F1

Opinião GP: Cheio de alma, GP do Brasil mostra ao mundo que não pode ficar de fora da F1

Ah, Interlagos! O GP do Brasil deste domingo foi mais uma prova de que o circuito paulistano não pode ficar de fora da F1. Não há por aqui o mesmo luxo, ostentação e a suntuosidade de lugares nababescos como Xangai, Abu Dhabi, Cingapura ou Bahrein. E nem deveria ser assim. Interlagos cativa por características bem mais importantes e, sobretudo, por emprestar ao mundo do esporte um pouquinho de alma e coração

Warm Up, de Interlagos / FERNANDO SILVA, de Interlagos
 

INTERLAGOS FOI O PALCO DAQUELA que, sem sombra de dúvidas, foi a melhor e mais emocionante etapa da temporada 2016 do Mundial de F1 no último domingo (13). Não apenas neste ano, mas talvez tenha sido a melhor corrida em muito tempo sob vários aspectos: tensão, drama, imprevisibilidade, ação e emoção. Proporcionou ao mundo muitas grandes histórias: como a de Lewis Hamilton, que adiou em duas semanas a decisão do título; do menino-gênio Max Verstappen, que brilhou como nunca em mais uma atuação soberba; a melhor corrida de Felipe Nasr na F1 e os pontos que traduzem uma espécie de redenção e a maneira emocionante como o xará Felipe Massa se despediu do GP do Brasil fazendo chorar muita gente nas arquibancadas, no pit-lane, na sala de imprensa e outros tantos espectadores ao redor do mundo. 
 
Ter a chance de estar em Interlagos é viajar pela história, é entrar no túnel do tempo da F1. É lembrar de corridas épicas e tão emocionantes quanto a de ontem: aos mais antigos, os triunfos de Emerson e Pace; as vitórias de Ayrton Senna na década de 1990 e as conquistas de Massa que fizeram o mundo se emocionar em 2006 e 2008, entre tantas outras. 
 
A corrida deste último domingo entra para a lista daquelas que vai entrar para os livros de história pela sua dramaticidade, mas também porque reforça o caráter de Interlagos e do GP do Brasil: uma corrida cheia de alma, seja pela aura iluminada de um circuito incrível, seja pela chuva que às vezes vem da represa, seja pela torcida incrível nas arquibancadas. Até mesmo por nem de longe ser um local que esbanja luxo, ostentação e suntuosidade de praças como Xangai, Cingapura, Abu Dhabi. Vencer em Interlagos é especial. Correr em Interlagos é especial. Estar em Interlagos é especial.
Nenhum dinheiro pode pagar a alma que Interlagos empresta à F1 (Foto: Rodrigo Berton/Grande Prêmio)
Mesmo antes de começar a acelerar no fim de semana, Nico Rosberg ressaltou a importância histórica de Interlagos e deixou claro que preferiria conquistar o título por aqui. Lewis Hamilton sempre sonhou em vencer em São Paulo e voltar a repetir um feito do ídolo Ayrton Senna. A verdade é que os pilotos pouco se importam em ter de correr em lugares faraônicos que se destacam apenas pelas artificialidades. Nada se espera de Abu Dhabi, palco do fim da temporada e uma pista totalmente sem vida. Interlagos é exatamente o oposto. Aqui, como em Silverstone, Monza ou no México, se respira automobilismo.
 
Desde as primeiras horas da manhã, a chuva não deu trégua por aqui. Ainda assim, milhares de fãs e apaixonados pelo esporte lotavam as cercanias de Interlagos em meio ao trânsito sempre complicado e da ‘bagunça organizada’ que sempre é vista às vésperas do GP. Mesmo sem ter brasileiros com chances de vitórias, o vigor dos torcedores era inegável e se refletia nas muitas camisas alusivas a Hamilton, Rosberg, à Red Bull, muitos vestindo aparatos da McLaren e a Ferrari seguindo como a preferida da galera.
 
Essa mesma galera pulsou nas arquibancadas de Interlagos e talvez tenha sido a grande razão para que a corrida deste domingo fosse em frente até o fim. Foi incrível ver a vibração da multidão desde a tradicional parada dos pilotos, quando, ao fim do desfile, Massa desceu do caminhão e foi para junto do povo sentir uma energia que só existe por aqui. Nasr também viveu essa experiência de ficar perto dos fãs, e tudo isso traz uma motivação que é inigualável.
Hamilton repetiu o ídolo Ayrton Senna ao finalmente vencer em Interlagos (Foto: Rodrigo Berton/Grande Prêmio)
A corrida foi fantástica, absurda! Obviamente, a chuva contribuiu em grande parte para tornar o espetáculo do último domingo algo maravilhoso. Mas os fãs brasileiros mereciam, sobretudo depois de um ano de poucas alegrias no esporte a motor e de muitas incertezas sobre o futuro, seja de Nasr — que, convenhamos, mostra que merece estar na F1 depois de uma atuação como a deste domingo —, seja do próprio GP do Brasil como um todo.
 
Quando a prova foi interrompida pela segunda vez, foi sensacional ver toda a reprovação do público no Setor G em razão da bandeira vermelha. O que todo mundo queria ver era a corrida. Felizmente, os deuses do esporte iluminaram a mente dos ‘gênios’ da FIA, e o GP do Brasil seguiu em frente até o fim, para a festa de Hamilton, o conformismo de Rosberg com o segundo lugar e a redenção do jovem Felipe Nasr.
 
Mas a grande cena do dia foi a linda despedida de Felipe Massa de Interlagos. Num circuito em que fez história por ter sido o brasileiro que mais subiu ao pódio, brilhando com duas vitórias, levando o público a sorrir em 2006 e a se emocionar com o título que durou 30s em 2008, Felipe foi às lágrimas e certamente milhares o acompanharam naqueles minutos depois de ter sido mais uma vítima da subida do Café.
Felipe Massa coroa uma carreira muito bonita e muito digna com despedida emocionante em Interlagos (Foto: Williams)
Vi Massa ser ovacionado pela sua torcida, empunhar a bandeira do Brasil e caminhar na direção do pit-lane diante da chuva de aplausos de quem estava à sua frente para depois ser abraçado pela sua família. As lágrimas se misturavam à água da chuva e eternizaram um dos momentos mais belos da história do esporte, fazendo justiça a um piloto que pode até não ter sido campeão, mas coroou uma carreira vitoriosa, muito bonita e igualmente muito digna, saindo pela porta da frente da F1.
 
São tantos os motivos que é chover no molhado, como ontem, dizer que a Interlagos não pode ficar de fora da F1. E a F1 não pode abrir mão de uma corrida tão mágica e que exala alma, como o GP do Brasil. 
 

Opinião GP é o editorial do GRANDE PRÊMIO que expressa a visão dos jornalistas do site sobre um assunto de destaque, uma corrida específica ou o apanhado do fim de semana de automobilismo.

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