria ser um dos pilotos mais talentosos da Fórmula 1, é até agora um desfile sem tempero.

Qual o grande momento de Ocon na temporada? Mesmo nos dias de bom rendimento, a falta de sal é tamanha que não sobra muito ingrediente que valha a pena ser relembrado. O grande momento é a classificação em quinto lugar na Estíria, quando a Renault ainda não havia despontado, na pista molhada. Chegou, naquele momento, a animar quem esperava a grande declaração de interesse dele no macacão amarelo da Renault. O abandono na corrida encerrou a oportunidade que não se abriu da mesma forma desde então.

Nas últimas etapas cometeu mais erros. Em Mugello, rodou no fim do Q3 e impediu a última rodada de voltas rápidas; na Itália, tomou um pito da equipe ao tentar reclamar no rádio.

Ainda não é o bastante, mas o viés de Ocon é de crescimento, mesmo assim. Precisa pontuar mais, incomodar Ricciardo e, sobretudo, chamar a atenção. Talvez, acima de tudo mais, precise colocar pimenta no ritmo de corrida, aparecer mais e fazer o narrador do Canal +, Julien Febreau, gritar como fez quando Pierre Gasly venceu na Toscana.

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