Opinião GP: Abu Dhabi retrata F1 2022. Mas adeus a Vettel empresta carisma providencial  

É bem verdade que o GP de Abu Dhabi foi melhor do que a insossa pista de Yas Marina costuma entregar, mas também é certo dizer que a F1 2022 parece ter tomado gosto por corridas medianas, exceção feita à excelência de Max Verstappen. Neste domingo, no entanto, a despedida a Sebastian Vettel conferiu o brilho que faltava à etapa final do campeonato

Com exceção de 2021, quando foi palco da eletrizante e polêmica decisão do título, Abu Dhabi jamais foi capaz de brilhar por conta própria. O cenário artificial do deserto empolga pouco e raramente produz histórias interessantes ou, ao menos, boas corridas. Só que nessa estranha temporada até mesmo o insípido circuito de Yas Marina reservou surpresas. O último GP do ano teve, sim, a cara do campeonato, mas acabou brindado também por uma terna e divertida despedida a Sebastian Vettel, que decidiu se aposentar aos 35 anos. O adeus ao tetracampeão emprestou um providencial carisma ao traçado da capital dos Emirados Árabes e fez o impossível: cogitar um sentimento de saudade do que foi 2022.

Tudo bem, tudo bem, talvez esteja exagerando um pouco – ou talvez a excelente etapa em São Paulo ainda esteja muito viva na retina e está difícil de esquecer. Mas a verdade é que a corrida derradeira de Vettel despertou sentimentos mistos e conferiu ao grid uma dose necessária de humanidade. O jantar promovido por Lewis Hamilton na quinta-feira esbanjou afeição, e isso por si só já valeria o fim de semana. Os sorrisos genuínos e as homenagens nas redes sociais viralizaram. E não parou aí.

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A saudação a Sebastian Vettel antes da corrida em Yas Marina (Vídeo: F1)

Rival de outrora, Fernando Alonso também fez sua parte e decidiu ir à pista com as cores de Seb estampadas no cabeça, revelando mais tarde que existia um plano para que o alemão completasse a prova sem maiores incidentes. Antes disso, no sábado à noite, a F1 promoveu uma corrida pelo traçado envolvendo todos do paddock e tendo Sebastian à frente da multidão. Mas talvez tenha sido a imagem do domingo a mais emblemática: o corredor formado pelos pilotos para reverenciar Vettel foi de uma delicadeza ímpar.

E ainda que estivesse longe de qualquer disputa por vitória ou mesmo um pódio, Seb se tornou o centro das atenções com duelos divertidos e duros, que só não foram maiores por culpa de uma Aston Martin que ainda tem longo caminho pela frente. De toda a forma, o alemão pontuou, e os zerinhos após a bandeirada entregaram o brilho merecido de uma enorme carreira.

Aparte do quatro vezes campeão do mundo, também se faz necessário emendar aqui que o GP de Abu Dhabi apresentou uma prova melhor do que de costume, ainda que a disputa tenha sido um retrato muito fiel da F1 atual. Até por isso, é igualmente justo dizer que 2022 obrigou o torcedor a se acostumar com pouco – é, o preço de 2021 segue alto demais.

A realidade é que a corrida tinha como tema principal a decisão do vice-campeonato entre Charles Leclerc e Sergio Pérez, Ferrari e Mercedes. A estratégia e o ritmo de corrida de ambos os lados foram determinantes para as conquistas. Enquanto os italianos acertaram em cheio na configuração de corrida da F1-75, que trouxe a potência do motor e, ao mesmo tempo, anulou o desgaste de pneus, os taurinos apostaram no melhor equilíbrio do RB18. No entanto, a tática de uma única parada para Leclerc acabou sendo fundamental para o sucesso e a segunda posição no Mundial de Pilotos.

A equipe italiana também foi capaz de assegurar o vice entre os construtores, uma vez que a octacampeã viveu uma corrida tumultuada e marcada pelo abandono de Hamilton a poucas voltas do fim.

Mesmo em uma prova com algumas decisões em jogo, é imperativo destacar que corrida árabe resume bem a temporada porque apresentou também um Verstappen impecável novamente, como em grande parte do ano. O título antecipado e o recorde absoluto de vitórias em uma única disputa apenas comprovam o quanto Max esteve em uma liga própria.

É simbólico perceber ainda que Leclerc e Pérez levaram a briga pelo vice até a etapa derradeira, o que deixou claro o ano irregular de ambos. Mesmo tendo carros rápidos e, em alguns momentos do ano, o melhor, não foram capazes de vencer ou elevar o sarrafo da briga pelo título.

E ainda há a Mercedes. A esquadra errou o projeto do W13 e pagou pelo equívoco em uma temporada de poucos testes e marcada pelo teto orçamentário. Os altos e baixos vividos nesta fase final não são acaso. O time encarou um ano de extrema inconsistência, como a própria corrida em Yas Marina mostrou, e vai precisar de tempo para reagrupar as tropas.  

Portanto, assim como Interlagos salvou a reta final da temporada 2022, o adeus a Vettel foi o trunfo de Abu Dhabi – e da própria Fórmula 1, por aceitar encerrar o campeonato em um lugar de tão pouca identificação com o esporte, opção que só piora se colocar na balança a explosão que foi o GP de São Paulo.

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